Nem sempre é fácil assistir de perto ao crescimento de quem está ao nosso lado. Em relacionamentos, diferenças de momento profissional, reconhecimento ou independência financeira podem despertar inseguranças que nem sempre são verbalizadas. O problema aparece quando a conquista de um passa a ser percebida pelo outro como uma ameaça à própria autoestima.
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Um relato de Marina Ruy Barbosa ilustra esse tipo de situação. A atriz contou que ouviu de um ex-companheiro que, considerando sua idade, seu auge profissional já deveria ter passado. Na época, ela estava concentrada na carreira e havia decidido adiar a maternidade. A frase a levou a questionar se aquela pessoa realmente desejava vê-la crescer e se realizar.
Embora o episódio pertença à história da atriz, situações semelhantes podem aparecer em relações que, à primeira vista, não apresentam conflitos evidentes. Para a psiquiatra Jessica Martani, o incômodo com a ascensão do outro pode estar relacionado à dificuldade de lidar com a própria autoestima.
“Quando alguém precisa que o parceiro seja menor para conseguir se sentir maior, estamos diante de uma dinâmica de insegurança. A admiração dá lugar à comparação e, em alguns casos, à competição”, observa.
O desconforto pode surgir de maneiras menos explícitas. Comentários que diminuem conquistas, ironias diante de uma promoção, resistência em celebrar boas notícias ou tentativas de desestimular novos projetos são alguns comportamentos que podem indicar que a realização de um dos parceiros está sendo vivida pelo outro como uma ameaça.
Quando a vulnerabilidade vira competição
Para a terapeuta Gláucia Santana, a dificuldade de lidar com a própria frustração pode deslocar o foco da pessoa para o relacionamento. Em vez de reconhecer sentimentos como insegurança, medo ou sensação de inadequação, ela pode acabar transformando essas emoções em ressentimento direcionado ao parceiro.
“Em vez de elaborar a própria dor, muitos transformam vulnerabilidade em ressentimento. O relacionamento deixa de ser espaço de troca e passa a ser tratado como jogo de poder”, avalia.
Isso não significa que qualquer desconforto diante da conquista do outro seja, necessariamente, sinal de uma relação problemática. Comparações podem surgir em diferentes momentos e não anulam o afeto. A questão está na maneira como esses sentimentos são elaborados e no impacto que passam a ter na convivência.
Uma promoção, um projeto pessoal ou uma mudança financeira, por exemplo, pode alterar a dinâmica do casal sem que isso represente uma ameaça. O desafio está em conseguir conversar sobre as mudanças sem transformar a realização de um em medida para avaliar o valor do outro.
O casal não precisa ter o mesmo sucesso
Diferenças profissionais fazem parte da vida adulta e podem se acentuar ao longo dos anos. Há períodos em que um dos parceiros ganha mais, recebe maior reconhecimento ou está mais realizado com o trabalho, enquanto o outro atravessa uma fase de transição ou busca por novas oportunidades.
Segundo Jessica, uma relação saudável não depende de uma trajetória profissional equilibrada em todos os momentos.
“Uma relação madura não exige que os dois tenham o mesmo nível de sucesso. Ela exige que exista espaço para que ambos se desenvolvam sem que o crescimento de um seja entendido como ameaça pelo outro”, afirma.
Nesse contexto, apoio não significa ausência de insegurança. É possível sentir desconforto, medo ou até inveja em algum momento e, ainda assim, reconhecer a conquista de quem está ao lado. O que faz diferença é a capacidade de identificar esses sentimentos sem transformá-los em desestímulo, cobrança ou tentativa de controle.
Como perceber quando o incômodo ultrapassa o limite
O incômodo com as conquistas do outro pode aparecer de formas sutis ou mais evidentes. Comentários que diminuem uma promoção, comparações frequentes, falta de entusiasmo diante de uma boa notícia ou até satisfação com um fracasso são comportamentos que podem revelar uma dinâmica que vai além de uma insegurança passageira.
Também vale observar o que acontece quando um dos dois vive uma fase de crescimento. O parceiro celebra, apoia e se interessa por esse momento ou reage como se cada conquista criasse uma nova distância entre o casal?
Não é preciso que duas pessoas tenham a mesma trajetória, ganhem o mesmo dinheiro ou vivam o auge profissional ao mesmo tempo. Uma relação pode acomodar ritmos diferentes. O que não deveria caber nela é a necessidade de diminuir quem está ao lado para que o outro se sinta maior.
No fim, talvez a questão seja mais simples: conseguir ficar feliz quando a pessoa que você escolheu para dividir a vida está indo bem também.

