O assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, na quarta-feira, foi mais um trágico episódio de uma longa história de violência política nos EUA, que parece ter se intensificado nos últimos anos, com novos elementos — como os ligados a grupos extremistas criados em fóruns online — desafiando as autoridades e semeando instabilidade no país.
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Em conversa com O GLOBO, Kevin Schultz, chefe do Departamento de História da Universidade de Illinois em Chicago, afirma que o cenário atual é similar ao visto nos anos 1960 e 1970, quando lideranças políticas, incluindo o presidente John Kennedy, foram mortas, em meio a uma ebulição política nas ruas. Para ele é crucial que os agentes políticos, da esquerda à direita, dialoguem urgentemente, para barrar o avanço do extremismo, não apenas nos Estados Unidos. Confira os principais trechos da conversa.
É correto dizer que os EUA enfrentam uma escalada em ataques com motivação política?
Sim, houve um aumento dessa violência nos últimos 10 anos. Ela sempre foi parte da vida e da cultura políticas do país, desde os tempos da fundação revolucionária e através da criação de uma economia escravista e com as ondas de imigração. Sempre existiu uma nuance de violência política nos EUA. Em diferentes momentos da História, ela aumenta e diminui, e agora é um daqueles momentos em que parece estar em níveis elevados. Eu diria que é comparável aos níveis de violência política dos anos 1960 e 1970, quando John Kennedy foi assassinado, quando Robert Kennedy foi assassinado, quando Martin Luther King Jr. foi assassinado, quando George Wallace, governador do Alabama que concorria à Presidência foi baleado. Sempre que perguntam qual é o trabalho mais perigoso dos Estados Unidos, as estatísticas mostram que é o de presidente, de todas as pessoas que ocuparam o cargo, cinco delas foram mortas, e ocorreram inúmeras tentativas de assassinato.
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Ataques como o que matou Charlie Kirk são o novo normal nos EUA?
Sempre hesito ao dizer se é o novo normal, se é uma nova maneira das coisas acontecerem, porque nós, historiadores, estudamos as mudanças do passado e como as coisas se movem em direções diferentes. Então não há um novo normal sobre o que podemos esperar. Mas há sinais, como, por exemplo, a pouca vontade do Partido Republicano em promover medidas de controle das armas. Quando comparamos com outros países, vemos que as questões de saúde mental são parecidas, a polarização política é similar, e essa área [controle de armas] na qual poderíamos atuar para reduzir a violência política não parece atrair grande motivação para passar leis de controle de armas.
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Você mencionou a violência política nos anos 1960 e 1970. Há similaridades entre os ataques do passado e o que estamos vendo hoje em dia, como no assassinato de Charlie Kirk ou na invasão do Capítólio, em janeiro de 2021?
Um paralelo que podemos traçar é sobre a temperatura do debate, ela está tão elevada como nos anos 1960, quando havia o movimento pelos direitos civis, com os manifestantes contra a Guerra do Vietnã, com o ativismo das feministas, e com o que podemos chamar de surgimento da direita religiosa. Esses movimentos elevam a temperatura do debate em nossa sociedade, e estamos vendo isso acontecer agora de maneira parecida. Outro paralelo é que esses ataques parecem ter como alvos líderes políticos e de movimentos. Charlie Kirk não era político, nunca concorreu a nada, mas era alguém que tinha um podcast e uma organização política bem-sucedida para mobilizar os jovens. E uma das maneiras que vejo por que isso está acontecendo é o fácil acesso a armas de fogo. Quando a temperatura política aumenta, pessoas instáveis mentalmente são geralmente aquelas que decidem matar líderes, que saem para matar pessoas. Eles tentam encontrar uma identidade através da violência política.
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O presidente dos EUA, Donald Trump, fez declarações culpando a “esquerda radical” pelo assassinato, mesmo antes das motivações do atirador serem conhecidas, no momento em que ele indica seu desejo de expandir a presença de forças federais nas ruas, inclusive em sua cidade, Chicago. A morte de Charlie Kirk pode servir como mais um pretexto para essa expansão de poderes?
Aqui em Chicago os cidadãos protestaram contra a incursão da Guarda Nacional em nossas ruas, e parece que tiveram sucesso, uma vez que isso não aconteceu. Agora Trump parece ter deixado Chicago de lado e está falando em mandar tropas para Memphis (Tennessee). Foi interessante ver o poder dos protestos contra as ações presidenciais. Agora, sobre a morte de Kirk, ela é uma história em evolução, mas parece que o atirador não era um elemento da chamada “extrema radical”, mas sim alguém ligado à extrema direita, onde há vários subgrupos que se odeiam por várias razões. Um desses grupos é chamado Groypers, que consideravam Kirk muito moderado, muito de esquerda para eles. O atirador, segundo as informações preliminares, passava muito tempo online, era alguém que conhecia a cultura online da direita, memes, linguagem. E isso é interessante porque, nos últimos dias, pessoas como Trump e seus apoiadores têm dito que “a esquerda está declarando guerra à direita”, “a guerra civil está chegando”, mesmo que a pessoa que tenha matado Kirk não seja ligado à esquerda. O que devemos observar é se a direita usará esse assassinato como uma razão para aumentar a violência política contra a esquerda. E embora não haja uma justificativa clara para isso, não significa que não poderão usar o incidente como um chamado à sua base.
Ainda sobre esses grupos extremistas, nós falamos sobre eles há anos. Você acredita que estejamos vendo uma evolução do discurso violento, que era majoritariamente online, para atos reais e numerosos na “vida real”?
Eu espero genuinamente que não, e fiquei impactado pelo grau de compaixão vindo da esquerda. Pessoas lembrando que Charlie Kirk era pai de duas crianças, que ele tinha uma mãe. Você pode não gostar do que ele dizia, podia representar tudo que você mais odeia, mas ninguém merece ser assassinado, ninguém merece morrer dessa maneira, e vi mais compaixão online do que poderia esperar. Eu me preocupo com o aumento das críticas da direita à esquerda, e com o risco de que usem o ataque como justificativa para mais violência política. Mas como estamos descobrindo mais coisas sobre o assassino, espero que a compaixão da esquerda e do centro possa superar o discurso que está borbulhando na direita.
Charlie Kirk também tinha fãs fora dos EUA — aqui no Brasil, inclusive. Como o assassinato desta semana pode reverberar além das fronteiras americanas?
Acho que ele era o símbolo da ascensão de uma direita populista, que tem origem na ansiedade econômica e na expressão religiosa. E quando falo da ansiedade econômica digo que ela é real. O avanço da economia neoliberal levou muitas pessoas da classe trabalhadora a acreditarem que os empregos estão indo embora, que outras parcelas da população devem ser vilanizadas porque estão recebendo benefícios federais, e isso acontece em outros países, como na Alemanha, no Brasil, Polônia. É um fenômeno global, e Charlie Kirk era a voz perfeita dessa ansiedade nacionalista que surge da economia neoliberal. E acredito que a direita tenha feito um trabalho melhor do que o da esquerda nos EUA e ao redor do mundo: ela consegue falar melhor sobre essas ansiedades, algo que a esquerda não teve sucesso.
Sempre lembro que o Partido Republicano respondeu à crise financeira de 2008, agora Trump vem com o discurso de seu nacionalismo econômico, fechando fronteiras, atacando a imigração, de que está trabalhando duro para conseguir os empregos americanos de volta. Acredito que ele está fazendo tudo da maneira errada, mas são movimentos que ele está realizando. Enquanto Barack Obama, por exemplo, continuou a empurrar a economia neoliberal para os trabalhadores, os democratas não ofereceram um caminho para a classe trabalhadora melhorar suas vidas. Charlie Kirk conseguia se comunicar com as pessoas que estavam frustradas por seus futuros não serem como os de gerações passadas. Isso é um fenômeno global, e minha esperança agora é que a esquerda e o centro reconheçam essas ansiedades e frustrações, e depois consigam estabelecer um diálogo com a direita, não permitindo que os extremos assumam as rédeas. Se isso acontecer, podemos acabar com o que vimos esta semana, com violência política, que nunca é uma maneira produtiva para comandar um país.