Leandra Leal contou como dirigir um filme e fazer uma série série ajudou a curar ‘relação simbiótica’ com a mãe, a também atriz Ângela Leal. Em entrevista à jornalista Maria Fortuna no videocast ‘Conversa vai, conversa vem’, no ar no Youtube do Jornal OGLOBO e também disponível no Spotify, a atriz, diretora, autora e produtora reconheceu que teve as portas abertas na profissão por conta da mãe, mas que não parou de batalhar durante sua trajetória.
A série marcou seu primeiro trabalho de atuação ao lado da sua mãe, Ângela Leal, sobre a qual você rodou um filme. Como foi essa experiência?
A gente tinha contracenado muito rápido em alguns trabalhos. Minha mãe teve câncer no fígado em 2017, e ali ela falou: “Me aposentei, não quero mais, não tenho mais controle do meu corpo e, para ser atriz, preciso disso!”. Rolou a pandemia, e eu pensei: “Não acredito que minha mãe não vai me conhecer em cena. É a pessoa que me formou artisticamente…”. Conhecer alguém em cena é de uma intimidade…. Era quase como se não me conhecesse adulta. Isso foi brutal. Pensava: “O que vou inventar?” Veio a pandemia, ela era grupo de risco e foi pra Búzios. E pensei: “E se a gente fizesse um filme?”. Achei “Esperando Godot”, que tinha a ver com tudo, e já cheguei com equipamento. Fizemos um documentário.
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E o filme salvou vocês em meio àquela tristeza toda?
O filme salvou a gente, transformou a minha relação com a minha mãe. A gente se ama, mas são essas relações doidas, simbióticas de mãe e filha que são atrizes, que têm muitas projeções e expectativas. Deu uma curada e uma mudada na nossa relação. A partir disso, ela falou: “Acho que ainda posso atuar em alguma coisa”. Foi quando começou a melhorar a pandemia, e fomos rodar “A vida pela frente”.
Sua mãe te criou sozinha, com a casa repleta de amigos. Como foi ver a luta dela para viver, te criar, administrar o Teatro Rival, herdado do seu avô?
Inspirador. Ser mulher, querer ocupar um cargo de liderança, não ter vergonha de ser ambiciosa, não ter vergonha de querer contar suas histórias e dizer “eu posso”, é algo que eu vi na minha mãe. Ela não titubeou com a vida, matou no peito e foi. “Ah, é isso, uma filha sozinha? Um teatro para administrar? Uma carreira? O Centro do Rio está abandonado? Vamos fundar a Associação de Amigos da Cinelândia! Não tem água? Vamos bater na porta do prefeito”. Fui criada por uma geração de mulheres amigas dela, como Bete Mendes, Denise Dumont, Tamara Taxman, à frente do seu tempo mesmo, que não dependiam de ninguém.
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Já usaram para você o termo nepobaby? Acha justo esse estigma?
Nepobaby é ser filho de alguém famoso que seguiu a mesma carreira que você? Eu sou nepobaby! (risos). É possível alguém que é filha de uma atriz que é atriz também não ter isso? Gente, é a vida! Uma coisa é ter as portas abertas, outra é não fazer nada para essas portas continuarem abertas. Trabalho pra caralho, estudei muito, estou comprometida. Não sou acomodada, não sou uma pessoa que senta nos meus privilégios. Pelo contrário! Sou consciente deles. Sou nepobaby no sentido de ter uma mãe atriz, ser atriz e ter tido portas abertas, mas continuei abrindo.