Pular para o conteúdo
novembro 3, 2026
BRcom
Dólar PTAXR$ 5,4206
News

Stradivarius para todos: Organizações investem pesado para emprestar instrumentos raros e caros a músicos

Por · novembro 2, 2026
Stradivarius para todos: Organizações investem pesado para emprestar instrumentos raros e caros a músicos


Há cerca de seis meses, Amihai Grosz toca um dos instrumentos musicais mais valiosos do mundo: a viola Stradivarius “Macdonald”. Quando a pegou pela primeira vez, não conseguiu acreditar na diferença:
— Uma porta para um som completamente novo se abriu para mim.
Por onde anda Jack Nicholson? Relembre os últimos trabalhos do ator, que ‘está bem’, segundo amigo Michael Douglas
Grosz, natural de Israel e primeiro violista da Filarmônica de Berlim, toca viola desde os 5 anos de idade e afirmou que tocar a “Macdonald” era um sonho. Ele jamais imaginou que um instrumento como esse chegaria às suas mãos. Agora, no entanto, ele a tem sob um empréstimo por tempo indeterminado concedido pela Stretton Society, uma organização sem fins lucrativos sediada em Berlim que disponibiliza instrumentos de corda raros para músicos de alto nível. A sociedade, fundada em 2021, reúne uma rede internacional de filantropos com o objetivo de conectar instrumentos excepcionais a músicos que possam tirar o melhor proveito deles.
O mercado de instrumentos de corda de alto padrão tem crescido de forma acentuada desde a década de 1970, atingindo seu auge em 2011 com a venda recorde — por US$ 15,9 milhões (R$ 86,5 milhões) — do violino Stradivarius “Lady Blunt”, em Londres.
— Isso realmente deu um impulso enorme ao mercado — disse Tim Ingles, codiretor da Ingles and Hayday, casa de leilões e revendedora de instrumentos musicais sediada em Londres.
Hoje, a maioria das violas Stradivarius se encontra em coleções particulares ou museus. A “Macdonald” é uma das poucas que ainda são tocadas em público.
Ainda assim, como ressaltou Ingles, os amantes da música que adquirem esses instrumentos preferem vê-los em uso, em vez de deixá-los acumulando poeira.
Parceria
Encontrar o instrumento ideal é, muitas vezes, fundamental para um músico.
— É mais do que um parceiro — disse Grosz. — É parte da sua alma.
Para aqueles que buscam obter instrumentos por empréstimo, surgiram novas organizações de apoio, como a Sasakawa Music Foundation, no Japão; a Netherlands Musical Instrument Foundation, nos Países Baixos; e o Stradivari Trust, na Inglaterra. Algumas são filantrópicas, e outras envolvem investidores que se unem para adquirir um instrumento para um músico, em troca de um retorno financeiro a longo prazo.
Ingles afirmou que o retorno sobre o investimento costuma ficar, em média, entre 3% e 7% ao ano, dependendo da duração do empréstimo. Se o instrumento passar a ser associado a um músico de grande renome, isso também pode elevar seu valor de venda futuramente, acrescentou ele.
A Netherlands Musical Instrument Foundation, uma organização sem fins lucrativos, empresta — com base na necessidade — instrumentos cujo valor varia de cerca de US$ 10 mil a US$ 4 milhões para músicos em início de carreira.
— Fornecemos instrumentos até que o músico chegue a um ponto em que possa adquirir o seu próprio ou encontre outra forma de obter um instrumento de alto nível por empréstimo — explicou Frits Schutte, responsável pelas coleções da fundação.
O Stradivari Trust, fundado em 1985, tem fornecido instrumentos a músicos como Nigel Kennedy e Natalie Clein por até 20 anos, com investidores contribuindo com valores entre US$ 5 mil e US$ 50 mil.
— É, na prática, um financiamento musical, e o músico tem a oportunidade de comprar o instrumento ao fim do período — disse o presidente da organização, Colin Smithers.
Há alguns anos, o fundo Strumenti ofereceu à jovem violinista americana Ava Pakiam a chance de escolher entre vários violinos de primeira linha. Ela pôde comparar a sonoridade de cada um sem saber qual era qual.
— O simples fato de ter podido experimentar todos eles foi algo incrível, uma experiência única na vida — contou Pakiam, de 16 anos.
Por fim, Pakiam escolheu um J.B. Vuillaume de 1871, avaliado em cerca de US$ 335 mil. O Strumenti reuniu investidores que adquiriram cotas referentes ao violino. Agora, ela ensaia o Concerto para Violino de Tchaikovsky com a Filarmônica Nacional, para ser apresentado em Washington em março.
A Stretton Society começa pelos instrumentos e busca encontrar um par musical adequado. Stephan Jansen, um dos fundadores, sabia que Grosz tocava uma viola de Gasparo da Salò, de 1570, há cerca de 20 anos, e talvez buscasse um instrumento superior. Ele foi o “primeiro artista, de forma natural e óbvia, a quem pensamos em apresentar o instrumento”, disse Jansen.
‘chance para despertar’
A “Macdonald” possui uma reputação extraordinária: foi construída pelo célebre luthier italiano Antonio Stradivari, em Cremona, no ano de 1719 — período considerado sua “era de ouro”. O nome vem do 3º Barão Macdonald, Godfrey Bosville, um aristocrata escocês que foi proprietário do instrumento na década de 1820.
Embora a oficina de Stradivari tenha produzido centenas de violinos, o número de violas criadas foi pequeno; hoje, restam apenas cerca de uma dúzia delas.
A “Macdonald” foi tocada, durante muito tempo, pelo renomado Peter Schidlof, do Quarteto Amadeus. Após sua morte, em 1987, Permaneceu guardada em um cofre por 27 anos, até ser colocado à venda com uma estimativa de preço de US$ 45 milhões. Na ocasião, não foi vendido.
Em 2025, a Stretton Society adquiriu a peça por meio da Tarisio por um valor “superior a US$ 30 milhões”, afirmou Jansen.
No mês passado, Grosz comentou que ainda estava se acostumando com a viola, que não era tocada havia décadas:
— Ela precisa de uma chance para despertar.

Stradivarius para todos: Organizações investem pesado para emprestar instrumentos raros e caros a músicos