Na fase decisiva do circuito mundial, os surfistas da elite vivem não apenas a pressão por resultados, mas também a expectativa de reencontros. Depois de meses de vida nômade, explorando o mundo em busca das melhores ondas, está quase na hora de voltar para casa e rever a família.
E, apesar de ainda faltarem quatro etapas, incluindo as Finais, os brasileiros enxergam Saquarema como uma forma de matar a saudade dos mais chegados antes do sprint final no CT. O evento é um respiro, detalha Filipe Toledo:
— Competir no Brasil é sempre emocionante. A energia da torcida, os gritos na areia, as bandeiras… É diferente de tudo. Sinto uma força extra aqui. Surfar com o coração cheio faz toda a diferença.
A maioria dos atletas passa o ano em aeroportos, hotéis e casas alugadas. Cada parada envolve lidar, em um curto espaço de tempo, com variações climáticas, fusos horários e particularidades culturais. Embora o estilo de vida do surfista seja vendido como um sonho, a rotina fora das competições e longe do mar é marcada pela solidão.
João Chianca, o mais jovem representante brasileiro no tour após o corte, com 24 anos, diz que ficar longe dos pais, do irmão e dos sobrinhos torna a experiência mais desafiadora:
— Família sempre longe é difícil. O que mais me motiva é que amo o que faço e me sinto completamente confortável com tudo que as competições me trazem.
Ser atleta do Championship Tour é viver de oito a dez meses fora de casa. Além de se preocupar com o desempenho, os surfistas que não possuem uma equipe estruturada têm de lidar de forma independente com passagens aéreas, controle de gastos, gravações, preparo físico e eventos.
Quando a saudade aperta, as chamadas de vídeo se tornam a principal aliada, permitindo que os atletas “reencontrem” rostos queridos mesmo a milhares de quilômetros de distância. Já os aplicativos de mensagens ajudam a manter conversas rápidas, enquanto redes sociais funcionam como uma forma de diário. Alguns competidores apostam em pequenos rituais — como ligações fixas antes das baterias, mensagens de “boa sorte” enviadas por filhos ou até gravações de vídeos motivacionais.
— Quando viajo, conversamos uma vez por dia, no máximo duas, até porque, psicologicamente, não quero estar num lugar vivendo outro — explica Miguel Pupo. — Na época do meu pai (Wagner), ele mandava carta para a minha mãe e, às vezes, retornava antes mesmo de a carta chegar, o que era engraçado
Pupo, de 32 anos, é pai de quatro meninas. Com as viagens, teve que acompanhar o parto de uma delas por chamada de vídeo. Hoje, administra a saudade.
— Elas me pedem para ficar ou fazem brincadeiras, querem entrar na mala, tentam pular dentro da capa da prancha — conta.
Apesar de todos os desafios, os surfistas ainda valorizam a liberdade de viver do que amam, de conhecer novas culturas e de buscar uma conexão com cada local.
— Sou bem curioso e gosto de entender as pessoas, os costumes, a culinária… Tento aprender algumas palavras do idioma e troco ideia com os locais sempre que posso — diz Filipinho.
A vida atípica também gera um sentimento de irmandade entre os brasileiros, que estreitam os laços ao longo da temporada. O vínculo traz leveza para a disputa e serve como refúgio, destaca Pupo:
— Os meus amigos são o pessoal do tour. Muitos de nós já viajamos e competimos juntos há muitos anos. A gente passa muito mais tempo junto com eles do que com a própria família.