As diferenças entre ingleses e americanos sempre renderam boas piadas e inspiraram o cinema e a literatura. Os sotaques, as regras sociais divergentes e a sofisticação (ou a falta dela) servem de matéria prima para alimentar esses contrastes. Em “Too much”, lançada pela Netflix, são essas mesmas discrepâncias que aproximam os personagens centrais.
Acompanhamos o namoro da novaiorquina Jessica (Megan Stalter) com o londrino Felix (Will Sharpe). Os abismos culturais são pretextos para diálogos apaixonados e gracinhas que se multiplicam. A narrativa evolui cheia daqueles clássicos encontros e desencontros que sempre culminam em beijos. Além disso, faz um retrato geracional e mostra os comportamentos de quem está hoje na faixa dos 30 anos. Usa a gramática romântica de 2025, mas trata de temas universais e atemporais e acerta públicos diversos.
É a série-queridinha do momento e com motivos. A temporada tem dez episódios fáceis de devorar num fim de semana.
Quando o enredo começa, Jessica está nos Estados Unidos, sofrendo por causa de uma separação. Voltou a morar com a mãe, a avó e a irmã, e a vida profissional vai mal. É nesse contexto que o ex-cunhado a indica para uma vaga numa produtora de comerciais na Inglaterra.
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Ela embarca para uma Londres idealizada — Jessica imagina bairros de casas muito elegantes e amores inspirados nos livros de Jane Austen. Desembarca num apartamento decadente, alugado num prédio sem charme e numa área desprovida de qualquer glamour.
Na primeira noite, visita sozinha um pub (que ela, americana, chama de bar) e lá conhece um músico. Felix (Will Sharpe, da segunda temporada de “The White Lotus”) é uma figura adorável. Ele a acompanha numa longa caminhada de volta para casa e assim começa o namoro que guia a narrativa.
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Os dois primeiros episódios não empolgam. A estetização levada ao paroxismo — nos cenários e nos figurinos — além de um certo histrionismo nas interpretações esfriam o resultado. Mas essa impressão de que veremos uma série exageradamente afetada sobre a geração Z vai se dissipando. Ela desaparece de vez no quarto episódio, quando o romance de Jessica e Felix é testado num jantar na casa do chefe dela — com direito a uma participação especialíssima de Naomi Watts. A ligação deles se aprofunda e “Too much” ganha em verdade e enternece.
Quem assistiu a “Girls” vai reconhecer, de cara, a assinatura de Lena Dunham. Não é que “Girls” tenha envelhecido mal ou que “Too much” seja uma simples cópia. Mas são muitos os pontos em comum: são tramas centradas em personagens jovens, em relações complicadas e impulsionadas por hormônios. A produção da HBO lançada em 2012 é uma proto-“Too much”.
Recomendo ao leitor assistir a “Too much” e também conferir “Girls” (as seis temporadas estão na HBO Max).
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Ambas são inteligentes e têm elencos luminosos.