Fui ver Samuel Rosa tocar com a Orquestra Ouro Preto na Praia de Copacabana na sexta-feira à noite. Dica da newsletter “Rio de janeiro a janeiro”, que minha mulher transformou em convite — e quem sou eu para recusar? Pé na areia, tempo bom, música melhor ainda, mineirice à beira-mar. Um programão, que me fez pensar em várias coisas. A que se relaciona com o esporte, tema desta coluna, veio por um caminho bem previsível, os versos famosos de um dos maiores sucessos do Skank: “Que coisa linda, mas que beleza, que emocionante é uma partida de futebol!”
Duas colunas atrás, listei neste espaço os problemas do Brasileirão na volta da Copa do Mundo. Na semana passada, falei da contradição de sentimentos causados pela realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos no Rio de Janeiro, em 2016 (aliás, esqueci de avisar que o “Hello LA” gravou uma série de quatro programas com medalhistas brasileiros compartilhando suas memórias, que termina na próxima sexta e fica disponível na íntegra no Globoplay). Ao ouvir “É uma partida de futebol”, com todo mundo em volta cantando junto, tive uma epifania recorrente: embora seja obrigação de vocês da imprensa identificar e criticar o que está errado, não se pode perder o encantamento, nem esquecer que “a chuteira veste o pé descalço, o tapete da realeza é verde, olhando para a bola eu vejo o sol.”
Samuel é cruzeirense e deve ter ficado satisfeito com o desempenho de seu time contra o Flamengo, num raro exemplo de bom jogo pelas oitavas da Libertadores. E a pergunta “Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?” tem história. Joguei uma pelada de futsal com ele numa visita a Belo Horizonte, convidado por amigos comuns de minha época na PUC — que lá chamamos de Católica e onde fui colega de turma de Fernando Furtado, o adorável empresário do Skank. Entrei no time dele, no lugar de Armando Freitas, um professor bom de bola, e o ouvi questionar a substituição. “Esse cara não me conhece. Vou mostrar que reclamou à toa”, pensei. Mas não mostrei nada, botei a culpa nos tênis improvisados que tive de usar, porque não tinha levado chuteiras na bagagem, e me consolei pensando que aquele ala direito de cara fechada e estilo estourado também estava longe de ser um craque.
No palco, Samuel é exatamente o oposto disso. Sorri, conversa com a plateia, desfila seu rico repertório trocando de guitarra — uma mais linda do que a outra — quase que a cada canção. E, principalmente, desfruta do amor que toda aquela gente tem por ele. Mandei uma mensagem para Fernando no dia seguinte, dizendo que me lembrei dele e de como deve ter sido especial fazer parte da trajetória de alguém que teve uma influência tão grande na música popular brasileira nas últimas décadas.
Nas sextas-feiras do “Redação SporTV”, quando tenho o privilégio de conviver com Charles Gavin, é comum apontarmos essa diferença entre músicos e jogadores de futebol: um show é quase sempre só vitória, porque não há nada em jogo. No estádio, os versos “se ele ganha, não adianta, não há garganta que não pare de berrar” vêm depois do aviso: “posso morrer pelo meu time, se ele perder, que dor imensa.”
Nada como um craque para fazer a gente se lembrar da essência das coisas.

