Voltar ao trabalho poucos dias depois de uma cirurgia sem que ninguém perceba o que aconteceu tornou-se uma possibilidade para parte de quem enfrenta a calvície. O transplante capilar sem raspagem, que preserva o comprimento dos cabelos, atrai atenção de pacientes que preferem manter o procedimento longe dos olhares de colegas, amigos e familiares.
Por muito tempo, a cabeça total ou parcialmente raspada foi uma espécie de sinal de quem havia passado por um transplante capilar. Nas abordagens convencionais, raspar facilita a extração e a implantação dos folículos, mas também deixa a mudança visível no período de recuperação. É justamente esse momento que a nova abordagem procura tornar mais discreto, permitindo que o paciente mantenha a mesma aparência no pós-operatório.
Para o dermatologista Dr. João Carlos Pereira, a principal diferença está na possibilidade de reduzir o impacto visual da cirurgia. “O grande diferencial da técnica sem raspagem é preservar o comprimento dos fios existentes na área doadora e implantar entre os fios existentes na região receptora. Isso pode ser importante para pacientes que precisam manter uma rotina profissional ou social sem que a cirurgia seja imediatamente perceptível”, explica.
O interesse acompanha um mercado em expansão. Dados da International Society of Hair Restoration Surgery mostram que o número de pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos de restauração capilar cresceu 150% entre 2010 e 2021. O levantamento mais recente da entidade aponta que 95% dos pacientes que fizeram o primeiro transplante em 2024 tinham entre 20 e 35 anos. Um dado, porém, chamou atenção nos últimos anos: o número de pessoas com mais de 60 anos aumentou em mais de 20%. O crescimento nessa faixa etária é explicado pela maior segurança dos transplantes e pelas melhores condições de saúde na terceira idade.
A discrição, no entanto, cobra seu preço na sala de cirurgia. Sem a raspagem, as unidades foliculares precisam ser retiradas uma a uma entre os fios existentes, o que eleva o grau de dificuldade e costuma prolongar o tempo do procedimento. “Não se trata simplesmente de deixar o cabelo comprido e realizar o mesmo procedimento. A ausência de raspagem aumenta a dificuldade do trabalho, porque é preciso acessar e retirar os folículos com cuidado, sem danificar as raízes, além de preservar os fios não retirados sem alterar o visual da região”, afirma o especialista Dr. João Pedro Pereira, da mesma equipe. A técnica exige atenção à angulação e à direção dos fios, microscópios oculares de alta resolução, instrumentos específicos, uma equipe treinada e uma estrutura cirúrgica hospitalar adequada. O método também não deve ser confundido com a técnica de fio longo, na qual os cabelos são retirados e implantados compridos. Nesse caso, os fios caem depois de cerca de 15 dias e o processo seguinte se assemelha ao da técnica sem raspar, razão pela qual a opção só se justifica em casos excepcionais.
A abordagem costuma ser indicada para correções localizadas da linha frontal, redução das entradas e da testa e para áreas limitadas que perderam densidade, como a região frontal ou a coroa. A escolha depende da extensão da área calva, da quantidade de fios disponíveis na área doadora e do grau e da distribuição da calvície. “Cada paciente precisa ser avaliado individualmente. A técnica sem raspar não é necessariamente a melhor opção para todos os casos, especialmente nos casos de calvícies extensas”, ressalta o Dr. João Carlos. Para os especialistas, a mudança reflete um novo perfil de quem procura o consultório: “Hoje, o paciente não busca apenas recuperar os cabelos. Ele também quer entender como o procedimento vai interferir na sua rotina, na sua imagem e no período de recuperação. Por isso, técnicas que priorizam uma recuperação visualmente mais discreta passaram a despertar maior interesse”. Ainda assim, a recomendação é que a decisão seja tomada após avaliação presencial, considerando a causa da queda, a qualidade dos fios e a capacidade da área doadora para definir a estratégia mais adequada a cada caso.
Transplante capilar sem raspar ganha espaço entre pacientes que buscam discrição
