Após ter seu credenciamento negado para fotografar as partidas da Copa do Mundo de 2026, a fotógrafa francesa Florence Pernet decidiu inovar e trabalhar com aquilo que tinha ao seu dispor. Direto de casa, ela fez fotografias de sua própria televisão, capturando jogadores, torcida e outros detalhes, como se no estádio estivesse, e publicou em seu perfil no Instagram. A repercussão foi imediata e gerou um movimento viral com fotógrafos esportivos de todo o mundo.
“Eu não tenho o credenciamento, mas tenho a minha TV e minha própria visão”, diz a legenda da publicação de Pernet, que alcançou mais de um milhão de curtidas em sua publicação.
A relevância do post foi tamanha que chegou até a seleção de Portugal, que produziu uma postagem colaborativa com a fotógrafa idealizadora do estilo, que também rendeu mais de um milhão de likes na rede social. Fotos como a do astro português, Cristiano Ronaldo, tiradas de uma TV, encantaram torcedores e entusiastas da fotografia, que caiu nas graças do público.
Quem também se juntou à trend foi o atacante francês Michael Olise, que apagou todas as suas publicações no Instagram e deixou apenas três. Em ambas as postagens, Olise colocou fotos suas feitas no estilo das fotos de televisão.
Muito além de um viral, os posts também viraram uma forma de protesto para aqueles que, mesmo credenciados, acabaram barrados do mundial de alguma forma. Foi o caso de Sidy Talla, que é o fotógrafo oficial da seleção de Senegal e que não pôde comparecer aos estádios devido a restrições de seu visto para ir ao Canadá que o impediram de cobrir o mundial in loco.
Em suas redes sociais, o fotógrafo publicou como realiza seu trabalho de fotografia em formato remoto. Direto de um quarto de hotel e vestindo o colete próprio dos profissionais que estão nos estádios, Talla usa seu equipamento profissional de frente para a televisão e fotografa os jogadores senegaleses.
“Dentro ou fora do campo, minha paixão permanece a mesma. Não importa o palco, sempre terei o mesmo desejo: contar histórias através de imagens”, disse ele em publicação nas redes sociais.
O viral também chegou ao Brasil e engajou fotógrafos do país a seguirem o modelo com a seleção brasileira. Um deles foi Gil Gomes, que trabalha com fotografia esportiva desde 2020 e foi impactado pela trend através das redes sociais e quis fazer parte do movimento. Gil chegou a tentar o credenciamento para a Copa deste ano, mas esbarrou nos trâmites de burocracia.
— Eu decidi participar da trend porque não tem como a gente não ficar com aquele gostinho do ‘e se eu estivesse lá?’. Tenho muitos amigos que foram para lá e daqui a gente torce muito em cada registro e cada momento. Por isso, eu decidi também participar de alguma forma, fazendo o registro do último jogo do Brasil, na vitória contra a Escócia — disse ele em entrevista ao GLOBO.
Gil afirma que as fotos de televisão são uma perspectiva nova que pode valorizar a criatividade no campo de atuação da fotografia esportiva. Segundo ele, as técnicas empregadas neste tipo de foto, além de inovadoras, exigem habilidades e valorizam o trabalho mais refinado dos profissionais, sem entrar em conflito com os registros tradicionais feitos in loco.
— Você tem diversos profissionais entregando um conteúdo diferente, com várias técnicas, composições, com baixa velocidade, uma dupla exposição. Eu creio que ela traz uma grande relevância, mais para o setor criativo, mas não impacta em nada o conteúdo ali em campo — disse o profissional.
Por fim, o fotógrafo revelou que este é apenas o início de sua jornada com a Copa, e que pretende estar presente no mundial de 2030 e fazer parte da cobertura in loco.
— Devido às várias etapas, eu acabei recuando de tentar, de fato, meu credenciamento. Mas somente adiei o plano. Quero muito estar em 2030, ainda mais em uma Copa com três países novamente: Marrocos, Espanha, Portugal — completou.
Com as fotografias tiradas pela televisão, surgiu entre pessoas que acompanham o movimento se, eventualmente, há algum tipo de implicação jurídica aos fotógrafos. Para Antonio Carlos Morato, professor e mestre em direito civil pela Universidade de São Paulo (USP), é necessário analisar a lei e ver questões como originalidade da obra e a distribuições de direitos que, originalmente, são da Fifa.
— O que a FIFA faz é sublicenciar a imagem para as empresas de radiodifusão. Nesse exemplo dos fotógrafos é importante ir até o licenciador, que seria a FIFA. Em casos de domínio privado, é importante que exista uma autorização para que uma obra nova (foto dos fotógrafos) seja feita de uma obra originária (transmissão do jogo) — afirmou o professor.
Antonio implicações também para os direitos autorais dos próprios fotógrafos, que precisam do conceito de originalidade — com implicação de técnicas e modelos específicos de fotografias — para que configurem como obra produzida pelo profissional
— Como tem essa dificuldade de autorização para os fotógrafos, simplesmente reproduzir o que está na tela não gera direito autoral nenhum, para o fotógrafo. Você poderia falar em direito conexo da emissora de televisão, mas jamais em direito autoral do fotógrafo. Para discutir algum direito do fotógrafo, ele teria que dar um enquadramento diferente, ampliar a imagem, focar em alguém da torcida. Se isso for possível tecnicamente, algo que torne aquele material original e diferente de uma reprodução comum como um print — completou.

