Em uma reunião a portas fechadas, um vídeo exibido a senadores americanos na quinta-feira revelou novos detalhes sobre o ataque aéreo dos Estados Unidos contra uma embarcação apontada por Washington como suspeita de narcotráfico no Caribe, em 2 de setembro. As imagens mostram que dois homens que sobreviveram ao ataque inicial permaneceram por cerca de uma hora agarrados aos destroços do barco antes de serem mortos em uma segunda ofensiva. A informação foi revelada pela agência Reuters.
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Os sobreviventes estavam sem camisa, desarmados e sem qualquer equipamento de comunicação. As imagens indicam que eles não tinham consciência do que havia acontecido, nem sabiam que militares americanos avaliavam se deveriam atingi-los novamente.
Durante quase uma hora, os dois homens lutaram para desvirar uma parte do casco cortado pela explosão inicial.
— O vídeo os acompanha por cerca de uma hora enquanto tentam virar o barco de volta à posição normal. Eles não conseguiram — relatou uma das fontes à Reuters.
O vídeo intensificou as preocupações de parlamentares sobre a possibilidade de que o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, e outros oficiais envolvidos tenham cometido um crime de guerra.
No mesmo dia em que o vídeo foi exibido aos legisladores, o Pentágono anunciou um novo ataque mortal contra uma embarcação no Pacífico Oriental, matando quatro homens. Foi o 22º ataque desde o início da campanha militar, que já deixou, pelo menos, 87 mortos.
O Comando Sul publicou imagens do ataque mais recente nas redes sociais, descrevendo-o como um “ataque cinético letal contra uma embarcação em águas internacionais operada por uma Organização Terrorista Designada”.
A divulgação ocorre em um momento em que a Casa Branca e o Departamento de Defesa enfrentam pressão crescente para explicar qual é a base legal da operação, conduzida sem consulta ao Congresso.
Grande parte do escrutínio gira em torno do ataque de 2 de setembro, após o Washington Post revelar que Hegseth teria dado a ordem verbal de “matar todos eles”. O almirante Frank Bradley, responsável pela operação, negou aos legisladores que tal ordem tenha sido dada.
Embora Donald Trump tenha divulgado imagens do ataque inicial em sua plataforma Truth Social, nenhuma filmagem da segunda ofensiva — aquela que matou os dois sobreviventes — veio a público. O presidente prometeu divulgar o vídeo integral, mas o Pentágono ainda não o fez.
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O democrata Jim Himes, que assistiu ao vídeo, classificou o episódio como “uma das coisas mais perturbadoras” de sua carreira no serviço público.
— Vocês têm dois indivíduos em evidente situação de perigo, sem qualquer meio de locomoção, com uma embarcação destruída — disse ele. — Qualquer americano que vir as imagens verá os militares dos EUA atacando marinheiros náufragos.
Segundo as fontes ouvidas pela Reuters, o ataque começou com a detonação de uma munição de fragmentação aérea, que matou nove tripulantes. Os dois sobreviventes foram vistos boiando na água, agarrados aos destroços.
Bradley argumentou internamente que o casco poderia conter cocaína suficiente para permanecer à tona e ser recuperado, disseram as fontes. O vídeo mostra três novas munições sendo disparadas contra a embarcação quase destruída.
— Dava para ver os rostos, os corpos… depois, bum, bum, bum — acrescentou a fonte.
O senador republicano Tom Cotton afirmou que os sobreviventes tentavam “virar um barco carregado de drogas para continuar lutando”. A interpretação foi rebatida por especialistas em direito internacional, como Ryan Goodman, professor da Universidade de Nova York e ex-advogado do Pentágono.
“Gostaria muito de saber como o senador Cotton… conseguiu perceber que essas pessoas náufragas estavam tentando ‘permanecer na luta’ em vez de se agarrarem à vida desesperadamente em um esforço para sobreviver”, escreveu Goodman nas redes sociais.
O Manual de Direito da Guerra do próprio Departamento de Defesa proíbe atacar combatentes incapacitados, inconscientes ou náufragos, desde que não estejam tentando retomar combate. O manual cita explicitamente matar sobreviventes de naufrágio como exemplo de ordem “claramente ilegal”.

