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Sonho de metal: no interior do Rio, motos se multiplicam e são essenciais até na lavoura e nos pastos

Uma pequena ponte liga o eixo urbano a um dos principais núcleos rurais de São José de Ubá, no Noroeste Fluminense, a 300 quilômetros da capital. A estrada, ainda de asfalto, serpenteia por algumas curvas, até que uma meia dúzia de motocicletas enfileiradas na beira da pista chama a atenção. Atrás delas, a porteira de […]

Sonho de metal: no interior do Rio, motos se multiplicam e são essenciais até na lavoura e nos pastos


Uma pequena ponte liga o eixo urbano a um dos principais núcleos rurais de São José de Ubá, no Noroeste Fluminense, a 300 quilômetros da capital. A estrada, ainda de asfalto, serpenteia por algumas curvas, até que uma meia dúzia de motocicletas enfileiradas na beira da pista chama a atenção. Atrás delas, a porteira de madeira, adornada com um crânio de boi, marca o limite entre a via e um caminho de barro que leva a uma plantação de tomates, especialidade local, colorindo o topo do morro. Por lá, os trabalhadores têm algo em comum, além do suor da lida: o meio de transporte. Todos recorrem a motos, pilotando ou na garupa, para vencer as distâncias.
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Naquele município de cerca de sete mil habitantes, cuja economia gira em torno da agricultura e da pecuária, motos e motonetas representam 51,7% da frota de veículos registrados, segundo dados do Anuário Estatístico do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RJ). É o maior percentual entre os municípios fluminenses e mais que o dobro da média estadual, de 20,6%. Aperibé (50,8%), Cambuci (49,8%) e Bom Jesus do Itabapoana (49,3%) figuram na sequência. Ao todo, oito das dez cidades onde as duas rodas têm maior participação na frota estão no Norte e no Noroeste do estado.
É uma concentração que aproxima esse pedaço do Rio de estados e regiões onde a motocicleta ocupa um espaço muito maior na mobilidade. Na base mais recente da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), de julho, Maranhão (59,5%), Pará (55,9%) e Piauí (55,3%) tinham as maiores proporções de motocicletas e motonetas na frota do país. Já no Nordeste como um todo, eram 45,5%. O recorte é o mesmo usado na comparação fluminense: motos e motonetas, sem ciclomotores.
Sai cavalo, entra moto
Ao longo da primeira semana deste mês, O GLOBO percorreu alguns desses municípios para entender o que os números revelam. Na propriedade visitada logo no início da reportagem, a motocicleta é o caminho até a lavoura, ou o veículo para buscar uma ferramenta, levar uma encomenda e, especialmente, encurtar a distância entre casa e trabalho. No fim do expediente, serve até para uma última ronda: antes de fechar a porteira, o lavrador José Luiz do Prado, de 61 anos, percorre a plantação sobre duas rodas para conferir se nenhum companheiro ficou para trás.
Nem ônibus nem carro. Em frente a uma propriedade rural, em São José de Ubá, as motos usadas pelos funcionários para chegar à lavoura
Custodio Coimbra
— Quando era garoto, era na perna. Hoje, não tem mais jeito. Tem horas que tem trabalho, mas não tem gente para vir porque não tem condução. E o dono não consegue colocar transporte, diz que fica caro demais. Quem não tem moto ou uma carona não trabalha — conta.
Parte dessa mesma realidade, Marciano Gomes, de 42 anos, chegou às duas rodas por outro caminho: o desejo. Numa lembrança que ecoa na música “Vital e sua moto”, dos Paralamas do Sucesso, a motocicleta foi seu primeiro “sonho de metal”.
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Na roça desde os 12 anos e atualmente operando tratores, ele vive com a mulher e os filhos no centro de São José de Ubá e se desloca até as propriedades rurais ao menos seis vezes por semana. Primeiro, fazia o percurso a pé. Depois, passou para a bicicleta, até conseguir comprar a própria moto.
— A primeira coisa que fiz depois que juntei um dinheiro foi comprar a moto. Era o meu maior sonho. Ela vai a qualquer lugar, a um preço que cabe no bolso. O carro é para passear com a família; a moto é parte do nosso dia a dia.
A poucos minutos dali, seguindo a Estrada de Barro Branco, a motocicleta ganhou outra função: praticamente tomou o lugar do cavalo no manejo de boiada. Cleide Fernandes, de 55 anos, e José Josimar Vieira, de 60, são casados e trabalham juntos na criação de gado leiteiro, atividade que sustenta a família e pagou a faculdade de Engenharia do filho, que hoje vive na capital.
Cowboy motorizado. O casal Cleide Fernandes, de 55 anos, e José Josimar Vieira, de 60, usa a moto para tocar o gado leiteiro pela fazenda em São José de Ubá
Custodio Coimbra
José Josimar lida com o gado desde criança, herança do pai. Até 2019, o casal também produzia tomate, mas a atividade foi ficando difícil de administrar. Agora, mantém cerca de 60 cabeças, todas destinadas à produção de leite. A ordenha ainda é manual, e a produção mensal fica entre 3,6 mil e 3,8 mil litros.
Na rotina, a moto substituiu o cavalo. Não necessariamente por ser mais barata, explica Cleide, mas por um combo que une agilidade e custo-benefício:
— O cavalo acaba atrasando. Às vezes, ele está no morro, e a gente precisa ir buscar. Com a moto, não. É rapidinho, resolve tudo. Essa semana mesmo, usamos para levar as criações para vacinar. Eu na minha, ele na dele, e seguimos cercando os bichos. Fora que o combustível e a manutenção saem mais baratos, a longo prazo, do que criar um cavalo.
Nem sempre, porém, a rapidez é sinônimo de segurança. Ao encontrar animais maiores pelo caminho, é o motociclista que precisa dar passagem.
— Quando pega boi branco (da raça de gado nelore) pelo caminho, tem que largar a moto para o lado e vazar por debaixo de cerca, para se proteger — diz Cleide.
Liberdade sobre rodas
A mesma mulher que usa a moto para cuidar do gado também depende dela para chegar ao trabalho. Cleide é secretária da Escola Municipal Antônio Curty, ainda em Barro Branco, onde os números do anuário se confirmam outra vez.
Claide Fernandes, de casaco bege, e a diretora Adriana Alves, de azul-claro, com professoras da Escola Municipal Antônio Curty, na zona rural de São José de Ubá: moto é o meio de transporte entre casa e trabalho
Custodio Coimbra
Dos 28 funcionários da unidade de ensino, mais de 20 chegam de moto. Pela manhã, apenas uma professora não utiliza o veículo. Para a diretora Adriana Alves, o movimento é reflexo da própria configuração da cidade e uma fórmula que se repete pelo Noroeste, onde uma parcela significativa da população vive distante dos centros urbanos:
— O interior é muito habitado. Por mais que os alunos sejam bem atendidos pelo transporte escolar municipal, os professores acabam optando pelas motos. Elas dão mais autonomia.
Num município com muitas comunidades rurais, algumas bem distantes, ter o próprio meio de transporte significa não precisar organizar a rotina em torno dos horários de transporte público.
A conta da liberdade também é feita por Iris Silva, de 24 anos, moradora de Monte Alegre, distrito rural de Santo Antônio de Pádua, que percorre 18 quilômetros para trabalhar no centro. Na localidade, segundo seu relato, há um ônibus pela manhã e outro no fim do dia. De moto, Iris diz fazer o trajeto em cerca de 15 minutos a qualquer hora; de ônibus, levava aproximadamente o dobro do tempo.
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O fenômeno registrado por lá é uma versão mais consolidada de uma mudança observada em todo o estado. Segundo o Anuário do Detran-RJ, entre 2021 e 2025, o número de motocicletas cresceu 35,6%, e só de 2024 para 2025, a alta foi de 8,6%. Em quatro anos, a relação passou de 25 para 33 motos a cada cem carros licenciados. Para o departamento, esse crescimento ocorreu devido ao aumento dos serviços de entrega, a uma busca por menor custo de deslocamento e à substituição parcial do transporte coletivo.
Em Italva, também no Noroeste, o cenário comprova as estatísticas. Motocicletas são vistas em profusão circulando em meio às plantações de tomate. Ao chegar ao centro urbano, elas passam a se agrupar diante dos sinais e nos estacionamentos, repetindo uma imagem muito comum na capital. A paisagem muda, mas a presença permanece.
Em Itaperuna, uma cidade mais urbana e a maior da região, motos e motonetas representam 41,07% da frota, ainda praticamente o dobro da média estadual. Nos sinais, a quantidade de motocicletas concentradas frente aos carros salta aos olhos, assim como nos estacionamentos. Lá, a moto já não aparece apenas como resposta às estradas rurais ou à dificuldade de transporte entre comunidades: incorporou-se à própria dinâmica do município.
Nos sinais de trânsito de Itaperuna, uma cena comum: uma série de motos puxam a fila, sempre na frente dos carros
Custodio Coimbra
Essa demanda também movimenta o comércio. Alex Tostes vende motocicletas em Itaperuna desde 1999 e diz que uma característica do mercado local resistiu à passagem do tempo: a negociação baseada na relação entre vendedor e cliente.
— A maior saída é de boca, com preço negociado. O sujeito dá uma entrada e vai parcelando. É um negócio familiar — disse.
Não por acaso, há dois meses, uma tradicional concessionária de motos abriu sua primeira franquia em São José de Ubá. Lojistas não têm o que reclamar: a média tem sido de duas vendas por semana.
Acidentes pressionam hospital da região
A mesma motocicleta que encurta distâncias nas zonas rurais e urbanas pode, em segundos, interromper o dia a dia de uma família. Em Itaperuna, onde motos e motonetas representam 41,07% da frota, essa outra face da mobilidade acessível impacta diretamente o Hospital São José do Avaí, referência regional em trauma. No dia em que a equipe do GLOBO esteve na cidade, o ortopedista e traumatologista Gabriel Pillar operou a fisioterapeuta Gizelia Lemos, de 45 anos, vítima de um acidente de moto.
Gizelia pilota desde os 17 anos e usa a moto para quase tudo — do trabalho ao transporte do filho. Até que, a cerca de 200 metros de casa, foi atingida num cruzamento por um carro cujo motorista, segundo relata, não percebeu sua aproximação. Ela fraturou o fêmur. Depois da cirurgia, terá de passar ao menos quatro semanas sem apoiar o pé no chão, e a recuperação pode mantê-la longe das atividades profissionais por seis meses.
Fratura de fêmur. Gizelia Lemos sofreu acidente: seis meses sem trabalhar
Custodio Coimbra
— Gosto e preciso andar de moto, mas estou com receio. E faço de tudo para o meu filho não comprar uma — diz.
Menos acidentes de carro
Para o médico, um dos chefes de uma equipe multidisciplinar na unidade, acidentes envolvendo motociclistas sempre tiveram peso importante entre os traumas atendidos, mas se tornaram mais frequentes nos últimos cinco anos, enquanto ele percebeu a redução das ocorrências com automóveis. A unidade recebe pacientes encaminhados de municípios de todo o Noroeste, sobretudo quando há fraturas e lesões de maior complexidade. Além dos próprios pilotos acidentados, muitos dão entrada após serem vítimas de atropelamento por moto.
Gabriel Pillar é um dos chefes da traumatologia no Hospital São José do Avaí, referência no Noroeste Fluminense
CustOdio Coimbra
O efeito não termina na sala de cirurgia. Um trauma grave pode mobilizar ortopedia, cirurgia geral e neurocirurgia, além de exames, banco de sangue, internação e, nos casos mais severos, leitos de UTI. Segundo o médico, o hospital realiza cerca de 13 mil cirurgias por ano; aproximadamente duas mil delas são ortopédicas.
— Isso impacta a rotatividade e as outras áreas que não são de trauma. O melhor acidente é aquele que não acontece, porque, além de onerar os cofres públicos, tira uma pessoa do mercado de trabalho. Estamos prontos para a guerra, mas preferíamos que não houvesse — afirma Pillar.
Para o ortopedista, o avanço da motocicleta como solução de mobilidade torna ainda mais importante a formação dos condutores. Ele cita, entre as preocupações recentes, usuários de veículos elétricos (os chamados autopropelidos) que entram no trânsito sem experiência no guidão.
— Tem que educar como pilotar. O que se vê hoje, especialmente com essas motos elétricas, são pessoas que não tiveram treinamento algum.
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Sonho de metal: no interior do Rio, motos se multiplicam e são essenciais até na lavoura e nos pastos

Autor

BRCOM