As novas e abrangentes tarifas do presidente Donald Trump entraram oficialmente em vigor nesta quinta-feira, à medida que ele avança com sua cruzada para remodelar o comércio global.
Após meses de ameaças caóticas e reviravoltas, tarifas mais altas para quase todos os parceiros comerciais dos EUA começaram logo após a meia-noite, pelo horário de Nova York. Trump assinou a ordem há uma semana, mas foi necessário um tempo para que o Departamento de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA implementasse as mudanças complexas necessárias para arrecadar as taxas.
Somadas, as ações de Trump elevarão a tarifa média sobre importações dos EUA para 15,2%, segundo estimativas da Bloomberg Economics – bem acima dos 2,3% do ano passado e o maior nível desde a Segunda Guerra Mundial.
Trump anunciou suas “tarifas recíprocas” em 2 de abril, data que ele batizou como “dia da libertação”. Elas iriam em vigor imediatamente, mas o presidente americano deu então uma “trégua” de 90 dias, cujo prazo se encerraria no início de julho. Várias exceções surgiram. E o prazo foi finalmente estendido mais uma vez, até agora.
Mas, quanto tempo vai vigorar esse megatarifaço global? Que outros setores podem conseguir uma isenção? O que esperar da economia global daqui para frente?
Os próximos meses testarão as previsões tanto de Trump quanto de seus críticos: de que o regime tarifário provocará uma mudança sísmica na economia americana.
Trump prometeu que tarifas mais altas reduzirão o déficit comercial dos EUA e forçarão empresas a transferir sua produção de volta para o território americano. Seus críticos afirmam que isso pode provocar uma espiral inflacionária e causar escassez de produtos nas prateleiras.
Nenhum desses cenários se concretizou até agora, mas dados econômicos recentes indicam que dificuldades podem surgir à medida que as tarifas forem implementadas.
Os números de emprego de julho mostraram o menor crescimento de empregos desde a pandemia de Covid-19. O crescimento econômico dos EUA desacelerou no primeiro semestre do ano, com os consumidores reduzindo os gastos e as empresas se ajustando às mudanças na política comercial.
O desemprego continua baixo e os preços ainda não dispararam, pois muitas empresas têm absorvido os custos. No entanto, alguns especialistas alertam que os consumidores e empresas acabarão pagando a conta.
— Há sinais de que tempos difíceis estão por vir. Muitas empresas estavam acumulando estoques antes da entrada em vigor das tarifas — disse Wendy Cutler, vice-presidente do Asia Society Policy Institute e ex-negociadora comercial dos EUA. Ela argumenta que é “quase inevitável que os preços aumentem” porque as empresas dificilmente manterão margens de lucro menores por muito tempo.
As tarifas de Trump trouxeram turbulência à economia mundial desde que foram anunciadas — e depois suspensas — em abril, desencadeando meses de negociações frenéticas com parceiros comerciais. A incerteza gerada provocou ansiedade entre empresas sobre possíveis interrupções nas cadeias de suprimento e aumento de custos.
Muitos países prometeram investir centenas de bilhões de dólares nos EUA para agradar Trump e garantir acordos com tarifas reduzidas.
Ainda assim, detalhes cruciais dos planos de Trump continuam pendentes. Os descontos nas tarifas de automóveis para UE, Japão e Coreia do Sul ainda não foram formalizados e, até lá, os veículos continuarão sujeitos às taxas mais altas.
Os detalhes sobre os investimentos prometidos e mudanças na política de acesso ao mercado para produtos dos EUA — o que poderia ajudar a reduzir os déficits comerciais — também ainda não foram anunciados.
Analistas das principais instituições financeiras de Wall Street alertaram seus clientes para uma possível retração nos mercados e nas Bolsas. Esse aviso vem em meio a crescentes preocupações com a economia dos EUA, após dados recentes mostrarem um aumento da inflação, desaceleração do emprego e queda nos gastos dos consumidores.
O custo de vida foi uma questão central na eleição do ano passado, e as pesquisas refletem frustração com a abordagem de Trump. Uma pesquisa recente da Fox News mostra que 62% dos eleitores desaprovam a gestão de Trump sobre as tarifas — enquanto 58% são contra sua proposta de impostos e gastos. No geral, 55% estão insatisfeitos com sua condução da economia.
Também persistem dúvidas sobre a legalidade duradoura do programa de Trump, já que sua utilização de poderes emergenciais para impor tarifas por país está sendo contestada judicialmente. Quando se trata de tarifas para setores específicos, como automóveis e metais, os fundamentos jurídicos são um pouco mais sólidos.
— Você vê o governo tentando apresentar a narrativa de que este ciclo de tarifas está chegando ao fim e que haverá mais previsibilidade — disse Tim Meyer, professor da Faculdade de Direito da Universidade Duke e especialista em comércio. Mas ele acrescenta que a “capacidade de implementação está sob grave dúvida legal.”
Trump insiste que suas medidas inaugurarão uma nova era dourada na economia e tem rejeitado dados que não se encaixam em sua narrativa, chegando a demitir o chefe do órgão estatístico que publicou os últimos números de emprego.
Trump também tem comemorado o aumento das receitas com tarifas, chegando a sugerir que isso poderia resultar em cashback de impostos para alguns americanos. Dados do Tesouro dos EUA mostram que a arrecadação com tarifas alfandegárias atingiu o recorde de US$ 113 bilhões nos últimos nove meses do atual ano fiscal (de outubro de 2024 a junho de 2025). Mas o déficit orçamentário dos EUA foi de US$ 1,3 trilhão no mesmo período.
Não está claro, no entanto, se Trump está progredindo em outro dos seus objetivos declarados com o programa tarifário: trazer a produção de volta para os Estados Unidos. Ele e seus assessores afirmam que as tarifas farão os empregos na indústria manufatureira desparecerem.
Brad Jensen, professor da Escola de Negócios McDonough da Universidade Georgetown, disse que é difícil aumentar simultaneamente as receitas com tarifas e os empregos:
— Ambos não podem ser verdadeiros,. Se houver um aumento na produção doméstica então não teremos receita tarifária porque menos produtos serão importados.
Após uma série de negociações turbulentas, a União Europeia, Japão e Coreia do Sul aceitaram tarifas de 15% sobre seus produtos, incluindo exportações-chave como automóveis, que de outra forma enfrentariam uma taxa de 25%. Outros países receberam tarifas definidas, variando de 10% a valores muito mais altos.
Algumas tentativas de última hora de países para obter acordos melhores falharam. A presidente da Suíça, Karin Keller-Sutter, deixou Washington na quarta-feira sem sucesso em reduzir a tarifa de 39% aplicada ao seu país, e Trump dobrou as tarifas sobre produtos indianos para 50%, com início em três semanas, como punição pela compra de petróleo russo.
As negociações sobre tarifas mais altas para produtos de três dos maiores parceiros comerciais dos EUA — México, Canadá e China — seguem em uma trilha separada. Trump também prometeu anunciar em breve tarifas sobre indústrias críticas, incluindo farmacêuticos e semicondutores.