A charge de Brendan Loper, publicada no site da revista New Yorker esta semana, mostra a porta-voz do governo Donald Trump, Karoline Leavitt, no que parece ser uma coletiva de imprensa. Aos repórteres, ela anuncia: “Com os ataques ao Irã, o presidente manda mensagem clara ao planeta. Assim que entendermos que mensagem é essa, vocês serão os primeiros a serem avisados.” O humor mirou na Casa Branca e acertou na mosca.
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Desde o vídeo publicado em suas redes sociais em 28 de fevereiro, em que anunciou as agressões a Teerã coordenadas com Israel, o republicano avançou e retrocedeu seguidas vezes sobre seus objetivos, a classificação dos atos militares como guerra — o que demandaria aprovação do Congresso — ou mera defesa com caráter preventivo, e sobre o que, afinal, seria considerado resultado vitorioso para os EUA no Irã.
Após ter se declarado “surpreso” com a extensão da reação iraniana e excluir o ambicioso fim do regime islâmico da lista oficial de tentos, Trump retornou à eliminação da capacidade do Irã de produzir armas nucleares, nove meses após os ataques de 2025 que, de acordo com ele mesmo, já teriam resultado justamente nisso. Na sexta-feira, em entrevista ao site Axios, afirmou que a exigência de rendição incondicional do Irã para cessar as hostilidades “não significa necessariamente algo formal, mas a constatação, por nós, da exaustão militar deles”.
A indefinição e o improviso, aponta sir Max Hastings, um dos mais respeitados historiadores militares do Reino Unido, são características definidoras do Trump 2.0, especialmente em seu deslocamento no tabuleiro geopolítico global. E por mais que as atenções estejam voltadas, com razão, para o poderio bélico americano e o aumento de vítimas fatais no Oriente Médio, as incongruências de Washington, argumenta, representam ameaça que ultrapassa os alvos militares diretos da maior potência do planeta.
— Estamos todos amedrontados, e com razão, com o nível de irresponsabilidade dos EUA, inclusive ao pedir que civis desarmados os ajudem, enfrentando a repressão brutal e ainda letal do regime nas ruas do Irã. Trump, o secretário de Estado, Marco Rubio, o da Defesa, Pete Hegseth, e o vice-presidente JD Vance, desprezam o robusto aparato diplomático americano e estão completamente perdidos. O deserto de inteligência em Washington resulta no vazio de estratégia após os ataques ao Irã e em delírios, entre eles o de se crer na Venezuela, após a captura de Nicolás Maduro, como modelo para a realidade persa. Não leram nada, não entenderam nada e, mais grave, não demonstram vontade de entender — afirma ao GLOBO o autor de “Vietnã: uma tragédia épica”, publicado no Brasil pela Intrínseca.
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Diferentemente da celebração quase unânime na direita americana após a captura de Maduro, o cenário nebuloso após a demonstração de força bélica ianque no Irã não foi criticado apenas pelo Partido Democrata. As idas e vindas sobre as próximas semanas no Irã irritaram tanto a militância isolacionista do Faça os Estados Unidos Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês), quanto políticos já enfronhados nas complexas estratégias locais para as eleições decisivas do Congresso, que ocorrem em oito meses e podem deixar a segunda metade do Trump 2.0 refém da oposição na Câmara e até mesmo no Senado. Artigo raro, defecções de congressistas da sigla se deram nas votações no Capitólio que buscaram, esta semana, sem sucesso, aumentar o peso do Legislativo nas próximas movimentações das Forças Armadas americanas no Irã.
Transformada em conflito regional, a agressão militar avança para sua segunda semana com o Oriente Médio em caos e o Irã em frangalhos, com mais de mil mortos, mas com o regime firme no poder. A solitária certeza para os americanos no momento é a registrada sem exceção nas pesquisas: a desaprovação da maioria dos eleitores à guerra. Divulgada na tarde de sexta-feira, a do Instituto Marista para as redes públicas NPR e PBS apontou 56% de narizes torcidos para o envolvimento dos EUA em conflito tão distante do país e 55% certos de que Teerã não representa uma ameaça tal qual o presidente argumentou para justificar os ataques.
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No Partido Democrata, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, nome forte para a sucessão de Trump em 2028, denunciou o que percebe ser o uso do aparato militar do país em uma aventura sem final claro, apenas para servir aos interesses de Israel.
Hastings concorda que o premier Benjamin Netanyahu é quem se movimentou melhor no teatro de guerra, com apoio popular para a eliminação do Irã, visto como ameaça à existência de Israel, às vésperas das eleições gerais no país. Ainda encontrou justificativa para nova invasão do Líbano e, “na prática, deu fôlego ao processo em curso de anexação da Cisjordânia e transformação de Gaza”. Trump, por outro lado, afirma, arrisca derrota substantiva em novembro, especialmente se aumentar o número de mortos americanos, hoje seis militares, e o preço da gasolina aumentar sensivelmente com uma guerra mais longa.
— Ele joga com a oposição de vencedores e perdedores, tão cara aos americanos. Daí também mantém seus objetivos no Irã movediços, para poder definir o que seria uma vitória. Aumentaram as possibilidades de o Irã, muito enfraquecido, sair do conflito comandado, talvez veladamente, pelos militares. E estes podem oferecer ao republicano algo que ele traduza internamente como derrota do adversário — afirma.
Os militares iranianos reagiram aos ataques americanos e israelenses, sobretudo após a eliminação do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, e da morte de outras lideranças, com a determinação de quem crê que o regime está em risco. A afirmação é do cientista político Javed Ali, professor da Universidade de Michigan que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional no primeiro governo Trump. Washington, argumenta, não pode se surpreender novamente, desta vez com o risco de ataques terroristas patrocinados por Teerã, se o conflito se estender por semanas.
— Embora o Irã não tenha capacidade de atos de terror dentro dos EUA, há possibilidade de ações contra cidadãos e interesses americanos fora do país. Na América do Sul, e não só na Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, os governos devem aumentar a vigilância nos próximos meses — afirma ao GLOBO.
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Hastings, por sua vez, teme que governos europeus, entre eles o do trabalhista Keir Starmer no Reino Unido, enfraquecido após as mais recentes revelações dos Arquivos Epstein, cedam à pressão americana e se tornem coadjuvantes de peso no conflito. Um dos antídotos à falta de estratégia clara para Washington, avalia, é reempacotar a guerra como do Ocidente, e não só de Israel e dos EUA, contra a ditadura iraniana:
— Será que a comunidade europeia e o Reino Unido não aprenderam nada com as invasões do Iraque e do Afeganistão? Como as coisas vão acontecendo em velocidade cada vez maior e o passado se esvai, é necessário repetir em alto e bom som que quem comanda os EUA hoje é um político instável e inconsequente, interessado no uso do poderio militar para colher frutos econômicos nos conflitos. Bater nessa tecla é o que podemos fazer de mais concreto agora para evitar a repetição em série do que observamos no Irã.

