O presidente Donald Trump emitiu uma ordem executiva nesta segunda (22) que estimula a construção de computador quântico funcional para descobertas científicas a partir de 2028, um objetivo ambicioso, considerando que todas as máquinas do tipo no mundo são apenas experimentos em laboratórios de empresas e universidades.
” Essa iniciativa nacional terá como objetivo o desenvolvimento de um computador quântico em uma escala que permita dar início à era das descobertas científicas baseadas na computação quântica, com a intenção de entregar pelo menos um desses computadores a uma instalação do Departamento de Energia e, na medida do possível, disponibilizá-lo à comunidade científica”, diz o trecho do documento.
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À Reuters, Michael Kratsios, diretor do escritório de política científica e tecnológica da Casa Branca, afirmou que isso é possível até 2028, embora o documento oficial cite apenas a criação de uma rede de sensores quânticos de última geração.
Por enquanto, a ordem determina prazos para que diferentes setores da administração indiquem como estão se alinhando a política de estímulo para tecnologias quânticas, mas não traz especificações técnicas — o documento direciona o Departamento de Energia a trabalhar com o setor privado para encontrar soluções. Em abril, a gestão do republicano anunciou que vai conceder subsídios de US$ 2 bilhões a nove empresas de computação quântica, incluindo participações acionárias do governo americano — a IBM vai receber metade do montante.
Caso consigo cumprir o objetivo, a Casa Branca pode superar as principais empresas de tecnologia do mundo, que não planejam computadores quânticos funcionais antes de 2029. A IBM espera ter apenas em 2029 um computador quântico funcional livre de erros — Google, Amazon e Microsoft não projetam datas embora todas estejam trabalhando em equipamentos do tipo.
Na computação quântica, as propriedades dos qubits são o resultado do comportamento coletivo de átomos, elétrons, fótons ou outras partículas subatômicas dentro de materiais supercondutores, que levam a estados da matéria que não existem classicamente. A interação das partículas com o meio ambiente, como variação de temperatura, vibrações, flutuações de energia e ação de micro-ondas, podem gerar erros, chamados de “ruídos”. Construir máquinas livre de erros é atualmente o grande desafio de cientistas e engenheiros.
Caso se tornem realidade, computadores quânticos podem alterar profundamente diversos setores, como pesquisa de materiais, medicina, logística e mercado financeiro. Isso acontece porque, na computação quântica, as informações são armazenadas e processadas por qubits, ou bits quânticos. Ao contrário da computação clássica de PCs e smartphones, cujo bit pode ser processado por 0 ou por 1, o qubit expressa o 0 e o 1 ao mesmo tempo por um fenômeno chamado superposição.
Em vez de analisar opções sequencialmente, algoritmos quânticos tiram vantagens das propriedades da mecânica quântica para observar diversos cenários de uma vez só — essa diferença na eficiência de resultados entre máquinas clássicas e quânticas é chamada de “vantagem quântica”.
Isso eleva o potencial para a realização de cálculos complexos, que hoje são impossíveis de serem realizados até pelos supercomputadores mais potentes do mundo.
Segundo o banco de investimentos Jefferies, o mercado quântico pode se tornar uma oportunidade de US$ 198 bilhões em 2040. Já a consultoria McKinsey, estima que quatro setores (indústria química, ciência, finanças e mobilidade) podem ter um acréscimo de US$ 2 trilhões até 2035 como resultado dessas tecnologias.
Segurança quântica
O movimento americano também é visto como uma resposta aos avanços da China no setor, que segundo especialistas, detém a dianteira na tecnologia. No 15º Plano Quinquenal da China (2026–2030), aprovado em março, a computação quântica aparece não apenas como prioridade de pesquisa, mas como prioridade industrial.
Embora não seja possível precisar o tamanho dos investimentos do país, a China estabeleceu no ano passado um fundo nacional de capital de risco de US$ 138 bilhões para tecnologias de fronteira, incluindo computação quântica, estruturado como parceria público-privada.
Outro temor dos americanos é que máquinas quânticas têm a capacidade de decodificar os algoritmos criptográficos usados atualmente no ambiente digital, como o RSA, o que poderia, por exemplo, expor dados confidenciais de governos e toda a segurança que envolve o sistema financeiro global.
Assim, o governo Trump assinou uma segunda ordem executiva nesta segunda que determina que parte dos sistemas fundamentais do governo americano sejam ajustados para a era da criptografia pós-quântica. A criptografia quântica permite que informações sejam transmitidas de forma segura, impossíveis de serem hackeadas até mesmo por um computador quântico.
“O advento de computadores quânticos em grande escala, especialmente nas mãos de adversários, representará uma ameaça significativa aos sistemas de segurança criptográfica amplamente utilizados. As atividades cibernéticas em andamento contra nossa nação também apresentam o risco de que adversários coletem informações dos Estados Unidos agora e as descriptografem posteriormente, quando os computadores quânticos em grande escala estiverem operacionais. À luz dessas ameaças, os Estados Unidos devem tomar medidas para fortalecer as proteções criptográficas dos dados confidenciais, da infraestrutura crítica e da economia digital do país”, diz o documento.
O documento determina que a transição deverá ser feita até 2031, acelerando a migração que ocorria de forma mais lenta na administração americana.

