Daniele Fiuza, moradora do Leblon, estava sentada em uma cadeira de praia, na altura do posto 12, vendo a Maratona do Rio passar. Eram 7 horas de domingo e ela aguardava pacientemente a amiga Debora Biolchini, que encarava os 42 km pela primeira vez. Com um olho na pista e outro no celular, Daniele acompanhava a performance de Debora em um aplicativo para não perder o momento exato em que alcançaria o quilômetro 30.
— Esta é a parte mais difícil para o corredor, a reta final da maratona. Como eu também corro, sei o quanto isso é importante. Ter alguém nos esperando pelo percurso, dá uma força no psicológico, algo essencial nas provas longas. Fica na cabeça que ela vai chegar aqui e que eu estarei esperando para incentivá-la e lhe dar uma coca-cola. Tem muito valor. — disse Daniele, que corre meia-maratona mas, machucada, não participou do evento deste ano. — A gente sempre teve esse sonho de correr uma maratona e ela está completando hoje. Estou emocionada.
Além da coca-cola de Daniele, Debora teve apoio em outros dois locais da Maratona do Rio: em Copacabana e no quilômetro final, no Aterro do Flamengo, onde sua filha a aguardava, emocionada.
O quilômetro 30 de uma maratona é conhecido como o “muro dos 30”, ponto onde muitos corredores desistem. É quando os atletas experimentam um declínio significativo no desempenho, devido ao esgotamento de energia e fadiga física e mental. Por isso, nas maratonas mundo afora é o ponto em que há grande concentração de “torcedores” e animadores. É onde amigos, familiares e a turma do treino ficam de plantão para dar apoio moral.
E não tem corredor que não se anime nesse quilômetro tão temido. Mesmo cansados, abrem sorrisos com a festa da torcida. Tem gente que levanta cartaz, que aplica Gelol nos que sentem dor, entregam guloseimas para dar energia extra a quem precisa, ou que apenas estende a mão para um “toque aqui”.
A Maratona do Rio tomou as ruas da cidade do Centro e da Zona Sul. O maior festival de corridas de rua da América Latina colocou 60 mil corredores em provas de quinta-feira a domingo. Isso sem contar o público, que se espalhou em diversos pontos do percurso. O Aterro do Flamengo, na área da chegada, foi o local com mais gente tanto na maratona, quanto nas provas anteriores.
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Ana Laura dos Santos e Maiara Rangel, que na véspera correram 21 km, estavam do outro lado neste domingo. Eram público. Com a treinadora Letícia Santos, causaram no quilômetro 30. É que cerca de 30 colegas da assessoria MP Run, no Maracanã, estavam na prova e elas estavam retribuindo a força que receberam na meia maratona.
Elas gritavam e agitavam cartazes com frases de incentivo e elogios. Letícia, que havia perdido a voz de tanto gritar na Maratona do Rio em 2023, comprou um megafone no ano passado e ontem estava, de novo, à vontade na função. Levou até banquinho para ganhar altura no cantinho da pista.
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— Este é um dos pontos em que as pessoas desistem mesmo… E estamos aqui para incentivar. Não só os nossos alunos, mas todos os corredores. Quando acabam a corrida, dizem que esse incentivo fez a diferença. Completar uma maratona é um sonho — diz Letícia, que distribuiu paçoca e bananada para quem precisou de uma energia extra. — A energia que recebemos de volta não dá para explicar.
Ela comentou que a assessoria tinha ainda tenda pós-prova e mais um ponto de encontro em Botafogo, pertinho do final.
— É importante para eles saberem que estamos juntos, que tem uma equipe que se importa com eles e que está junto em todos os momentos.
Neste domingo, o pódio da elite masculina e feminina contou com cinco atletas do Brasil. Entre os homens, os quenianos Joshua Kogo (2h14min18) foi o campeão e teve o compatriota Josphat Kiprotich (2h15min14), em segundo lugar. Justino Pedro da Silva, bicampeão da prova (2021 e 2022), garantiu o terceiro posto (2h19m35), sendo o melhor brasileiro. Foi seguido dos também brasileiros Ederson Vilela Pereira (2h21m38) e Givaldo Sena (2h23m22).
Justino comemorou a volta por cima: no ano passado ele havia “quebrado” no quilometro 20 e teve de abandonar:
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— Estou muito feliz com o pódio. Para este ano eu vim mais bem preparado e meu foco era ganhar ou estar entre os cinco — comentou Justino, que não havia completado uma maratona em 2025. Em abril, na Maratona da New Balance, em Porto Alegre, ele também havia abandonado no quilômetro 25.
No feminino, a vencedora foi a etíope Zinash Debebe Getachew (2h34min58), à frente da brasileira Amanda Aparecida de Oliveira, a melhor do país na elite (2h39m18). As quenianas Naum Jepchirchir (2h3945) e Rael Boiyo (2h43m11) e a brasileira Rejane da Silva (2h45m37s) fecharam.