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outubro 10, 2026
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Fila na calçada e sabores de família: festival concorre a prêmio internacional e coloca a Maré no roteiro gastronômico

Por · outubro 10, 2026
Fila na calçada e sabores de família: festival concorre a prêmio internacional e coloca a Maré no roteiro gastronômico


A história de Tiago da Conceição Cordeiro, de 34 anos, e Augusto César Trindade, de 33, começou antes mesmo de os dois nascerem. Os pais, paraibanos de Lagoa de Dentro, já eram amigos quando chegaram ao Rio e se estabeleceram na Maré. Os filhos cresceram juntos, dividiram histórias e, agora, dividem também uma cozinha. É dessa parceria que nasceu o Nordestino, hambúrguer feito na brasa com queijo coalho e carne- seca, um dos 16 pratos do Festival Comida de Favela, que coloca a Maré em um roteiro gastronômico durante todo este mês.
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No Braseiro Nordestino, onde os dois amigos trabalham juntos, o movimento surpreendeu logo no primeiro fim de semana. Foram mais de 120 Nordestinos vendidos, segundo eles — mais que o dobro dos cerca de 50 a 60 pedidos que costumam receber em um fim de semana. A procura foi tanta que o sistema de pedidos precisou ser interrompido por um momento, enquanto mesas extras eram colocadas do lado de fora para acomodar os clientes.
— A gente sabia que ia trazer visibilidade, mas não esperava tanto. Aqui nunca tinha tido fila. Desta vez teve até fila de espera na calçada para o pessoal provar o hambúrguer — conta Cordeiro.
Augusto César Trindade prepara o Nordestino, hambúrguer criado por ele e Tiago Cordeiro para o Festival Comida de Favela
Divulgação/Redes da Maré/Luiza Chataignier
A quarta edição do Festival Comida de Favela segue até 30 de outubro com 16 bares, restaurantes, barracas e outros empreendimentos selecionados entre 150 inscritos. Os pratos, que custam de R$ 15 a R$ 55,90, concorrem em duas categorias: Comida de Bar, Pensão e Restaurante e Comida de Rua e Quiosque. O público poderá experimentar as receitas e votar nos favoritos. A avaliação também terá a participação de 16 jurados, entre profissionais da gastronomia, jornalistas, influenciadores, professores, cozinheiros e moradores da Maré e de outras favelas.
Os três primeiros colocados de cada categoria receberão prêmios em dinheiro, de R$ 3 mil a R$ 10 mil. Para os participantes, porém, o festival já começa antes mesmo da votação: os selecionados passaram por mentorias e consultorias voltadas para gestão, preço, cardápio, marketing e preparação dos pratos.
A iniciativa da Redes da Maré, com patrocínio do BNDES, chega este ano com duas novidades. Uma delas é o reconhecimento internacional: o festival está entre os quatro finalistas na categoria de Melhor Festival Culinário da América Latina do World Culinary Awards 2026. O vencedor será anunciado no próximo dia 14.
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A outra novidade está além do prato. Pela primeira vez, o evento lança a campanha Maré sem Assédio, com o slogan “Respeito também é receita na Maré”. As equipes dos estabelecimentos participantes receberam formação para lidar com situações de assédio e orientar mulheres que se sintam ameaçadas ou em risco.
Hambúrguer na brasa com queijo coalho e carne-seca, do Braseiro Nordestino
Divulgação/Redes da Maré/Luiza Chataignier
Entre as ações está o Suco Lilás. A mulher que se sentir em perigo e pedir a bebida poderá ser retirada do estabelecimento de forma segura, com apoio da equipe treinada e, se necessário, de motoristas parceiros.
— Sabemos que a responsabilidade é coletiva, tanto de quem frequenta quanto de quem trabalha e administra esses espaços — afirma Mariana Aleixo, coordenadora da Redes da Maré e uma das idealizadoras do festival.
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A comida, na Maré, conta histórias que começaram muito antes da abertura de cada restaurante ou barraca. O festival nasceu justamente dessa percepção. A primeira edição foi realizada em 2015, a partir da experiência do projeto Maré de Sabores, criado pela Redes da Maré há 16 anos para qualificar mulheres do território e ampliar oportunidades de trabalho e renda. O festival passou a olhar também para um universo maior de empreendedores da alimentação.
Ronivaldo Chagas, do Angu do Pardal, prepara angu à baiana
Fotos de divulgação Redes da Maré/Luiza Chataignier
Hoje, segundo a organização, são 1.118 empreendimentos de alimentação na Maré. A gastronomia representa 33% dos empreendimentos comerciais do território e se mistura à identidade de uma população marcada por diferentes trajetórias, entre elas a forte presença nordestina. Cerca de 25% dos moradores têm origem naquela região do país, segundo dados citados pela Redes da Maré.
— A comida tem esse lugar do encontro, do bem-viver, de juntar os familiares em celebrações. Isso faz parte da nossa identidade e também é transformado em comércio, num espaço de serviço importante no território — explica Mariana.
É essa mistura de negócio, memória e identidade que aparece nos pratos desta edição.
Na Braseiro Nordestino, Tiago Cordeiro e Augusto Trindade transformaram uma amizade de infância em negócio. Cordeiro assumiu o antigo bar do pai depois da morte dele, durante a pandemia. Tridande levou a experiência na cozinha, e os dois decidiram unir as habilidades. O hambúrguer do festival é uma homenagem às raízes paraibanas das famílias, com queijo coalho, carne-seca, molho da casa e anéis de cebola.
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— A gente cresceu sempre juntos e estar com ele nessa caminhada é muito bom. Eu confio nele de olho fechado, e ele também confia em mim — diz Cordeiro.
O pão de alho com costela, do Favelas RJ, foi criado por Verônica Pires e Iago Silva e é inspirado nas mães dos dois
Divulgação Redes da Maré/Luiza Chataignier
Se o festival render um dos prêmios, a dupla já sabe onde pretende colocar o dinheiro: no sistema de exaustão da cozinha, hoje improvisado.
No Favelas RJ, o prato escolhido também nasceu de uma história familiar. Verônica Pires, de 40 anos, cria da Maré, e Iago Silva, de 34, participam com pão de alho com costela, receita inspirada nas mães dos dois.
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O restaurante funciona em um imóvel que pertenceu ao pai de Verônica. Depois da pandemia e da morte dele, ela decidiu abrir o negócio no local como uma forma de manter viva a ligação com a família. O pai havia chegado à Maré vindo da Bahia, quando ainda existiam palafitas no território.
— Quisemos fazer uma coisa que lembrasse nossas mães — conta Verônica.
No Angu do Pardal, a história tem quase cinco décadas. Ronivaldo Chagas, de 42 anos, chegou à Maré aos 17, vindo de Minas Gerais, para trabalhar com Daci Alves Magalhães, o Pardal, a quem considera como um pai. Primeiro, ajudava a vender o angu. Depois, passou a trabalhar na cozinha e aprendeu a preparar a receita que hoje leva à Vila do João, onde mantém o ponto que participa do festival.
A história do Angu do Pardal começou na Penha, em 1975. Em 1979, Pardal abriu uma barraca na Escola Bahia, em Bonsucesso, na altura da Passarela 7 da Avenida Brasil, acesso à região da Maré, e deixou o negócio para o filho, Vanderlei. Chagas seguiu outro caminho, com uma barraca na Vila do João. A receita leva miúdos e, segundo ele, agrada a quem aprecia esse tipo de iguaria.
— Eu não sabia preparar o angu à baiana. Nesse tempo que fiquei na cozinha, aprendi a preparar o angu com o Pardal — conta.
As histórias dos empreendedores são também parte da experiência proposta pelas caravanas do festival. Aos sábados e domingos, grupos poderão percorrer a Maré a pé ou de van, acompanhados por moradores que apresentam o território e conduzem os visitantes por cerca de quatro ou cinco estabelecimentos. A proposta é que, além de comer, o público conheça as origens dos pratos e dos próprios comerciantes.
— A gente quer fazer esse letramento de Maré, falar que aqui tem 140 mil habitantes, 47 mil domicílios, falar dessa memória alimentar e do festival — diz Mariana.
Para as caravanas, é preciso fazer reserva pelo WhatsApp 99079-7966.
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