O presidente da Rússia, Vladimir Putin, se disse disposto a atuar como mediador entre Irã e Israel, que há quase uma semana travam um conflito aéreo que deixou centenas de mortos, milhares de feridos e que causou estragos em instalações estratégicas iranianas, incluindo em seu programa nuclear. Mas a oferta de Putin, envolvido em uma guerra particular e brutal, também tem a ver com seus próprios interesses no Oriente Médio.
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Em conversa por telefone com o líder dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed, Putin, os dois realizaram uma troca de opiniões foi realizada no contexto da situação gravemente agravada no Oriente Médio”, na qual os dois expressaram profunda preocupação com a escalada contínua do conflito Irã-Israel, que está repleto das consequências mais negativas para toda a região”.
“Vladimir Putin confirmou a prontidão da Rússia em fornecer assistência de mediação para promover o diálogo entre as partes no conflito, informando sobre contatos mantidos nesse sentido com vários líderes estrangeiros”, diz o comunicado emitido pelo Kremlin, que também enfatiza a necessidade de uma “rápida cessação das hostilidades”.
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Ao contrário de outros líderes ocidentais, como da União Europeia e nos EUA, Putin tem trânsito livre com a cúpula do poder iraniano e também com o premier israelense, Benjamin Netanyahu, com quem conversou na sexta-feira passada e também se ofereceu como mediador. Até o momento, contudo, não há sinalizações concretas vindas de Irã e Israel sobre a oferta.
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Desde os primeiros lançamentos de mísseis de Israel em direção ao Irã, o governo russo adota uma postura crítica à ‘Operação Leão Ascendente”, dizendo se tratar de uma ação “não provocada e inaceitável”, que os israelenses agem de uma forma “evidentemente contrária à lei internacional”, e que pode “exacerbar as tensões no Oriente Médio”.
Argumentos semelhantes foram apresentados por Putin ao presidente dos EUA, Donald Trump, em uma conversa por telefone no sábado, na qual o líder russo também expressou sua disponibilidade para atuar como mediador.
“Ele sente, assim como eu, que esta guerra entre Israel e Irã deve acabar, ao que expliquei que a guerra dele também deve acabar”, disse Trump em publicação na rede Truth Social, embora suas posições sobre o conflito tenham dado uma guinada nos últimos dias.
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Por enquanto, conversas e condenações parecem ser tudo que a Rússia tem a oferecer, até por autopreservação.
Em janeiro, a Rússia assinou com o Irã um tratado de parceria estratégica, válido por 20 anos, e que contém o compromisso de que os dois países deverão atuar para conter ameaças de segurança, compartilhar informações de inteligência e a promessa de que não ajudarão um agressor no caso de um ataque.
Ao contrário de um documento semelhante assinado com a Coreia do Norte, não há qualquer menção ao emprego de força no caso de guerra: em discurso na Duma, a Câmara Baixa do Parlamento russo, em abril, o vice-chanceler russo, Andrei Rudenko, disse que “a assinatura do tratado não significa o estabelecimento de uma aliança militar com o Irã ou assistência militar mútua”.
Hoje, as chances de Moscou enviar qualquer tipo de ajuda material — armas, munições, sistemas de defesa aérea — são praticamente nulas, afirmam analistas.
— A escalada do conflito acarreta sérios riscos e custos potenciais para Moscou — escreveu o cientista político russo Andrei Kortunov no jornal russo Kommersant na segunda-feira. — O fato é que a Rússia não conseguiu impedir um ataque em massa de Israel contra um país com o qual [a Rússia] assinou uma parceria estratégica abrangente há cinco meses. Claramente, Moscou não está preparada para ir além de declarações políticas condenando Israel; não está pronta para fornecer assistência militar ao Irã.
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Moscou tem suas próprias limitações bélicas — afinal, a guerra na Ucrânia não dá sinais de que terminará tão cedo —, e um apoio militar explícito, como pedem os iranianos mesmo antes das bombas começarem a cair, pode minar as parcerias que os russos têm trabalhado para fortalecer com as monarquias do Golfo. Apesar das declarações contrárias aos ataques israelenses, países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos não querem ver um Irã fortalecido militarmente, tampouco com uma arma nuclear.
O envolvimento direto também significa o enfrentamento com Israel, com quem mantém uma peculiar relação, que sobreviveu mesmo às críticas sobre a guerra em Gaza, e com os Estados Unidos, de quem Putin tenta obter vantagens, como o fim das sanções.
— A Rússia, quando se trata do Irã, precisa considerar a possibilidade de um confronto com Israel e os Estados Unidos, então salvar o Irã obviamente não vale a pena — disse Nikita Smagin, especialista em relações Rússia-Irã, ao New York Times. — Para a Rússia, isso é apenas um fato.
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A oferta de mediação feita por Moscou também é uma forma encontrada por Putin para manter a Rússia “relevante” no cenário internacional, e à sua forma quebrar as resistências enfrentadas desde o início da guerra na Ucrânia, sobre a qual o Kremlin não parece disposto a dialogar a sério. Os russos, tal como os americanos, não querem mais uma nação com armas nucleares, e se dizem dispostos a participar de negociações sobre um novo acordo para o programa atômico iraniano.
“A Rússia observa as declarações claras do lado iraniano sobre seu compromisso contínuo com suas obrigações sob o TNP (Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares) e sua prontidão para retomar contatos com os Estados Unidos para desenvolver possíveis soluções que eliminem quaisquer suspeitas e preconceitos infundados em relação ao programa nuclear de Teerã, desde que os ataques israelenses cessem”, afirmou a Chancelaria russa, em comunicado, na terça-feira.

