“Só pensava: tinha que tirar eles de lá”. Foi assim que o autônomo Vinícius Luís Nascimento, de 36 anos, definiu a angústia de passar cerca de meia hora tentando resgatar os dois homens atingidos pelo desabamento de um muro na Rua Dr. Júlio Ottoni, em Santa Teresa, durante a forte ventania que atingiu o Rio na quarta-feira. Em entrevista ao GLOBO, ele disse que se juntou a outras testemunhas e que chegaram a reunir cerca de dez pessoas para tentar remover os escombros, mas não conseguiram. As vítimas morreram no local.
Ao vivo: Rajadas de vento moderado a forte estão previstas para esta quinta
‘Gritavam por socorro’: Os minutos que antecederam a morte de ex-jogador do Botafogo e seu amigo em Santa Teresa
Vinícius é um dos quatro integrantes do grupo — entre eles, seu filho Nathan Rodrigues Nascimento, de 11 anos — que escapou por poucos segundos de ser atingido pelo desabamento. Um vídeo que viralizou nas redes sociais mostra o momento em que eles passam em frente ao muro instantes antes da estrutura desabar. A rua é tomada por uma nuvem de poeira, e o grupo corre no sentido contrário.
— Depois que percebemos o que aconteceu, ficamos tentando salvar os rapazes. Só pensava: “Tem que tirar eles daí”. Tentamos tirar o muro de cima deles. Chegou a juntar um grupo de dez homens, a gente fazia muita força, mas não conseguia. Um deles já parecia estar com a coluna quebrada, porque não conseguia mais se mexer, mas estava vivo ainda. O outro estava deitado de bruços, com a coluna do muro em cima das costas. E saía muito sangue do rosto deles — relembra.
Segundo ele, a primeira reação foi de confusão. Nos instantes seguintes ao desabamento, Vinícius nem havia percebido que um muro tinha caído. Foi um dos amigos que o acompanhava quem gritou: “O muro caiu em cima do rapaz”.
Rumo a São Januário
Na tentativa de ajudar, Vinícius encontrou ferramentas no terreno, como uma picareta e uma enxada, e as utilizou para tentar remover os escombros. O grupo permaneceu no local por cerca de 30 minutos, até a chegada do Corpo de Bombeiros. Depois disso, seguiu para São Januário para assistir à partida do Vasco.
Pouco antes do desabamento, os quatro caminhavam em direção ao estádio. Vinícius conta que a ventania era tão intensa que obrigou o grupo a diminuir o ritmo.
— Estava uma ventania muito forte, vinha muita terra no rosto. Fechamos o olho e até andamos mais devagar. De repente, o muro caiu e subiu uma poeira mais densa, tipo farelo de cimento. Na hora, eu virei de costas para proteger meu rosto. Meu filho também correu para trás para se afastar da poeira e ficou muito espantado. Você percebia pelo olhar que ele estava assustado.
Nas imagens que circularam nas redes sociais, Nathan aparece caminhando de forma descontraída e conversando com os adultos segundos antes do desabamento.
Torcedor fanático do Vasco, Vinícius diz que conseguiu assistir ao jogo porque, quando deixou o local, acreditava que as vítimas haviam sobrevivido.
— Assistimos ao jogo tranquilos, porque, quando saímos de lá, os dois rapazes ainda estavam vivos. Só soubemos que eles não tinham sobrevivido quando voltamos para casa. É muito triste.
Protegidos pelos orixás
Ainda tentando processar o que viveu, ele diz que a maior sensação é de alívio por saber que o filho escapou ileso.
— É louco pensar que a gente está andando e, segundos depois, tudo pode mudar. Sou umbandista e, certamente, fui protegido pelos meus orixás. E quem anda com quem tem fé acaba sendo protegido também.

