O primeiro debate ao governo de São Paulo das eleições de 2026, protagonizado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), que concorre à reeleição, e Fernando Haddad (PT), apontou quais devem ser as estratégias de campanha da dupla ao longo das próximas semanas até o primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Eles se enfrentaram na noite deste domingo (9), em programa realizado pela TV Band.
Debate da Band: Tarcísio e Haddad têm confronto sobre PCC, Cracolândia e Master
Enquanto Haddad questionou dados de violência contra a mulher, privatizações e a queda no ranking de educação, com uma ou outra referência positiva ao governo do presidente Lula (PT), Tarcísio enfileirou números e obras do seu governo, colou no prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), seu principal cabo eleitoral, e fez críticas pontuais à política econômica do país.
Foco na segurança
Haddad abriu o confronto com dados de feminicídio que demonstram discrepância entre a realidade de São Paulo e do país como um todo, e dobrou a carga com suspeitas de envolvimento de integrantes da cúpula da PM com o Primeiro Comando da Capital (PCC). O petista aposta na segurança pública como bandeira eleitoral, mesmo com o apelo reduzido das esquerdas na pauta, ao mesmo tempo em que acena para o voto das mulheres, público em que o bolsonarismo é menos enraizado.
Aproveitou ainda para desgastar Guilherme Derrite (PP), ex-secretário estadual de Segurança Pública, que concorre ao Senado pelo grupo de Tarcísio. Ele questionou o caráter “técnico” do indicado, associando-o ao ex-presidente Jair Bolsonaro, e lembrou que o próprio governador demonstrou insatisfação nos bastidores com o desempenho do aliado na pasta.
— O Derrite foi técnico? — perguntou Haddad.
— Vamos aos números, né? Derrite entregou menor taxa de homicídio, a menor taxa de latrocínio — Tarcísio passou a enumerar, em um aceno ao companheiro que estava na plateia.
Além de parte dos indicadores criminais que estão em baixa, Tarcísio respondeu com uma das vitrines do mandato, o alegado “fim da Cracolândia”, entendido como a dispersão do fluxo de usuários de drogas que antes ficava concentrado numa quadra entre a Rua dos Protestantes e a General Couto de Magalhães, no bairro de Santa Ifigênia, no centro de São Paulo. No lugar, uma praça foi inaugurada este ano pela prefeitura da capital paulista.
Pautas nacionais
O reforço positivo ao governo Lula por Haddad já era esperado, mas havia dúvidas sobre o empenho de Tarcísio em trazer pautas federais ao debate, o que acabou ocorrendo — seja para aumentar as chances de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), que ocupou seu lugar na corrida presidencial, seja para antecipar os planos de sair candidato a presidente daqui a quatro anos.
A estratégia do candidato do Republicanos passou, principalmente, pela pauta fiscal. A certa altura, argumentou que os déficits nas contas públicas colocam o país no caminho do governo Dilma Rousseff (PT), quando o Brasil enfrentou uma recessão que culminou no impeachment, em 2016. Ele também jogou uma isca para Haddad sobre o “mea-culpa” do PT na Lava Jato, dispensada pelo rival.
Haddad criticou o que classificou como um “calote” dado pelo governo Bolsonaro aos governadores, lembrando da indisposição do ex-presidente com o então governador paulista João Doria. Falou ainda no negacionismo da pandemia, nos prejuízos do tarifaço americano à economia brasileira e citou bandeiras do governo Lula, como a isenção do Imposto de Renda a quem ganha até R$ 5 mil por mês.
— Você está muito focado em Bolsonaro, Bolsonaro, você não está concorrendo com o Bolsonaro, isso foi em 2018, já passou — disse Tarcísio.
— Você tem vergonha do Bolsonaro? — Haddad aproveitou o gancho.
— Não tenho vergonha não, tenho gratidão. Um abraço Bolsonaro, vou agradecer sempre ao que você fez na minha vida — respondeu o atual governador.
Privatizações
No segundo confronto direto, Haddad deu prioridade aos questionamentos sobre as privatizações feitas pelo governo Tarcísio. A principal delas foi a Sabesp, uma promessa de campanha do rival, que teve o controle acionário vendido para a Equatorial. O governo alega que a operação agiliza investimentos para universalização do saneamento básico, mas a companhia enfrenta aumento de mais de 70% das reclamações por falta de água e cobranças indevidas, segundo dados oficiais.
O petista criticou o que chamou de “onda privatista” do atual governador de São Paulo e perguntou o que ele corrigiria “do seu programa voraz de privatização”, colocando ainda na conta os problemas nas concessões do transporte sobre trilhos da CPTM e a privatização das escolas. Tarcísio preferiu dar enfoque ao último tema, alegando que está construindo “escolas do futuro”.
— São escolas com espaços multiuso, espaços funcionais, com a melhor infraestrutura — disse Tarcísio. — Aí, a nossa equipe escolar, o nosso diretor, o coordenador pedagógico vão ter uma só preocupação: ensinar. A gente não faz privatização por fazer.
O candidato do PT rebateu:
— Tarcísio, você é um cara meio de decoreba, como se fosse me intimidar com isso, e não respondeu ao que eu te perguntei. Eu te perguntei sobre a venda da Sabesp por 20% a menos do que o preço de merado. E o que está acontecendo com os trilhos de São Paulo? Você falou que te dói quem tem o celular roubado, mas te dói as pessoas que morreram nas obras da Sabesp?
Do interior à capital
O debate refletiu a divisão territorial das campanhas, em que Haddad procura se aproximar do interior paulista e Tarcísio tenta consolidar o voto na capital e região metropolitana, onde teve desempenho inferior ao petista na eleição passada, apesar da vitória em segundo turno.
— São cidades pequenas, essas cidades que eu estou percorrendo, e a reclamação é sempre a mesma: cadê o governador? Aí eu ouço que o governador não está preocupado com o interior porque ele se elegeu sem os prefeitos — declarou Haddad, num esforço para pintar o adversário como ingrato.
Tarcísio, por outro lado, deu especial atenção à sua relação com o prefeito da capital, Ricardo Nunes. Ele procura fazer um contraponto à maior derrota eleitoral de Haddad, em 2016, quando ocupava o mesmo cargo e perdeu para Doria em primeiro turno.
— Você foi o pior prefeito da história — disse Tarcísio. — Hoje, estou trabalhando com o melhor prefeito da história, que está arrebentando, tem obras em todas as periferias. Ele foi reeleito, não perdeu para brancos e nulos na sua eleição. Isso diz muito, a população te rejeitou. Aqui tem trabalho e entrega.
Segundo turno antecipado
A ausência de outros candidatos concorrendo ao Executivo paulista com representação suficiente no Congresso para garantir a presença nos debates e sabatinas em rádio e TV deram ao programa uma cara de segundo turno. E, de fato, pelas pesquisas de momento, existe uma possibilidade concreta de a disputa se resolver em apenas uma votação, com favoritismo para Tarcísio.
O debate da Band teve perguntas de jornalistas, mas dois blocos inteiros foram dedicados a confrontos diretos, em que os próprios candidatos administravam 20 minutos de fala com o ritmo de sua preferência. Neles, Tarcísio demonstrou um melhor controle do relógio. O candidato falou diretamente às câmeras, sem possibilidade de contraponto, nos dois momentos.
Na primeira ocasião, com mais de um minuto à disposição, alegou que o petista seria um risco ao estado porque quer “implodir tudo, ele quer começar do zero”. E depois concentrou os ataques no governo Lula, comparando os índices de aprovação do petista com os seus em São Paulo.
— Será que não está na hora da gente dar uma guinada? — indagou Tarcísio.
Além da dupla, devem concorrer ao governo de São Paulo outros candidatos de partidos com menos visibilidade e estrutura de campanha: Vera Lúcia (PSTU), Carlos Machado (PCB) e Vivian Mendes (UP). Tarcísio conta com um amplo arco de alianças do centro à direita. Haddad repete a coligação de Lula em nível federal, com partidos de esquerda.

