A Rua do Senado, no Centro do Rio, acaba de ser eleita a rua ‘mais cool’ do mundo pela revista Time Out. Um feito inédito para a América do Sul, e cai como luva para um endereço que, há alguns anos, deixou de ser apenas a vizinhança charmosa da Feira da Lavradio para se tornar um polo vibrante de cultura, gastronomia e celebração carioca. De um lado, casas históricas que resistem ao tempo; do outro, novas ocupações criativas que trouxeram arte, música e um frescor contemporâneo. No meio disso tudo, uma rota que combina alta gastronomia, botequim raiz, antiquários, destilaria artesanal e rodas de samba antológicas.
Se a Time Out buscava um lugar que sintetizasse o espírito da cidade — múltiplo, espontâneo, imperfeito e cheio de brilho — acertou em cheio. O GLOBO preparou um roteiro do que faz da Rua do Senado a rua mais irresistível do Rio.
Nenhuma história da Rua do Senado começa sem passar pelo Armazém do Senado, aberto em 1907 e tombado como Patrimônio Cultural do Rio. O que hoje é ponto turístico internacional chegou a quase fechar durante a pandemia.
O resgate veio de onde ninguém esperava: do grupo de amigos que batucava no balcão de madeira para disputar quem sabia mais sambas-enredo. O som cresceu, ganhou público, moveu a vizinhança — e salvou o negócio. Ali, literalmente, o samba impediu que as portas se fechassem.
Agora, a cada sábado e domingo, a rua se transforma: cadeiras de praia se alinham na calçada; cervejas de casco passam de mão em mão; o tremor dos pandeiros anuncia que o “língua de trapo” vai subir; turistas se misturam aos cariocas que vêm da Zona Norte, Zona Sul, Baixada e até de outros países para sentir a vibração.
O público é tão fiel que atrações fixas se tornaram tradição:
- Grupo Exaltação ao Samba Enredo — 17 anos de casa
- Marias do Zé, roda só de mulheres — 14 anos
- Samba de Doutor, quinzenal às sextas
- E participações-surpresa de artistas, músicos e atores, com direito a canjas inesperadas
Quem vai ao Armazém encontra um botequim de verdade, com empadinhas de frango, palmito e camarão, tremoços, frios, sandálias Havaianas nas prateleiras.
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Se o samba foi o coração, a gastronomia virou o motor que fez a rua disparar no ranking mundial da Time Out.
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Aberto em 2017 pelo chef Lucio Vieira, o restaurante Lilia foi um dos primeiros a mudar o astral da rua. Trabalha com ingredientes sazonais, técnicas delicadas e menus criativos que colocaram o Lilia no Bib Gourmand do Michelin e no 50 Best Discovery. No almoço, trio fechado (entrada, principal, sobremesa). À noite, menu degustação ou à la carte.
Vegetais ganham protagonismo; peixes e assados vêm com combinações surpreendentes. É o endereço mais gastronômico da rua — mas ainda com clima leve, sem frescura.
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Do outro lado da calçada, o bar intimista do mesmo chef ganhou fama justamente por abraçar aquilo que o carioca mais gosta: comer bem, beber bem e viver a rua. Dentro, só nove banquetas e uma cozinha aberta. Fora, cadeiras de praia coloridas, copos gelados, petiscos, a sombra dos prédios antigos e o som do samba vindo do Armazém.
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Para quem prefere carnes, o Braseiro entrega clássicos: picanha fatiada com batata portuguesa; linguicinha estalando; pastel sequinho; coração de galinha; pão de alho; chope trincando; caipirinhas bem servidas.
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A Destilaria Maravilha produz gin, vodca e cachaça ali mesmo, em alambiques à vista do público. O casarão tem tijolos aparentes, espelhos, bustos, objetos vintage — e uma atmosfera que mistura bar sofisticado, fábrica artesanal e pista de dança.
À noite, DJs, shows e um público que circula entre drinques e rodas culturais. No menu, pratos elegantes como carpaccio de polvo, tartare e crudo de atum. Na carta, o queridinho é o Gin Basil Smash — feito com o gin da casa.
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Quem gosta de garimpar achados especiais tem endereço certo na região. O Atelier Mon et Ton, inaugurado em 2022, funciona como um brechó cheio de personalidade, com peças garimpadas majoritariamente em Barcelona — casacos, sapatos, óculos e outras descobertas que valem a visita.
Já no segundo andar de um dos sobrados centenários, desde 2019 funciona o Ateliê Bonifácio, onde moda, gastronomia e arte de matriz africana se misturam. O espaço reúne uma loja multimarca de roupas e acessórios e um centro cultural que recebe apresentações de música e dança, além de rodas de conversa. Aos sábados, a casa abre o dia com um café da manhã servido a partir das 10h (R$ 30) e, na sequência, oferece almoço.
Solar (ex-Solar dos Abacaxis)
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O Solar dos Abacaxis é um espaço independente dedicado à arte e à educação, mantido de forma colaborativa e sem fins lucrativos. Em funcionamento desde 2015, o Solar realiza mostras culturais individuais e coletivas, promove residências artísticas e mantém um programa educativo voltado especialmente para crianças e adolescentes.
Desde setembro de 2023, passou a ocupar a nova sede na Rua do Senado, onde oferece uma agenda permanente — e inteiramente gratuita. O lugar se consolidou como um ponto de encontro aberto à cidade: um território de convivência, pesquisa, acolhimento e celebração da produção cultural contemporânea.
O Solar faz parte do Mercado Central, iniciativa que busca ocupar e revitalizar o conjunto de sobrados da antiga fábrica da Granado, com mais espaços dedicados a gastronomia e entretenimento. A ideia é que tudo esteja funcionando ainda neste ano, quando o Mercado Central RJ abrirá as suas portas oficialmente.
O espaço da Granado (foi onde funcionou os primeiros laboratórios da empresa), ocupado pelo coletivo de arte Solar dos Abacaxis, vai abrigar ainda uma série de restaurantes, bares, lojas de flores e de vinhos.

