
Assim como as capas dos álbuns que vem lançando desde 2014 — que trazem, em cores diferentes, o mesmo logotipo emoldurado —, o som do projeto inglês Jungle não tem segredos: são reelaborações eletrônicas, radiofônicas e dançantes, de sonoridades muito conhecidas (e saborosas) do pop dos anos 1970 e 1980. A coisa não é diferente em “Sunshine”, seu quinto álbum, lançado nesta sexta-fenra (14) no streaming e que traz o grupo para apresentação única no Brasil, no próximo dia 30 de março, no Espaço Unimed, em São Paulo.
— O que nos atrai emocionalmente é a nostalgia, e essa ideia de evocar reações emocionais ou de permitir que as pessoas associem uma memória emocional a uma música — entrega por Zoom ao GLOBO o produtor inglês Tom McFarland, que compõe o Jungle com o também produtor e cofundador Josh Lloyd-Watson e a vocalista Lydia Kitto.
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Sendo assim, o que faz com que sua música chegue a gerações tão jovens, como a que ajudou a viralizar globalmente “Back on 74”, faixa do álbum “Volcano” (2023), que foi até tema da campanha da marca fashion americana GAP? Que nostalgia é essa que atraiu tantos meninos e meninas para dançar em sua histórica apresentação ao pôr do sol no Lollapalooza de 2024?
— Quem me dera saber, cara, porque aí eu venderia essa informação por muito, muito dinheiro! — brinca McFarland. — A gente sempre teve em nossos shows até três gerações da mesma família, e isso é muito legal. Os temas das nossas músicas geralmente giram em torno de amor e de perda, de amizade e de união. Então, enquanto pudermos espalhar esse tipo de mensagem e todo mundo puder ouvi-la, esse continuará a ser o lugar ideal.
Capa de ‘Sunshine’, do Jungle
Divulgação
O produtor promete que os shows do Jungle na turnê do novo disco serão “esse tipo de encontro religioso, de uma forma comunitária, muito especial”. A passagem por São Paulo será a quinta visita que eles fazem ao país.
Tom McFarland diz adorar a comida e a arquitetura do Brasil. Sempre que vem por aqui, corre atrás de discos e instrumentos raros:
— A melhor pessoa para isso é o nosso percussionista, Will. Ele conhece todos os lugares para comprar instrumentos de percussão raros. Quando estávamos no Rio de Janeiro da última vez, ele tinha um amigo que faz instrumentos de percussão e chocalhos com tampinhas de garrafa velhas. Com certeza vamos visitá-lo de novo e comprar bastante coisa.
Para o produtor, era clara a intenção, com “Sunshine”, de ultrapassar “Volcano”, álbum que chegou ao terceiro lugar das paradas britânicas. No novo disco, eles expandem seu universo sonoro pelo lovers rock jamaicano (“Come back to me”), o pop-folk setentista (“Carry on”), o jazz-rap dos anos 1990 (“Romeo II”) e até as delicadezas orquestrais de um Burt Bacharach (“Heavy on my soul”).
— Nunca queremos nos acomodar com o ponto em que estamos, porque assim que você se acomoda e se torna complacente, é melhor desistir! — diz. — O mais importante era curtir o processo de fazer um álbum novamente, e tentar ser rápido. Acho que você pode se perder no tempo quando não tem prazos. Acho que se a arte é pensada por muito tempo, ela perde a sua pureza e a essência da sua ideia. Temos esse mantra: “Vamos nos divertir, tentar ser rápidos e ver o que acontece.”
Se há algum segredo no som do Jungle, ele diz, é o de “abraçar as imperfeições”:
— Nada é perfeito. E acho que tentar alcançar a perfeição, especialmente dentro de um processo criativo, é um desperdício de energia. As pessoas gostam de ver imperfeições, gostam de sentir que você está criando algo como um ser humano. E, naturalmente, a menos que você seja um engenheiro civil, que precisa de precisão, senão as pessoas morrem, a essência natural da criatividade de alguém deve estar à mostra. É como uma bela cadeira artesanal: você se senta nela e coloca as mãos na madeira, e sente que ela não é perfeita, você pode ver os veios da madeira por baixo do verniz. O mesmo acontece com a música e a arte em geral.
E quanto ao uso disseminado de inteligência artificial na música dos dias de hoje? O produtor aponta, de cara, para a injustiça do negócio.
— Antigamente, quando usávamos um sample, pagávamos por isso, assim como quando os músicos que vinham ao estúdio para nos ajudar a fazer música. O perigo da IA é que você pode obtê-la gratuitamente, e a pessoa comum não vai notar a diferença. Isso me deixa triste, porque tenho centenas de amigos que são instrumentistas incríveis, compositores incríveis, produtores de samples incríveis, produtores de beats incríveis. E o futuro deles está potencialmente limitado — lamenta. — É óbvio que você nunca vai substituir a experiência de ver alguém tocar um solo de jazz insano no trompete no (clube londrino) Ronnie Scott’s às duas da manhã. Isso nunca vai ser substituído, e é o que me dá esperança para o futuro da música. Você ainda não é capaz de colocar um robô no palco.
