Em tempos de crise econômica e apatia fashion, revisitar velhos clássicos é uma conhecida estratégia da indústria para a manutenção dos negócios. Na semana de moda de Milão, que aconteceu entre 21 e 27 de setembro, não foi diferente. Miuccia Prada focou no náilon e nas saias, duas de suas marcas registradas. A Missoni criou paletas diurnas desmaiadas para o tradicional chevron (conhecido zigue-zague da grife). Stefano Gabbana e Domenico Dolce reverenciaram o barroco italiano com um styling mais descolado. Maria Grazia Chiuri deu sensualidade às peles da Fendi e Demna Gvasalia viu na pressão pelas vendas a narrativa para um de seus melhores desfiles à frente da Gucci.
“Não houve nada muito emocionante na semana de Milão. Nem na temporada como um todo”, diz a consultora de moda Costanza Pascolato. “De tão pressionados por resultados, os estilistas não conseguem propor nada inovador.” O diretor criativo Dudu Bertholini aponta dois fatores para a retração criativa: “O caos geopolítico e os novos estilistas à frente das principais maisons do mundo, que ainda estão começando a dar uma ‘cara’”. Caberá a Dario Vitale (ex-Versace), recém-nomeado diretor criativo da Armani, chacoalhar Emporio e Giorgio na próxima temporada.
As saias de Prada
Prada SS27
AFP
Em uma passarela de vidro, Miuccia Prada e Raf Simons apresentaram uma coleção de verão ao mesmo tempo feminina e poderosa. As grandes protagonistas foram as saias — na altura do joelho, bordadas, rodadas, de couro, lã e velcro. Foram 63 looks, sem uma única calça ou short. Apenas saias. No mais puro estilo Miuccia Prada.
“Ela fez um trabalho escultural na peça que mais representa as duas últimas décadas da casa”, diz Costanza Pascolato. Para acompanhá-las, havia desde microtops até jaquetas de couro desgastado — incluindo as perfecto, tão ligadas ao universo rock de Raf Simons —, além de camisas e blusões de lã.
“Hoje, as saias representam liberdade de expressão para todos os corpos, raças e gêneros. Ao contrário do passado, qualquer um pode usá-las”, analisa Dudu Bertholini. O náilon, símbolo da marca, apareceu em jaquetinhas utilitárias, sem perder a feminilidade.
O ‘Dolce’ barroco
Dolce & Gabbana
Divulgação
Uma homenagem à opulência da Alta Moda italiana sob o olhar mais descolado já feito pela Dolce & Gabbana em um prêt-à-porter. O verão 2027 trouxe o barroco da Sicília de Domenico Dolce para o guarda-roupa irreverente da Milão de Stefano Gabbana. Calças jeans recortadas por rendas, jaquetas de denim cobertas com cristais, vestidos de laise praianos, rendas em tons pastel e lingerie à mostra dividiram a passarela com brocados, alfaiataria e a estampa de leopardo. Mantiveram a mesma sensualidade, mas com atitude mais contempo
Fendi sexy
Em seu segundo prêt-à-porter para a Fendi, Maria Grazia Chiuri construiu uma coleção em que sensualidade e proteção caminham juntas. Lingeries saíram do armário para as ruas, sem vulgaridade. Sutiãs vieram sob blazers, casacos de pele, camisas abertas e vestidos transparentes. E o denim apareceu em calças de cintura baixa com lavagens desgastadas.
Fendi SS27
Reprodução/ Milano Fashion Week
“A estilista fez uma mistura de luxo com fetiche, apropriando-se dos códigos de construção da roupa íntima”, diz o stylist Rogério S. “Não é novo, mas ela faz muito bem.” Dudu Bertholini frisa: “É uma mulher que fala de sexualidade sem perder o pé no urbano”.
A loja da Gucci
Gucci de Demna
Divulgação
Em seu terceiro desfile à frente da casa italiana, o estilista georgiano Demna Gvasalia transformou a passarela em loja, com estantes, corners e looks para todo tipo de cliente, da periguete à ultraelegante. “Demna é o storyteller mais eficaz da moda contemporânea”, opina Dudu Bertholini. Tiveram paletós de ombros marcados, xadrez tartan, silhuetas fluidas e horsebits. “O que mais gostei foi da mistura do preppy com o punk”, diz Rogério S.
Armani comfy
A Emporio Armani, com Leo Dell’Orco e Silvana Armani à frente (é a última coleção antes da entrada de Dario Vitale), apostou numa apresentação pouco convencional, um “não desfile”. Chamada “Vestígios do Tempo”, investiu em tons pálidos e neutros, no preto absoluto e também nos metalizados. As texturas vieram com lavagens que criaram nuances sutis. Já as peças são aquelas que não têm erro: calças amplas, alfaiataria desconstruída e jaquetas bomber. Para usar em muitas temporadas.
Emporio Armani na MFW
Divulgação
Brasil em Milão
Feira de negócios criada em 2002 para dar visibilidade a designers de fora da União Europeia, a WHITE Milano fez uma bela dobradinha com o Fashion Label Brasil. O programa, iniciativa da Abest e da ApexBrasil, ajuda pequenas marcas como a de Débora Parisotto (foto) a expandirem seus pontos de venda para fora do país. “Isso só fortalece o design nacional”, diz Rogério S.
Missoni diurna
À frente da Missoni desde o ano passado, o estilista Alberto Caliri trouxe o DNA da marca para o verão 2027, sem a nostalgia setentista. O chevron continua, mas numa versão mais fresh, diluído em transparências, tramas abertas e peças leves que acompanham o corpo sem aprisioná-lo.
Missoni
Reprodução
A alça cresceu
Bolsa da Prada com a alça longa
Divulgação
Praticidade aliada à beleza: essa conjunção resultou na it-bag da temporada. Mais larga do que alta e de alças longas, a bolsa a tiracolo foi protagonista na coleção de verão 2027 de grifes como Fendi, Ferragamo, Prada (na foto), Gucci, Marni, Jil Sander e Bottega Veneta, entre outras.
Semana de Moda de Milão: os clássicos ganham novas versões no verão 2027
