BRcom - Agregador de Notícias
No Result
View All Result
No Result
View All Result
BRcom - Agregador de Notícias
No Result
View All Result

Tiradentes, com ressalvas

BRCOM by BRCOM
maio 14, 2026
in News
0
Tiradentes, com ressalvas


Era uma mesa com Oscar Nakasato, autor dos inesquecíveis romances “Nihonjin” e “Ojiichan” — um grande escritor japonês casualmente nascido no Brasil — e Clarice Freire, que conquistou mais de um milhão de seguidores nas redes sociais com poesia, vejam vocês, mas de quem eu ainda não tinha ouvido falar (a gente nunca dá conta de tudo); ela é a autora de “Para não acabar tão cedo”, romance que já vai pela quinta edição.
A mediação era de Bianca Ramoneda, que abriu os trabalhos pedindo para Clarice ler as primeiras páginas do livro.
— Ó, céus — lamentei com os meus botões. — Isso não vai dar certo.
Morro de medo de mesas em que os autores leem os seus trabalhos. O constrangimento é quase certo, o tédio ronda o ambiente.
Mas aí a Clarice começou a ler. Primeiro, ela sabe ler, arte que pouca gente domina; depois, ela tem aquela musicalidade pernambucana; e, finalmente, o texto é notável.
Para mim, aquele foi o momento mais bonito da Fliti, a Feira Literária de Tiradentes, um evento relativamente pequeno, sem as multidões de Paraty, mas intenso e muito afetuoso. A gente encontra amigos e leitores, conversa, come os melhores pães de queijo, se sente em casa.
Em Tiradentes, a literatura ainda parece uma conversa entre pessoas reais.
Nada disso acontece por acaso. A Fliti é um sucesso porque é comandada pela própria Bianca e por Martha Ribas, uma das sócias da Janela Livraria, duas pessoas que conhecem o livro e o povo do livro como ninguém. Voltei muito contente de ter ido, e olha que a ida foi um caos: duas carretas tombaram na estrada e a viagem, que era para durar quatro horas e meia, durou nove. Quando chegamos, cada centímetro quadrado do meu corpo doía; eu nem sabia que tinha tantos centímetros quadrados.
Estive em Tiradentes uma única vez, décadas atrás, e não me lembrava de quase nada. A cidade foi uma ótima surpresa. Está limpa, linda, bem conservada. O centro é inteiramente voltado para o turismo, mas de uma forma acolhedora — são restaurantes, barzinhos, muitas lojas de artesanato, incontáveis lojas de queijos e de doces.
Há charretes elétricas: como as charretes antigas, com as mesmas rodas e a mesma configuração, mas sem cavalos. Enorme progresso.
Há também uma quantidade de vira-latas, todos gordinhos, amistosos e bem tratados. Fazem parte da cidade, que entende o seu valor emocional e lhes dá os devidos tratos.
O ponto negativo é o raio do calçamento, parecido com o de Paraty. É de época, é ecológico e é superfotogênico, mas é absurdamente excludente.
Ele desfaz, sozinho, todo o empenho que a cidade investe em acolher bem.
Impossível andar por aquelas pedras sem olhar para o chão, o que é um desperdício, considerando a paisagem em volta. Quem já descobriu que tem joelho perde a alegria de passear e de viver; cadeirantes viram reféns das pousadas.
Se alguém quebrar o quadril, paciência, a pedra permanece autêntica.
Eu honestamente não sei se a preservação histórica justifica essa hostilidade com quem já não anda com facilidade. O recado que as ruas de Tiradentes transmitem aos mais velhos e aos que têm dificuldade de locomoção é claro: não venham.

Tiradentes, com ressalvas

Previous Post

'PCC, o salve geral': ascensão de Marcola ao topo da facção se deu após entregar ex-chefes à polícia, conta ex-delegado

Next Post

as estreias e os filmes em cartaz

Next Post
Tom Cruise e Val Kilmer em "Top Gun: Ases indomáveis" — Foto: Divulgação

as estreias e os filmes em cartaz

  • #55 (sem título)
  • New Links
  • newlinks

© 2026 JNews - Premium WordPress news & magazine theme by Jegtheme.

No Result
View All Result
  • #55 (sem título)
  • New Links
  • newlinks

© 2026 JNews - Premium WordPress news & magazine theme by Jegtheme.