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‘Talvez eu tenha colocado muitas pedras nas minhas costas’, diz Bruninho, ícone do vôlei

BRCOM by BRCOM
setembro 1, 2025
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O êxtase de Bruninho na final contra a Itália, na Rio-2016 — Foto: Marcelo Carnaval

As angústias pela ligação com o pai, Bernardinho, a responsabilidade de manter o legado de uma geração histórica da seleção brasileira, a marcante conexão com a Itália e o processo de queda e ascensão entre as finais olímpicas de Londres-2012 e Rio-2016 são os temas de “Entre sombras e vitórias” (Sextante, 2005), biografia coproduzida com autores italianos e lançada em agosto no Brasil.

Em conversa com o GLOBO, Bruno falou de pontos-chave do livro e da carreira. Entre eles, a derrota de Londres-2012, quando a seleção brasileira perdeu pela Rússia, momento que o afetou profundamente até mesmo fora das quadras. Quatro anos depois, ele chegaria ao sonhado ouro olímpico, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Relatos que ele considera os mais marcantes da biografia.

— Temos momentos na nossa vida em que passamos por algum tipo de luto. O meu foi um luto esportivo, senti que foi um luto. Talvez eu tenha colocado essa obsessão tão grande, de precisar vencer uma Olimpíada, para tirar um peso das minhas costas. Talvez eu mesmo tenha colocado muitas pedras nas minhas costas, carregado isso, e depois daquela derrota, chegado ao fundo do poço. Conseguir, naquele momento, encontrar pessoas que me ajudaram nessa parte de ressignificar, de me reconectar comigo mesmo, de entender melhor minhas emoções, é um processo que me fez não só vencer a Olimpíada, que foi fantástico. Mas fez com que eu crescesse nessa parte mental, entendesse melhor minhas emoções, me conhecesse melhor.

O êxtase de Bruninho na final contra a Itália, na Rio-2016 — Foto: Marcelo Carnaval

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  • Veja a entrevista completa de Bruninho:
      • ‘Talvez eu tenha colocado muitas pedras nas minhas costas’, diz Bruninho, ícone do vôlei

Veja a entrevista completa de Bruninho:

Logo no início do livro, você já passa por episódios sensíveis, como o corte do Ricardinho (antes do Pan de 2007, que culminou em vaias a Bruno) e o Mundial de 2010 (tricampeonato brasileiro, marcado por uma derrota proposital polêmica para a Bulgária). Foi a primeira vez que você pôde falar em detalhes de alguns desses episódios?

Eu acho que eu já tinha comentado sobre certas coisas. É lógico que fui mais a fundo, principalmente da minha entrada na seleção. Colocando toda a minha trajetória, as pessoas conseguem ter uma noção melhor de como eu cheguei, depois dos títulos pelo Cimed/Floripa, do meu caminho, quando acontecem certas coisas que talvez as pessoas não soubessem, como quando aconteceu o corte do Ricardo. Talvez eu tenha entrado mais a fundo, digamos assim, nos momentos, em como eu vivi aqueles momentos. É uma biografia, então é tudo aquilo que eu senti, o que passei. A biografia tem isso, de conseguir (contar) os principais momentos, que talvez tenham sido chaves na minha carreira, sejam eles bons, ruins ou difíceis. Sem dúvida, pode traduzir mais em detalhes. E aí é onde a gente consegue ver realmente certas emoções e sentimentos que acabam gerando a partir de certos episódios.

A biografia tem dois co-autores italianos. Como surgiu a ideia?

Na verdade, eu não tinha essa ideia. A primeira versão foi italiana. Dois co-autores são italianos. Um é da Gazzetta dello Sport, o Davide Romani, que cobre vôlei e cobria outros esportes. O outro é o Gian Paolo Maini, que era assessor em Modena. Na Itália, é um pouco mais comum ver biografias de atletas e ex-atletas, mais do que aqui no Brasil. Eu era um pouco cético em relação a fazer enquanto ainda estava em atividade, mas eles acreditavam que a minha história tinha coisas importantes. A gente foi conversando e eu fui entendendo que talvez eu pudesse passar algumas coisas valiosas e lições que o esporte tem através daquilo que a gente representa, de como é o nosso dia a dia. O processo, os altos e baixos do esporte, que podem ser muito bem traduzidos para a vida. Me encontrei ali, achei fantástico. Como todas as biografias, de alguma maneira você consegue tirar lições, fazer reflexões, então achei que pudesse ser interessante, não só para jovens atletas, mas para pessoas que já passaram por frustrações e momentos bons. Acreditei que a minha história poderia, de alguma maneira, servir para as pessoas.

Você fala muito da importância da Itália para sua carreira no livro. Como é essa ligação, como você é recebido lá?

Modena é uma cidade onde o vôlei sempre foi o carro-chefe, o primeiro esporte da cidade. Desde o primeiro momento que eu cheguei, fui acolhido de uma forma que eu não imaginava. Foi importante para mim, para o meu amadurecimento, crescimento, para ganhar ainda mais confiança. Por ser um estrangeiro, um cara que vem do Brasil, que vem da seleção, mas que vem de fora. Lá eles não têm esse lance, não existe essa relação com o meu pai. Meu pai era técnico da seleção, mas, para eles, o importante era que eu fosse um atleta que conseguisse render, performar dentro no campeonato deles. Foi algo profissional, mas consegui, de alguma maneira, tirar esse laço que sempre existia aqui no Brasil. Ter ganhando esse respeito dos italianos, onde fica o considerado melhor campeonato do mundo, pelo qual todos os grandes atletas passaram, e ter conseguido fazer a minha carreira lá, vencendo todos os títulos possíveis… não só por causa das vitórias, mas tendo o respeito que eu conquistei durante todo esse tempo, é o que mais me deixa orgulhoso dessa minha trajetória na Itália.

Bruno em sua despedida do Modena — Foto: Modena Volley/site oficial
Bruno em sua despedida do Modena — Foto: Modena Volley/site oficial

No meu último jogo em Modena, a homenagem que fizeram para mim, tudo aquilo para um atleta estrangeiro. Conseguir realizar algo desse tipo, é algo do qual tenho que me orgulhar, né? Muitas vezes a gente passa a nossa carreira sem pensar muito no que a gente conquista, (pensando mais) no que a gente perde. E, às vezes, quando olha para trás, você fala “cara, eu acho que isso foi uma das coisas mais bacanas que eu fiz com a minha carreira”. Conseguir esse respeito, esse carinho, esse amor de Modena e de Cvitanova, também, onde eu joguei, da Itália em si. O respeito pelo atleta. Acho que isso é o principal. É algo que realmente mudou a minha carreira.

No livro você fala muito de angústias, da relação com seu pai à responsabilidade de manter o legado vencedor da seleção. Foi a primeira vez que pôde revisitar alguns desses episódios de maneira mais relaxada?

Com certeza. Talvez eu não tivesse consciência de tudo naquela época. Os sentimentos vinham e eu acabava, através do trabalho, do empenho, tentando passar por esses obstáculos e desafios, seja provando que eu mereci o meu lugar, seja tendo essa responsabilidade de continuar fazendo com que o Brasil estivesse entre os melhores times do mundo. São momentos em que a gente sente tudo aquilo, mas está no meio do furacão e não tem como ter uma noção interna. Fazendo essa biografia, voltando lá atrás, eu consigo ter uma visão diferente, mais reflexiva, relaxada, e entender muito daquilo que passa na nossa cabeça. Voltar essa história toda foi muito interessante, dizer “cara, a gente passou por tanta coisa, né?”. Não só eu, mas a geração que lutou pós-Londres-2012 também. Precisava conquistar algo realmente tão grande e a gente conquista aquele ouro na Rio-2016. Essa resiliência que a gente teve em todos esses momentos é realmente algo que hoje, olhando para trás, mostra que, apesar de ter perdido muito também, mas com muitas vitórias e toda essa luta, realmente valeu a pena. Demonstra não só a minha carreira, mas como a seleção triunfou e continuou triunfando por tanto tempo.

Como é sua relação com o Bernardinho hoje? Vocês trocam ideias sobre vôlei?

Não tendo essa relação pai, treinador e jogador, é sempre um pouco mais simples, né? Ele tem, primeiro, uma comissão técnica ao lado, que pode trocar (sobre vôlei), ter conselhos ali dentro. Ele, com a experiência dele, sempre muito grande. Mas, sim, pelo meu conhecimento de tantos anos na Itália, conheci muitos jogadores também. Às vezes ele me pergunta, “a gente vai jogar contra tal seleção, tem esse cara, o que você lembra na época em relação a estudos, a marcação?”. Às vezes eu dou a minha contribuição como torcedor, como filho, mas de uma maneira muito mais tranquila hoje. É lógico que a gente tinha esse tipo de conversa na seleção, falava “a gente lá na Itália faz isso ou aquilo”. Mas hoje, é mais como um torcedor, assim como ele foi durante anos depois que saiu da seleção. Me acompanhava na Itália, ia assistir meus jogos, e a gente tinha conversas como pai e filho, como torcedor e filho. Hoje é uma relação, digamos, menos profissional. E tem uma maneira de mais ajuda, de colaboração, como qualquer pai e filho buscam no seu dia a dia.

Bruninho ao lado do pai e das irmãs, em um dos eventos de lançamento do livro — Foto: Roberto Filho/Divulgação
Bruninho ao lado do pai e das irmãs, em um dos eventos de lançamento do livro — Foto: Roberto Filho/Divulgação

No livro, você relata lembranças bem específicas da sua infância. Ter uma vida perpassada pelo esporte ajuda a marcar sua vida temporalmente?

Eu acho que ajuda. Eu tenho uma memória boa, até brincam, perguntam “tal jogo, quanto foi, como é que foi?”. Tenho uma memória boa de momentos que são marcantes para mim, momentos-chave na minha vida. Eu lembro dos sentimentos e das emoções na separação dos meus pais quando eu era muito jovem, de quando a gente volta para o Brasil, do momento que eu tive que decidir qual esporte fazer. Tenho memórias bem frescas, e talvez seja porque, durante a carreira, você tem lembranças através de jogos, de momentos bons e ruins que marcaram. Minha vida inteira foi feita de momentos-chave e eu tenho essa memória boa para isso.

Em meio a finais olímpicas, você viveu a transição do torcedor para o digital, o boom das redes sociais. Como você lidou com essa transição? Sentiu mais pressão?

Minha relação com as redes sociais talvez tenha crescido junto com esse boom, um pouco depois até da Rio-2016. Tóquio-2020, por ser uma Olimpíada totalmente diferente, sem público por causa da pandemia, se tornou extremamente (acompanhada e vivida) pela internet. As pessoas viviam isso e como tem escrito no livro, a gente acabou se isolando naquela pandemia e entrando muito nas redes sociais, sendo afetado de uma maneira mais direta do que em outros momentos. No Rio, principalmente, quando tínhamos a maior pressão que a gente poderia sofrer, os jornais eram muito mais lidos, a gente conseguiu se blindar muito bem. Estávamos muito focados naquilo que a gente tinha que fazer, porque se você se deixa levar por comentários externos, ruídos, acaba se apertando, e perde o foco naquilo que é o importante, do que fazer dentro de quadra, do nosso time. No Rio, a gente conseguiu se blindar muito bem como equipe, e passamos por momentos muito difíceis durante a Olimpíada. Em Tóquio foi diferente. Não tinha lugares onde você poderia ficar em comunidade dentro da vila olímpica. A gente fazia testes todo dia. Acho que cada um se isolou um pouco mais, e ao se isolar você acaba consumindo mais e possivelmente sendo afetado por comentários que muitas vezes são externos e que não valem muita coisa. O que vale é o que a gente passa ali dentro. Mas não é simples. O ser humano acaba sendo afetado por esses comentários. Foi uma mudança em que refleti e encontrei maneiras de lidar.

Bruno durante treino nos Jogos de Tóquio — Foto: Míriam Jeske / COB
Bruno durante treino nos Jogos de Tóquio — Foto: Míriam Jeske / COB

Você se tornou um atleta muito midiático. Como lida com a vida se tornando pública?

Eu sou bem tranquilo. Talvez possa ser um pouco pior para as pessoas que estão comigo, possa incomodar. Mas faz parte, um pouco. Acredito que minha exposição ainda é bem tranquila. Eu imagino um atleta de futebol, um Neymar ou um cara dessa magnitude, que não pode ne respirar que qualquer coisa vira notícia. O meu caso não é nada que invada demais a minha privacidade. O carinho que eu recebo, acredito que seja algo muito genuíno. Para mim, são coisas legais, eu ainda vejo de uma maneira muito positiva. Não sei como seria se fosse muito além disso, uma repercussão muito maior. No meu caso, lido tranquilamente, nunca tive grandes problemas em relação a isso. Acho que eu estou no lugar certo, porque tenho esse reconhecimento pelo trabalho, por tudo aquilo que a gente conquistou, pelo que as pessoas admiram, mas sem chegar a um ponto que você não consegue ter uma vida pessoal, podendo curtir momentos fora de casa.

Bruno foi porta-bandeira nos Jogos de Tóquio — Foto: Míriam Jeske/COB
Bruno foi porta-bandeira nos Jogos de Tóquio — Foto: Míriam Jeske/COB

Você conta detalhes muito interessantes de partidas, como o passe de segurança que tinha para o Leandro Vissotto, por exemplo. Esse detalhes da competitividade no vôlei se perdem em discussões mais rasas de redes sociais?

As redes sociais deram voz para qualquer pessoa. A pessoa nunca seguiu nada e segue a Olimpíada, vê um jogo e se acha no direito de comentar sobre aquilo. Eu tento, no livro, passar aquilo que eu passei naqueles momentos. Para as pessoas, principalmente quem acompanhou o vôlei nesses anos, a seleção, saber quem era o cara que eu confiava em certos momentos, em tal competição. É interessante para conhecer um pouco mais os bastidores, esses detalhes, do que imaginar coisas de fora. Estando numa seleção brasileira de vôlei, jogando Olimpíadas e o Brasil sendo uma referência, você acaba exposto a isso, comentários de quem conhece e de quem não conhece, que muitas vezes nem acompanham para dar opinião. Mas faz parte, é o que as redes transmitiram. Você tem que saber equilibrar aquilo que consome ou não na internet. Não que não vá receber críticas porque não jogou bem, isso faz parte. Tem que entender quem escutar, algo que possa ser construtivo para você.

O que os levantadores dessa geração precisam para se encaixar bem no vôlei atual?

As pessoas falam “pô, compara aí seleção A com seleção B de tal ano”. É muito difícil, o vôlei está mudando, como qualquer outro esporte. Talvez se perca numa parte, mas se ganhe muito na outra. O vôlei, principalmente o masculino, tem se tornado um esporte extremamente físico, os jogadores cada vez mais fortes. Então, o saque é muito importante. É uma primeira arma. Tanto a pancadaria quanto as variações. A recepção não consegue ser como antigamente, em que tinha muito mais passes A (passes “na mão” do levantador), recepções boas ou perfeitas. O levantador conseguia fazer um jogo com muita velocidade, fazer a diferença. Hoje em dia, o passe acaba quebrando muito mais, porque a pancadaria no saque é muito maior, os saques são muito mais pesados. Então, você joga com passes mais longe da rede. Os levantadores têm que ter uma agilidade em relação à chegada na bola. E conseguir imprimir, mesmo assim, uma certa velocidade, mesmo jogando com passes fora da rede. Ser imprevisível, conseguindo jogar com os centrais mesmo fora da rede. Você consegue, mesmo assim, se tornar um levantador que faz a diferença jogando rápido.

Bruninho em ação pelo Vôlei Renata/Campinas — Foto: Pedro Teixeira/Vôlei Renata
Bruninho em ação pelo Vôlei Renata/Campinas — Foto: Pedro Teixeira/Vôlei Renata

Temos jogadores mais altos, que não são tecnicamente brilhantes, mas que jogam de uma maneira precisa, que são muito fortes, principalmente no bloqueio. O Giannelli (Perugia/Itália), que é um ótimo levantador, mas talvez não tenha uma qualidade técnica tão apurada como a do Cachopa (Milano/Brasil), comparando. Só que é um jogador muito alto. E faz a diferença por pontuar bastante, também, por ter um bloqueio muito forte, sacar bem. O voleibol moderno requer isso, talvez seja o ideal. Mas, se você não tem essa possibilidade, se você não tem levantadores tão altos, tem que tentar trabalhar em relação a isso, manter o jogo de velocidade, mesmo tendo menos passes na mão. A agilidade tem que ser maior em relação à chegada na bola. Olhando para quando eu comecei a jogar, olhando a Olimpíada de 2004 e a última, a quantidade de passes na mão, a diferença é bem grande. Acaba fazendo com que o trabalho do levantador mude muito.

Qual é o momento mais marcante do livro?

O processo do pós-Londres-2012. Temos momentos na nossa vida em que passamos por algum tipo de luto. O meu foi um luto esportivo, senti que foi um luto. Talvez eu tenha colocado essa obsessão tão grande, de precisar vencer uma Olimpíada, para tirar um peso das minhas costas. Talvez eu mesmo tenha colocado muitas pedras nas minhas costas, carregado isso, e depois daquela derrota, chegado ao fundo do poço. Conseguir, naquele momento, encontrar pessoas que me ajudaram nessa parte de ressignificar, de me reconectar comigo mesmo, de entender melhor minhas emoções, é um processo que me fez não só vencer a Olimpíada, que foi fantástico. Mas fez com que eu crescesse nessa parte mental, entendesse melhor minhas emoções, me conhecesse melhor. Isso é fundamental para qualquer tipo de pessoa. Quando você está num momento de dificuldade, você busca ajuda. A gente sabe quanto burnout e depressão são sintomas e doenças que estão cada vez mais presentes na nossa sociedade. É importante passar isso para as pessoas no livro. Não é uma fraqueza. Tem que ser um ato de coragem. Você querer sair daquele lugar e buscar ajuda para aquilo. Que as suas vulnerabilidades se tornem algo que te façam evoluir e melhorar como ser humano. Acho que esse é o principal momento do livro. Esse processo todo, do luto esportivo a voltar e ser campeão olímpico. Mas não só isso. Voltar a encontrar felicidade naquilo que eu passei.

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