Diante da prisão da deputada Carla Zambelli (PL-SP), que foi sua aliada no passado, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) adotou o silêncio como estratégia. Nesta quarta-feira, ao ser questionado pelo GLOBO se comentaria o caso da aliada, o ex-presidente evitou responder diretamente. Em vez disso, ironizou:
— Tem censura no Brasil ou não?
A defesa de Bolsonaro tem orientado o ex-presidente a não dar declarações públicas e a limitar ao máximo suas aparições. Apesar de poder dar entrevistas, suas declarações não podem ser replicadas em redes de terceiros, devido às medidas cautelares.
Bolsonaro silencia após ser questionado sobre prisão de Zambelli
No caso de Zambelli, a família também silenciou. Eduardo, Flávio e Carlos têm evitado manifestações públicas. Segundo aliados, a avaliação é que misturar os episódios pode fragilizar a estratégia jurídica em torno do pai, foco principal da preocupação do clã. O silêncio seria uma forma de blindar Bolsonaro.
Zambelli foi presa ontem, na Itália, após ter sido condenada por invadir o sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Embora tenha sido uma das vozes mais estridentes da ala ideológica bolsonarista, Zambelli já vinha se afastando de Bolsonaro. O ex-presidente, por sua vez, não esconde o desconforto com a deputada. Em maio deste ano, quando ela deixou o país, Bolsonaro declarou:
— Não tenho nada a ver com a Carla Zambelli, tá certo? Não botei dinheiro no Pix dela e tô aguardando.
A relação entre os dois, antes marcada pela lealdade, se deteriorou de forma irreversível após o episódio em que Zambelli sacou uma arma e perseguiu um homem negro às vésperas do segundo turno das eleições de 2022. O gesto foi visto por Bolsonaro como um dos fatores que contribuíram para sua derrota. Em março deste ano, ele atribuiu publicamente a Zambelli parte da responsabilidade pelo fracasso nas urnas
— A Carla Zambelli tirou o mandato da gente. Aquela imagem da Zambelli perseguindo o cara… Aquilo fez gente pensar: “Olha, o Bolsonaro defende o armamento”. Mesmo quem não votou no Lula, anulou o voto. A gente perdeu — disse, em entrevista ao podcast Inteligência Ltda.
A deputada tentou reaproximação após a eleição, mas não teve sucesso. O único gesto mais claro de Bolsonaro foi um vídeo gravado em apoio à candidatura do marido dela, Coronel Aginaldo, à prefeitura de Caucaia (CE). Ele terminou em quarto lugar.
Antes do rompimento, Zambelli acumulava episódios de fidelidade ao ex-presidente. Em 2020, quando o então ministro da Justiça e padrinho de seu casamento, Sergio Moro, pediu demissão do governo, ela tentou convencê-lo a recuar, dizendo que teria vaga garantida no STF. Também teria sido dela a sugestão para que Regina Duarte assumisse a Cinemateca, após ser demitida da Secretaria de Cultura.
Zambelli também rompeu com antigas aliadas por Bolsonaro. Deixou de ser próxima da deputada Joice Hasselmann, com quem marchou a favor do impeachment de Dilma Rousseff (PT), após a colega romper com o governo. A fidelidade, no entanto, não foi retribuída: em 2021, Bolsonaro retirou Zambelli da vice-liderança da Câmara para abrir espaço ao Centrão e ampliar sua base de apoio.
Nas eleições de 2022, os dois ainda estiveram juntos. Zambelli foi uma das puxadoras de votos do PL em São Paulo, com mais de 946 mil votos. Mesmo assim, foi preterida na disputa ao Senado. Bolsonaro preferiu lançar seu ex-ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes.
O rompimento definitivo veio com o episódio da arma. Por causa da ação, ela também responde por porte ilegal de armas e constrangimento ilegal