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Tempo de Sobra #5 | Saindo do automático: táticas para se maravilhar na rotina

Este texto é parte da newsletter Tempo de Sobra, de Mariana Coutinho. Em cinco capítulos, a série mostra como recuperar a atenção no dia a dia e focar no que realmente importa. Para receber no seu e-mail, clique aqui. O tempo cronológico marca os minutos e horas no relógio, mas você já reparou como a […]

Tempo de Sobra #5 | Saindo do automático: táticas para se maravilhar na rotina


Este texto é parte da newsletter Tempo de Sobra, de Mariana Coutinho. Em cinco capítulos, a série mostra como recuperar a atenção no dia a dia e focar no que realmente importa. Para receber no seu e-mail, clique aqui.
O tempo cronológico marca os minutos e horas no relógio, mas você já reparou como a nossa percepção de tempo varia? Quando estamos entediados, o tempo se estende. Uma aula chata dura muito mais que duas horas e um filme ruim dá vontade de dormir e não gastar mais uma hora vendo. Quando estamos empolgados com algo, é ao contrário: parece que o tempo passa mais rápido. Quem nunca achou que a viagem voou ou que o show do seu artista favorito acabou num piscar de olhos? Isso tem a ver com referências e com a intensidade das emoções que experimentamos.
Por outro lado, quando temos muitas referências e estamos em lugares rotineiros e confortáveis, percebemos menos o mundo ao redor. Se uma novidade não chama, o dia parece sempre igual e não sentimos muito o tempo, apenas pulamos de uma mesma tarefa a outra. De novo e de novo. Por isso, em um esforço para pegar nosso tempo de volta, não podemos deixar essa dimensão de fora.
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‘Todo dia ela faz tudo sempre igual’
A palavra “rotina” vem do latim “rupta”, que designava um caminho rompido ou aberto à força — uma “ruptura”. Dá para pensar em uma trilha construída de maneira brusca e que passa a marcar um caminho novo. Como se abríssemos uma estrada do ponto A ao ponto B e sempre fizéssemos esse mesmo trecho passando pela mesma linha. Sempre do mesmo jeito, vendo a mesma paisagem. Mas e se fizéssemos alguns desvios?
Buscar estratégias para se maravilhar na rotina pode ser uma forma de experimentar mais o tempo, mas também de sentir que não estamos vivendo coisas novas e empolgantes só nos finais de semana. Ter disciplina para manter uma rotina saudável e minimamente produtiva não quer dizer que devemos nos fechar para novas experiências e pequenos momentos significativos. É possível inseri-los no nosso trajeto sem necessariamente mudar a direção.
Rotina pode incluir novas experiências
Foto: Romeo A./Unsplash
Quando somos crianças, experimentamos muitas coisas novas o tempo todo e cheias de detalhes sensoriais. Essas novas experiências geram memórias mais densas e essa sensação do tempo passando mais devagar. Para os adultos, os dias podem parecer todos iguais, com a mesma sequência de tarefas se desenrolando uma após a outra e o celular entremeando qualquer momentinho de pausa. Não há grandes novidades para o cérebro, então o dia parece comprimido e logo já é hora de dormir de novo.
Quando passamos tanto tempo mergulhados nas telas, a atenção fica prejudicada e notamos menos as coisas que acontecem ao nosso redor. E notar menos as coisas ao nosso redor nos tira a possibilidade de nos maravilharmos com elas. De repente, nada nos motiva. E como sair desse ciclo?
Se você já seguiu nossas dicas por aqui, deve estar passando menos tempo no celular, especialmente de manhã e à noite, e aproveitando melhor o tempo que está nele. Também já deve ter tirado da sua rotina tarefas que não faziam sentido e está reservando mais tempo para leituras e hobbies com os quais realmente se importa. Agora, tente abrir um pouco a percepção para o seu redor no dia a dia.
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Pequenos momentos de maravilhamento
Procure por pequenos momentos de maravilhamento nos seus trajetos diários. E nem é papo de “gratidão”. É só prestar atenção em coisas legais no seu dia: pode ser só a roupa diferentona de uma pessoa na rua, um cachorro engraçado, o barulho do mar, o jeito que o sol bate na cortina, a camiseta do seu colega de trabalho, o seu filho cantarolando a música de um desenho, uma revista antiga na sala de espera do consultório médico. Coisas que passariam batidas se você não estivesse observando.
Quer um incentivo? Anote! Sabe o caderno ou agenda que você separou para uma organização analógica? Invente uma seção para “dois momentinhos mágicos do meu dia” e tente preencher sempre. Quais foram os 30 segundinhos que fizeram este dia ser diferente de ontem? Esse exercício simples vai te ajudar a sentir mais o tempo e trazer mais significado para a sua rotina.
Uma estrela numa parede pode ser um maravilhamento no seu dia
Alexandre Cassiano
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Multitarefa pra quê?
Já percebeu como nossa atenção fica comprometida quando fazemos mais de uma coisa ao mesmo tempo? O hábito de multitarefa costumava ser muito valorizado, como um sinônimo de produtividade. Mas a verdade é que nosso cérebro não foi feito para se concentrar em mais de uma coisa ao mesmo tempo:
— Mesmo que o cérebro consiga processar, em paralelo, estímulos sensoriais de várias tarefas ao mesmo tempo, ele geralmente só consegue selecionar e planejar a resposta para uma por vez — explica Julie Wein, doutora em Neurociências pela UFRJ. — Na prática, o que nosso cérebro faz é alternar rapidamente a atenção entre as tarefas. Num mundo que nos exige cada vez mais fazer várias coisas ao mesmo tempo, ele pode ficar sobrecarregado, nos tornando menos eficientes e mais distraídos.
A tentativa de fazer várias coisas ao mesmo tempo não só nos tira a eficiência nessas coisas, como compromete nossa capacidade de prestar atenção no que está ao nosso redor. Pense que se você está correndo e ouvindo um podcast ao mesmo tempo, não vai prestar muita atenção nas pessoas por quem passa na rua. Ou se está assistindo a uma reunião no celular enquanto come, não vai se lembrar muito do sabor da comida. Logo, outra tática para trazer o maravilhamento para a rotina é abrir mão da multitarefa, pelo menos em algumas partes do seu dia. Eleja atividades para fazer longe do telefone, do computador ou mesmo da televisão para se concentrar realmente.
A autora Mariana Coutinho apresenta a newsletter Tempo de Sobra
Que tal andar por uma rua diferente de vez em quando?
Fabio Rossi
Faça um caminho diferente
A ideia de que a rotina é uma mesma trilha aberta que percorremos todos os dias do ponto A ao ponto B abre a possibilidade de apenas fazermos um caminho diferente. E isso pode ser literal. Se você vai a pé para o trabalho, que tal andar por uma rua diferente de vez em quando? Dar uma parada na volta da escola para olhar o mar ou perambular pelo parque antes de voltar para casa? Experimentar o ônibus ao invés do metrô só uma vez?
Mas essa trilha diferente pode querer dizer também um artista novo nos seus fones na academia ao invés da mesma playlist de sempre. Pode ser mudar a marca do café que você toma e fazer panquecas ao invés do pãozinho de todo dia no lanche. Pode ser ir numa cafeteria ou numa sorveteria diferente no lugar daquela mais perto da sua casa. Pode ser pedir um sabor de suco exótico. É claro que com essas escolhas você vai estar se arriscando um pouco mais. Mas também vai estar expandindo referências. Coisas novas todos os dias podem mudar a nossa sensação de tempo.
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Questão de tempo
Com todas essas ações que exploramos ao lobgo desta newsletter, você pode sentir que está assumindo mais o controle do seu tempo. O foco não é fazer mais em menos tempo, mas ter mais tempo para o que importa. Como um recurso limitado, o tempo precisa ser manejado, mas mais do que isso: ele precisa ser experimentado. Para sentir que o tempo está sendo bem aproveitado, precisamos nos apropriar dele e não sentir que nossa atenção está sendo drenada.
Tempo de Sobra é um projeto do jornal O GLOBO com a newsletter Tempo de Qualidade. Assine Tempo de Qualidade para continuar explorando este assunto.
Para se aprofundar
VÍDEO: A percepção da velocidade do tempo
Neste breve vídeo produzido durante a pandemia de Covid-19, o historiador Leandro Karnal faz uma reflexão sobre a percepção do tempo à medida que envelhecemos e a relação com o tédio. Ele traz referências de outros pensadores, como o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman.
PODCAST: O ASSUNTO | O cérebro multitarefa (e a importância do ócio)
Este episódio do podcast O Assunto aborda a importância de fazer uma “faxina mental” e dar tempo de descanso para o seu cérebro. Em conversa com Natuza Nery, o neurocientista Fernando Gomes fala sobre o cérebro humano e desvenda qual é a nossa real capacidade de performar várias tarefas ao mesmo tempo.
Leia mais no Tempo de Qualidade
Tempo de qualidade não existe
O exercício performático ainda é saudável?
Mariana Coutinho é jornalista, doutora em Estudos de Linguagem e autora da newsletter Tempo de Qualidade — também uma página no Instagram.

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Autor

BRCOM