A caminho do trabalho, Paulo Márcio do Nascimento, de 41 anos, viveu momentos de desespero dentro de um ônibus que passava pela Rua São Clemente, em Botafogo, durante a operação da Polícia Civil no Morro Dona Marta, na manhã desta terça-feira. Baleado na perna direita em meio ao intenso tiroteio na região, ele conta que, mesmo ferido, conseguiu pegar o telefone e avisar os familiares sobre o que havia acontecido.
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— Assim que fui atingido, liguei para todo mundo da minha família para avisar que tinha sido baleado, mas que estava bem — contou Paulo ao GLOBO, poucas horas após receber alta hospitalar.
Morador do Méier e natural da Paraíba, Paulo, de 41 anos, vive no Rio há oito. Como faz rotineiramente, saiu cedo de casa para trabalhar em um restaurante na Lagoa, onde atua como auxiliar de serviços gerais. O trajeto incluía pegar o ônibus da linha 410 (Saens Peña x Gávea – via Lapa), na Lapa em direção à Zona Sul.
A viagem seguia normalmente até que o coletivo se aproximou do Morro Dona Marta.
— A gente vinha normal. Passamos por várias viaturas e, quando chegamos em frente ao morro, começou o tiroteio. Foi muito rápido. Todo mundo começou a gritar para abaixar. Todo mundo se abaixou. Eu também me abaixei, mas, mesmo assim, fui atingido na perna.
O disparo atingiu a perna direita de Paulo e transfixou o membro. Dentro do ônibus, o clima foi de desespero.
— Todo mundo ficou desesperado. As pessoas tentavam me ajudar enquanto os tiros continuavam. Foi um susto muito grande.
O coletivo estava na altura da Rua São Clemente, uma das principais vias de acesso ao Dona Marta, quando os disparos começaram. A região amanheceu tomada por viaturas da Polícia Civil e foi palco de um intenso confronto durante a operação contra integrantes do Comando Vermelho.
Inicialmente, o auxiliar de serviços gera is foi encaminhado ao Hospital Souza Aguiar. Depois, acabou transferido para o Hospital Municipal Miguel Couto, onde passou por avaliação médica. Como o projétil atravessou apenas a parte muscular da perna, sem atingir estruturas mais graves, recebeu alta ainda nesta terça-feira.
— O tiro foi só na carne. Graças a Deus fiquei bem. Mesmo com a perna machucada, consegui falar com a minha família o tempo todo.
Do outro lado da linha, a notícia provocou apreensão imediata. Parte da família vive no Rio, enquanto outros parentes permanecem na Paraíba.
— Minha irmã e meu primo estão aqui. O restante da família já foi avisado também. Agora quero ir para casa e me recuperar.
Operação desde a manhã
A operação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) começou nas primeiras horas da manhã e foi acompanhada por intenso tiroteio no Dona Marta. A ação tem como alvo integrantes do Comando Vermelho investigados por atuar na comunidade.
Um passageiro de um ônibus que trafegava pela Rua São Clemente, em Botafogo, foi baleado na perna durante a operação.
Além do passageiro ferido, um grupo de pessoas que havia subido ao Mirante Dona Marta para acompanhar o nascer do sol ficou impedido de deixar o local por causa da troca de tiros. A operação também mobilizou dezenas de viaturas estacionadas na Rua São Clemente e contou com o apoio de helicópteros da Polícia Civil.
Disparos no início da manhã
Segundo testemunhas, os disparos começaram ainda nas primeiras horas da manhã. Fontes ouvidas pelo GLOBO afirmaram que pelo menos 22 viaturas da Polícia Civil estavam posicionadas na Praça Corumbá, em Botafogo, que estaria sendo utilizada como base da operação para concentração do efetivo e encaminhamento dos presos.
Moradores também relataram uma sequência de tiros e explosões, além do sobrevoo de helicópteros policiais. “Foi muito tiro com bomba… loucura. Nunca escutei isso por aqui”, afirmou um morador. Outro disse que “nunca viu uma movimentação assim”.
Investigação de 22 meses: Operação no Dona Marta integra ofensiva contra o Comando Vermelho iniciada há quase dois anos
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A operação também provocou reflexos no trânsito, com formação de fila de veículos na Rua São Clemente durante a manhã.
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Investigação de 22 meses
De acordo com a Polícia Civil, a ofensiva é conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) e cumpre ordens judiciais expedidas pela 26ª Vara Criminal da Capital. A investigação, iniciada há cerca de 22 meses, identificou uma estrutura voltada ao tráfico de drogas na comunidade, com atuação de dezenas de integrantes distribuídos em diferentes funções.
Ainda segundo a corporação, foram identificados 44 suspeitos ligados ao grupo criminoso. As apurações apontam que a liderança da organização seria exercida por Ronaldo Pinto Lima e Silva, conhecido como Ronaldinho Tabajara ou R9, atualmente preso em um presídio federal de segurança máxima em Mossoró (RN), enquanto Francisco Rafael Dias da Silva, o Mexicano, seria responsável por comandar as atividades cotidianas da facção na comunidade.
Morro Dona Marta: operação da Polícia Civil cumpre mandados de prisão e de busca e apreensão
A Polícia Civil informou que o objetivo da operação é cumprir mandados judiciais, desarticular a estrutura da organização criminosa e reunir novos elementos para o avanço das investigações. Mais cedo, a Polícia Militar informou que não realizava operação própria na região.
Operação Contenção
De acordo com o balanço divulgado pela corporação, a Operação Contenção já resultou na captura de mais de 360 suspeitos e na morte de outros 137 em confrontos, além da apreensão de cerca de 480 armas — entre elas 190 fuzis — e mais de 51 mil munições.
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