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outubro 6, 2026
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Tubarão que pode viver mais de 400 anos vira alvo de disputa na Groenlândia; entenda

Por · outubro 6, 2026
Tubarão que pode viver mais de 400 anos vira alvo de disputa na Groenlândia; entenda


Na costa oeste da Groenlândia, pescadores e tubarões-da-Groenlândia disputam o mesmo território e, principalmente, os mesmos peixes. A espécie, uma das menos conhecidas do planeta e considerada o tubarão mais lento do mundo, costuma ficar presa nas linhas utilizadas na pesca de alabote-da-Groenlândia e bacalhau-do-Atlântico. Para pescadores, o animal representa prejuízo e perda de equipamentos. Para conservacionistas, uma eventual redução deliberada da população pode provocar danos difíceis de reverter.
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O conflito ganhou força neste ano, quando o município de Avannaata, cuja sede administrativa é Ilulissat, aprovou um plano para abater mil tubarões-da-Groenlândia. A proposta previa o pagamento de 300 coroas dinamarquesas por coração de animal capturado. O plano acabou abandonado depois que o governo questionou sua legalidade, mas a possibilidade de uma nova iniciativa permanece.
A preocupação dos pesquisadores está relacionada ao ciclo de vida incomum da espécie. Os tubarões-da-Groenlândia podem chegar a seis ou sete metros de comprimento e viver por mais de 400 anos. A maturidade sexual é estimada em cerca de 150 anos, o que faz com que a reposição da população seja extremamente lenta.
— Se alguém disser: “Vou abater alguns milhares de tubarões-da-Groenlândia”, isso é um desastre, na minha opinião — afirmou o professor Nick Dulvy, especialista em conservação marinha da Simon Fraser University, no Canadá.
A espécie ocupa uma extensa área de águas profundas e frias do Atlântico Norte e Ocidental. Como se alimenta de espécies que também são alvo da pesca, acaba frequentemente presa em equipamentos destinados à captura de alabote e bacalhau. Segundo estimativas citadas por especialistas, cerca de 3.500 tubarões-da-Groenlândia são capturados acidentalmente todos os anos, enquanto a população mundial continua em declínio.
O problema é conhecido há décadas. A pesca direcionada do tubarão para a extração de óleo do fígado deixou de ser praticada na década de 1960, mas a espécie ainda se recupera da exploração intensa registrada nos séculos XIX e XX. Em 1948, no auge dessa atividade, 58 mil animais foram desembarcados.
Para os pescadores de Ilulissat e de outras comunidades costeiras, entretanto, a presença dos tubarões representa um problema concreto. Henrik Jensen, pescador de 27 anos, afirma ter perdido cerca de 6 mil anzóis apenas neste ano. Em alguns dias, segundo ele, o prejuízo chega a 30 mil coroas dinamarquesas.
Os pescadores afirmam que os tubarões rompem as linhas utilizadas na captura de alabote, obrigando-os a comprar novos equipamentos. Timotheus Petersen, presidente da associação de pescadores de Kullorsuaq, diz que uma única linha custa 1.599 coroas.
A recompensa proposta pelo município, no entanto, não convence todos os pescadores. Jensen afirma que capturar os tubarões exige anzóis maiores e correntes mais resistentes, o que faz com que os 300 coroas oferecidos pelo município não sejam considerados suficientes para compensar o esforço.
Ambientalistas também questionam a eficácia da medida. A organização Oceans North Kalaallit Nunaat (ONKN) argumenta que um abate realizado no noroeste da Groenlândia não resolveria o problema porque os animais percorrem grandes distâncias. Alguns podem nadar até 2 mil quilômetros por ano e seriam rapidamente substituídos por tubarões provenientes de outras regiões.
Para Jenseeraq Poulsen, diretor da ONKN, o conflito está relacionado a uma pressão mais ampla sobre a atividade pesqueira. A indústria responde por cerca de um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) da Groenlândia e enfrenta aumento de custos e pressão sobre as cotas de pesca.
Apesar da alta no preço do alabote, o tamanho médio dos peixes vem diminuindo ano a ano, segundo o Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia. Jensen afirma que passou a colocar menos anzóis na água e a capturar menos peixes, atribuindo parte do problema à atuação de grandes arrastões em alto-mar.
Além dos tubarões, os pescadores apontam outro problema: as chamadas “linhas-fantasma”, equipamentos perdidos ou abandonados no mar que podem se prender a novas linhas, danificar equipamentos e continuar capturando animais.
A empresa Halibut Greenland, uma cooperativa de processamento de pescado de Ilulissat, financia ações para retirar equipamentos abandonados das águas da região. Para a ONKN, iniciativas desse tipo seriam mais eficazes do que um programa de abate.
Entre as alternativas discutidas estão também um sistema de compensação para pescadores que perdem equipamentos, testes com dispositivos acústicos para afastar os tubarões e novas regras para a utilização de equipamentos que reduzam a captura acidental. O governo da Groenlândia também avalia ampliar as ações para melhorar o registro das capturas incidentais.
Para os conservacionistas, a questão não se resume à presença dos tubarões nas áreas de pesca. A espécie, que sobreviveu a décadas de exploração e pode levar cerca de um século e meio para atingir a maturidade sexual, está entre os animais mais vulneráveis à sobrepesca.
— O tubarão é a versão visível e concreta de um problema cujas verdadeiras causas são estruturais — afirmou Poulsen.

Tubarão que pode viver mais de 400 anos vira alvo de disputa na Groenlândia; entenda