O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta quarta-feira (30), em Brasília, que a Polícia Federal investigue uma série de ataques contra imagens e espaços religiosos registrados em diferentes partes do país. A Procuradoria-Geral da República (PGR) também deverá avaliar a adoção das medidas cabíveis. Segundo Dino, os episódios indicam uma “aparente onda de ataques” e podem envolver crimes como vilipêndio, preconceito religioso, dano, furto e incêndio.
Entenda: Dino determina à PF abertura de inquérito para investigar ataques a imagens de santas e a terreiros
A decisão ocorre no contexto da disputa judicial envolvendo publicações sobre Nossa Senhora Aparecida e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Posts nas redes sociais associaram o político a uma suposta proposta para retirar da santa o título de padroeira do Brasil, o que é negado pelo candidato. No domingo (27), Dino havia derrubado uma decisão de André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinava a retirada de conteúdos sobre o assunto. No dia seguinte, porém, o ministro Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino.
Ao justificar a nova determinação, Dino afirmou que passou a receber relatos de ataques religiosos após a decisão de domingo. Os episódios, porém, não estão necessariamente relacionados à polêmica eleitoral: alguns ocorreram meses antes da controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida, que ganhou força nas redes sociais apenas na segunda quinzena de setembro. O ministro determinou que os casos sejam investigados pela PF devido à repercussão em diferentes estados e à possível existência de crimes contra direitos humanos.
Cuiabá (MT): imagem de Nossa Senhora Aparecida é encontrada sem cabeça
Em setembro, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada sem a cabeça em Cuiabá, em um episódio que passou a ser associado à onda de ataques mencionada por Dino. O caso ganhou repercussão em meio à polêmica nacional envolvendo a padroeira do Brasil e foi incluído pelo ministro entre as ocorrências que deverão ser analisadas pelas autoridades. A decisão de Dino também cita outro episódio em Mato Grosso, ocorrido em março, no qual um homem destruiu com um machado uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em uma capela de Jauru, a 463 quilômetros da capital.
Jauru (MT): imagem de Nossa Senhora Aparecida destruída com machado
Em 7 de março, um homem de 47 anos danificou com um machado uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que ficava dentro de uma pequena capela, em uma caixa de vidro, na entrada de Jauru, a 463 quilômetros de Cuiabá. Ele foi detido após ser flagrado destruindo a imagem. Segundo o caso citado na decisão, o homem teria afirmado que agiu “a mando de espíritos”.
Novo Progresso (PA): imagem incendiada às margens da BR-163
Na noite de 1º de agosto, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi destruída por um incêndio às margens da BR-163, a cerca de 65 quilômetros de Novo Progresso, no Pará. Segundo as informações reunidas na decisão, os responsáveis quebraram o cadeado do local, usaram pneus e combustível para alimentar as chamas e destruíram completamente a estrutura. A imagem havia sido instalada cerca de três anos antes e era utilizada como ponto de oração por moradores e viajantes.
Santo Amaro (BA): assentamento de Exu destruído em terreiro
Em 4 de agosto, um assentamento de Exu instalado havia cerca de três anos na entrada de um terreiro no distrito de Acupe, em Santo Amaro, no Recôncavo da Bahia, foi destruído. Segundo a denúncia apresentada pela mãe de santo responsável pelo espaço, um pastor teria participado da ação. Houve ainda um segundo episódio de vandalismo em agosto. Ninguém havia sido preso até a data da decisão.
Esmeraldas (MG): terreiro de umbanda é depredado
Em 3 de agosto, um terreiro de umbanda em Esmeraldas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi alvo de vandalismo. Imagens de orixás foram destruídas, plantas e oferendas foram depredadas e objetos religiosos foram furtados. O representante do terreiro, Murilo Vieira Rodrigues, relatou que assentamentos sagrados foram violados e elementos religiosos foram levados.
Jatiúca (AL): imagem de Nossa Senhora das Graças é quebrada
Em 6 de agosto, uma imagem de Nossa Senhora das Graças instalada na antiga Avenida Amélia Rosa, no bairro da Jatiúca, em Maceió, foi parcialmente destruída. A base da escultura foi quebrada e fragmentos ficaram espalhados pelo chão. A Paróquia Divino Espírito Santo divulgou uma nota de repúdio após o episódio.
Rio Grande (RS): anjos são derrubados dentro de catedral
Em 29 de agosto, duas imagens sacras que representavam anjos foram derrubadas e quebradas no altar da Catedral de São Pedro, em Rio Grande, no Sul do estado. As peças foram danificadas pouco antes de uma celebração de Crisma que seria presidida pelo bispo Dom Jorge Pierozan. A catedral é considerada um dos principais patrimônios históricos e religiosos do município.
Londrina (PR): imagens de santos são destruídas em loja
Uma loja de artigos religiosos na Alameda Miguel Blasi, no centro de Londrina, foi alvo de ataques contra imagens de santos. No episódio citado na decisão, ocorrido na madrugada de 1º de setembro, um homem foi flagrado por câmeras chutando e quebrando peças expostas na fachada, entre elas imagens de São Miguel Arcanjo, Nossa Senhora de Lourdes, Santa Luzia e Carlo Acutis. A estátua de Carlo Acutis teve os pés quebrados.
Salvador (BA): imagem de Nossa Senhora das Graças é destruída
Em 11 de setembro, fiéis encontraram quebrada a imagem de Nossa Senhora das Graças instalada em frente à Paróquia Senhor Bom Jesus dos Milagres, no bairro de Matatu, em Salvador. O episódio ocorreu por volta das 7h, antes da celebração da Santa Missa. Segundo a nota da paróquia, a imagem foi encontrada quebrada no adro da igreja.
Salvador (BA): imagem de Santa Dulce dos Pobres é destruída
Em 22 de setembro, uma imagem de Santa Dulce dos Pobres foi retirada de um altar lateral e quebrada dentro da Igreja Matriz da Paróquia Jesus Cristo Ressuscitado, no bairro de Plataforma, em Salvador. O caso foi registrado na Polícia Civil e ganhou repercussão nas redes sociais no dia 27. Até a data da decisão de Dino, ninguém havia sido preso.
Os casos reunidos por Dino ocorreram em diferentes períodos de 2026 e envolvem tanto símbolos do catolicismo quanto espaços e elementos de religiões de matriz africana. A decisão não afirma que todos os episódios estejam ligados entre si ou à disputa eleitoral envolvendo Nossa Senhora Aparecida. A determinação é para que PF e PGR apurem individualmente as circunstâncias e eventual ocorrência de crimes em cada caso.
Saiba quais são os casos de intolerância religiosa citados por Flávio Dino após polêmica com Nossa Senhora Aparecida
