As explosões começaram antes do amanhecer, sacudindo o chão e fazendo janelas tremerem na escuridão. Com elas, disseram os moradores, veio o zumbido revelador dos drones. Semanas depois, a cidade ainda carregava cicatrizes. Buracos foram abertos em telhados onde drones lançaram bombas. Crateras se abriram onde minas terrestres explodiram. Projéteis calibre .50 usados brilhavam na terra.
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— Sabíamos que o diabo estava chegando — disse Ana, mãe de seis filhos que agarrou seus filhos e correu enquanto os homens armados avançavam para a batalha.
O confronto não ocorreu em uma zona de guerra na Ucrânia ou no Oriente Médio, e os combatentes não pertenciam a nenhum exército. Eram grupos criminosos, armados com armas de nível militar e lutando a poucas centenas de quilômetros da fronteira com os EUA, no estado de Michoacán, no oeste do México.
Alguns dos cartéis mais formidáveis do México estão envolvidos em uma corrida armamentista acirrada em múltiplas frentes. De um lado, eles lutam contra o governo mexicano, que está sob intensa pressão dos Estados Unidos para reprimir o tráfico de drogas. Mas também lutam entre si por território e recursos, deixando um saldo de mortes entre seus membros e os civis presos no meio do caminho.
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Agora, o presidente Donald Trump ordenou ao Pentágono que comece a usar força militar contra certos cartéis de drogas designados como grupos terroristas. A diretiva enfureceu os líderes mexicanos, que rejeitaram a ideia de forças americanas em solo mexicano. Mas, apesar das divergências sobre quais ações tomar, autoridades e analistas de segurança em ambos os países concordam que os cartéis estão acumulando novos níveis de poder de fogo, transformando alguns grupos em forças paramilitares de pleno direito.
Traficantes de drogas e pistoleiros de cartéis não empunham mais apenas pistolas ou rifles automáticos, dizem autoridades e especialistas, mas também minas terrestres Claymore, granadas propelidas por foguete, morteiros construídos com tubos de tanques de gás e caminhões blindados equipados com metralhadoras pesadas. Eles estão enterrando dispositivos explosivos improvisados para matar seus rivais e modificando drones comprados on-line para fabricar drones de ataque, carregados com produtos químicos tóxicos e bombas.
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— Não podemos continuar a tratar esses caras como gangues de rua locais — disse o secretário de Estado Marco Rubio em entrevista à EWTN, uma rede de televisão católica, no mês passado. — Eles têm armamento que se parece com o que terroristas, em alguns casos, exércitos, têm.
Autoridades mexicanas afirmam que a maioria das armas de nível militar adquiridas por grupos poderosos teve origem nos Estados Unidos e que até 500 mil armas de fogo são contrabandeadas para o sul a cada ano. As autoridades afirmam que criminosos também realizam engenharia reversa de armas, às vezes imprimindo peças em 3D para construí-las.
Em nenhum lugar as consequências desse arsenal variado e crescente são mais gritantes do que nas colinas acidentadas de Tierra Caliente, em Michoacán, uma faixa de terras agrícolas férteis e montanhas exuberantes que se tornou um corredor estratégico para o cultivo de drogas.
A batalha pelo controle entre grupos rivais — incluindo os Cavaleiros Templários, La Familia Michoacana e o grupo com mais poder militar, o cartel Jalisco Nova Geração — levou a luta a uma nova era mais brutal.
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Assim como outros grupos armados ao redor do mundo, os cartéis combinam armas antigas e novas para obter efeitos letais. Drones sobrevoam Michoacán, enquanto estradas e trilhas usadas por soldados e civis estão infestadas de IEDs. Nos últimos dois anos, o estado registrou mais explosões de minas do que qualquer outro lugar no México, um indicador assustador da evolução da guerra às drogas, dizem especialistas.
Presas entre as linhas de frente móveis de gangues e forças de segurança, encontram-se dezenas de vilarejos agrícolas, com seus campos de limão e abacate aninhados nas colinas. Muitos não têm serviço telefônico, o que os deixa praticamente à própria sorte. Ana, a mãe na cidade atacada, El Guayabo, deu apenas o primeiro nome por medo de retaliação dos criminosos.
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Quando os combates se aproximam, a maioria dos moradores foge, às vezes por semanas ou meses. Alguns nunca retornam, deixando as cidades desertas. Em quase dois anos, mais de 2.000 pessoas foram deslocadas em Michoacán, segundo grupos de direitos humanos. Aqueles que ficam correm o risco de ficar presos no fogo cruzado.
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Somente nos últimos cinco meses, pelo menos 10 civis, incluindo um garoto de 14 anos, foram mortos por explosivos escondidos enquanto cuidavam de plantações ou caminhavam para a escola, de acordo com Julio Franco, consultor do Observatório de Segurança Humana, um grupo que monitora a violência.
Analistas de segurança e autoridades mexicanas dizem que os cartéis começaram a se militarizar em meados dos anos 2000, quando Los Zetas, um grupo formado por ex-membros do exército, trouxe disciplina no campo de batalha, comunicações criptografadas e armamento pesado ao crime organizado.
À medida que Los Zetas adquiriam um arsenal militar mais robusto, seus rivais também o faziam, buscando competir. As forças de segurança mexicanas também responderam com equipamentos e táticas cada vez mais sofisticados. Os Estados Unidos também utilizaram sua própria tecnologia, inclusive recentemente usando drones que buscam laboratórios de fentanil.
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Em 2015, um sinal da transformação em curso tornou-se evidente quando homens armados de um cartel no estado de Jalisco derrubaram um helicóptero do Exército mexicano com um lançador de granadas, matando seis soldados. Foi a primeira vez que um grupo criminoso destruiu uma aeronave militar no México.
Em 2022, a inteligência militar mexicana relatou que grupos criminosos estavam “rotineiramente” implantando IEDs, drones e novas táticas.
— Estamos testemunhando a fase mais recente da guerra: uma mudança em direção a táticas e capacidades de estilo paramilitar — disse Alexei Chávez, analista de segurança que aconselhou o Exército mexicano.
O governo mexicano, sob pressão de Trump, implementou uma repressão agressiva, enviando milhares de tropas para estados como Michoacán. Mas as autoridades também culparam os Estados Unidos por alimentar a violência ao fabricar as armas que acabam nas mãos dos cartéis.
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A presidente do México, Claudia Sheinbaum, disse em março que qualquer estratégia real contra o crime organizado deveria começar cortando o acesso a “armas de alto poder de uso militar”. Ela disse que 70% dos que estão no México vieram dos Estados Unidos.
O governo moveu duas ações judiciais contra fabricantes de armas americanos, acusando-os de enviar um “rio de ferro” de armas para as mãos de cartéis. A Suprema Corte dos EUA rejeitou uma dessas ações por unanimidade, decidindo que a legislação isenta os fabricantes de armas de responsabilidade em certos casos.
O Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos EUA afirmou em um comunicado que trabalha “em estreita colaboração com parceiros policiais nacionais e internacionais para combater o tráfico ilegal de armas de fogo”. A agência observou recentemente que os cartéis utilizam uma variedade de armas, incluindo o fuzil semiautomático Barrett M82 calibre .50, uma arma projetada para perfurar veículos leves e posições fortificadas. É frequentemente usada por atiradores de elite.
Os cartéis frequentemente exibem suas armas, com atiradores postando vídeos e fotos on-line ou em grupos de WhatsApp. Em uma imagem recente, um esquadrão em uniformes militares com a insígnia do cartel de Jalisco portava armas, incluindo uma metralhadora pesada Browning M2 calibre .50, um item essencial no campo de batalha do Exército dos EUA e de militares do mundo todo.
As armas deixam um rastro de destruição.
Pablo Fajardo, morador de El Guayabo, voltou recentemente e encontrou sua casa de dois quartos em ruínas carbonizadas, com buracos no telhado causados por drones bombardeiros.
— Medo e tristeza, é tudo o que sinto — disse ele. — Todo aquele esforço e trabalho que dediquei à construção da minha casinha, e ela foi destruída em questão de dias.