Há mais de um século, o psiquiatra suíço Carl Jung tornou a introversão e a extroversão elementos centrais de sua teoria dos tipos psicológicos.
Hoje, tendemos a usar “introvertido” e “extrovertido” como uma forma resumida de descrever o quanto alguém é sociável. A grafia preferida por Jung era “extrovertido” (“extravert”), e sua distinção ia muito além de gostar de festas ou de estar cercado de outras pessoas.
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A distinção original proposta por Jung levanta uma questão na era da inteligência artificial generativa. Se as pessoas diferem na forma como naturalmente se orientam para seus mundos interno e externo, será que também deveriam usar a IA de maneiras diferentes?
Em Tipos Psicológicos, publicado em 1921, Jung descreveu introversão e extroversão como orientações distintas. Ele as diferenciou pela direção do nosso interesse: voltado para o mundo subjetivo e interior ou para objetos e acontecimentos externos a nós.
As pesquisas contemporâneas sobre personalidade não reproduzem simplesmente os tipos de Jung. Estudos recentes que examinam personalidade e IA geralmente medem a extroversão como um dos Cinco Grandes traços de personalidade: abertura a experiências, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo. Isso significa que esses estudos não devem ser interpretados como testes diretos da teoria original de Jung.
Para alguém com tendência à introversão, a IA generativa pode servir como uma ponte útil entre a reflexão privada e a expressão externa. Por exemplo, um introvertido pode sentir que uma ideia está muito clara em sua mente, mas, ao tentar explicá-la a outra pessoa, perceber que ela não foi compreendida. Para alguns introvertidos, isso pode gerar frustração.
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Isso acontece porque pessoas com esse tipo de personalidade às vezes têm dificuldade em transformar pensamentos privados em expressão externa.
Com a IA, uma ideia não precisa surgir totalmente formada. A pessoa pode apresentar ao modelo fragmentos, contradições ou pensamentos ainda incompletos e pedir que ele os questione.
Isso é positivo para o introvertido porque a ideia pode ser explorada e externalizada gradualmente, em um ambiente de pressão relativamente baixa. A IA pode fazer perguntas, solicitar exemplos ou contestar determinados pontos antes que a ideia seja compartilhada com outra pessoa.
Isso não significa que introvertidos “precisem” da IA, nem que extrovertidos não reflitam profundamente. A personalidade humana é muito mais complexa.
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Para alguém com tendência à extroversão, o papel mais útil da IA pode ser praticamente o oposto. A IA pode fornecer mais conversa, ideias e feedback. Um extrovertido pode primeiro reunir opiniões de colegas e amigos para depois filtrar as informações e descobrir o que realmente pensa. Para pessoas com esse perfil, a questão pode estar em separar o que é relevante do que é apenas ruído.
No entanto, em vez de esclarecer as coisas, a IA pode acabar fornecendo ainda mais ruído para alguém fortemente orientado para o mundo externo. Uma abordagem melhor poderia ser instruir a IA a parar de gerar ideias e criar espaço para reflexão, por exemplo: “Faça perguntas que me ajudem a explorar meus próprios pensamentos, em vez de me dizer o que devo pensar”.
Indo além
A mesma tecnologia pode reforçar nossos hábitos de pensamento ou nos ajudar a superá-los. Isso é importante porque pesquisas emergentes sugerem que costumamos preferir IAs que se parecem conosco.
Um estudo de 2026 publicado na revista Communications Psychology constatou que participantes extrovertidos relataram maior afinidade com uma IA que utilizava uma linguagem extrovertida.
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Em um experimento separado, que fez parte do mesmo estudo, 64% dos participantes afirmaram sentir maior engajamento com uma IA que refletia seu perfil de personalidade nos Cinco Grandes fatores do que com uma IA projetada para apresentar o perfil oposto.
Há, porém, uma questão importante. Os pesquisadores não encontraram evidências equivalentes de que participantes introvertidos preferissem uma IA introvertida. Além disso, eles sugerem que a introversão pode ser mais difícil de transmitir por meio de uma conversa curta em texto.
Isso serve como um lembrete útil de que combinar personalidade e IA provavelmente não será tão simples quanto oferecer a cada pessoa um sistema que se comunique exatamente como ela.
O comportamento de validação
Outras pesquisas recentes tornam o quadro ainda mais complexo. Um estudo apresentado na CHI 2026, conferência internacional sobre interação humano-computador, descobriu que, após conversar sobre temas pessoais com uma IA, as pessoas passaram a descrever a si mesmas de maneira mais alinhada às características de personalidade exibidas pelo próprio sistema.
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Conversas mais longas foram associadas a um alinhamento maior com a IA. Esse alinhamento também esteve relacionado a um maior prazer na interação. No entanto, gostar de uma conversa não significa necessariamente que ela esteja nos ajudando.
Uma pesquisa publicada na revista Science em 2026 examinou a chamada IA bajuladora (sycophantic AI): sistemas que validam excessivamente as opiniões ou comportamentos do usuário, mesmo quando seria mais apropriado questioná-los.
Quando as pessoas discutiam conflitos interpessoais com esses sistemas, tornavam-se mais convencidas de que estavam certas e menos dispostas a tomar medidas para reparar o conflito.
Ainda assim, elas também confiavam mais nas respostas mais complacentes, avaliavam-nas melhor e demonstravam maior disposição para voltar a usar a IA. A parte preocupante é que a interação menos útil pode também ser a mais atraente.
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Isso cria um problema para o crescente movimento em direção à IA personalizada. Se a personalização for concebida principalmente em torno do que parece confortável ou validante, poderemos acabar criando espelhos psicológicos cada vez mais sofisticados.
Mas de que lado do espelho estamos? A IA se torna mais parecida conosco, nós nos tornamos mais parecidos com ela ou ambos nos encontramos gradualmente em algum ponto intermediário?
Jung não defendia que uma orientação, introversão ou extroversão, fosse melhor do que a outra. Sua preocupação era a unilateralidade psicológica e o que pode acontecer quando uma orientação psicológica se torna dominante demais.
Talvez a IA personalizada não devesse simplesmente acomodar as tendências que nos surgem de forma mais natural. Para o introvertido, ela pode funcionar, em alguns momentos, como uma ponte entre reflexão e expressão. Para o extrovertido, talvez seja mais útil como uma forma de desacelerar e criar espaço para a reflexão.
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Se a IA consegue tanto se adaptar às nossas tendências quanto influenciar sutilmente a forma como nos enxergamos, as implicações vão muito além do que normalmente entendemos por personalização.
Talvez a questão não seja apenas que tipo de IA combina melhor conosco, mas o que nossas interações repetidas com ela podem nos incentivar a nos tornar.
* Paul Jones é vice-diretor de Educação e Experiência do Estudante na Aston Business School, da Universidade Aston.
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o original.
Ser introvertido ou extrovertido pode influenciar a forma como você deve usar a IA
Há mais de um século, o psiquiatra suíço Carl Jung tornou a introversão e a extroversão elementos centrais de sua teoria dos tipos psicológicos. Hoje, tendemos a usar “introvertido” e “extrovertido” como uma forma resumida de descrever o quanto alguém é sociável. A grafia preferida por Jung era “extrovertido” (“extravert”), e sua distinção ia muito […]