Enterrada há mais de 2.500 anos nas montanhas geladas do sul da Sibéria, uma mulher da Idade do Ferro teve sua história recontada pelas marcas deixadas em sua pele. Sim, tatuagens. Graças ao uso de fotografia infravermelha de alta resolução e reconstrução 3D, um grupo internacional de pesquisadores conseguiu revelar detalhes invisíveis dos desenhos que cobrem seu corpo mumificado.
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A múmia pertence à antiga cultura Pazyryk, um povo nômade que viveu entre os séculos IX e II a.C. no que hoje é a Rússia, o Cazaquistão e a Mongólia. Preservada pelo “permafrost” — solo permanentemente congelado —, a pele da mulher ainda guarda desenhos de animais fantásticos, padrões florais e símbolos que, até agora, só podiam ser vistos por meio de esboços em preto e branco. A nova técnica mudou isso.
Autor principal do estudo publicado na revista Antiquity, o arqueólogo Gino Caspari, do Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha, explica que a luz infravermelha permite ver pigmentos que desapareceram do campo visual humano e possibilita analisar a execução técnica dessas marcas com clareza suficiente para falar em autoria, por exemplo.
O estudo mostrou que os tatuadores Pazyryk usavam instrumentos variados, como agulhas de múltiplas pontas para traços uniformes e ferramentas finas de ponta única para detalhes minuciosos, como chifres, garras ou flores.
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Os cientistas também identificaram diferenças nítidas de estilo entre os dois antebraços da múmia. No braço direito, desenhos mais sofisticados revelam domínio de perspectiva e composição. Já no esquerdo, traços mais simples e menos detalhados sugerem um tatuador com menos experiência. Isso indica que essas tatuagens foram feitas por pessoas diferentes ou em momentos distintos da vida da mulher, afirmam os pesquisadores.
Para interpretar os métodos, os arqueólogos contaram com a ajuda de um tatuador profissional, que recriou padrões usando ferramentas baseadas em achados arqueológicos. As recriações foram aplicadas na própria pele do pesquisador e observadas durante o processo de cicatrização, fornecendo referência direta para comparação com as tatuagens milenares.
Além da técnica, o estudo também lança luz sobre o significado social dessas tatuagens. As marcas foram cruzadas por cortes feitos durante a preparação do corpo para o sepultamento, sem qualquer tentativa de preservação. Para os autores, isso sugere que as tatuagens tinham valor na vida, mas não eram consideradas relevantes na morte.
Em várias culturas indígenas, tatuagens funcionam como passaportes espirituais para o além, explicam os especialistas. Mas no caso dos Pazyryk, parece que o valor simbólico dessas marcas se encerrava com a morte.