Alceu Valença não tem medo da chegada aos 80 — idade que, afirma, não o inspira a ter qualquer cuidado especial. É que, segundo o próprio, ele tem “8, 80 ou 800 anos”.
— Não estou ligando muito para isso porque o tempo em si não tem fim e não tem começo. Mesmo pensado ao avesso, não se pode mensurar — diz o artista que, no dia 1º de julho, se junta ao time dos oitentões da música brasileira (que já tem craques como Gilberto Gil, Paulinho da Viola e Milton Nascimento). — Nunca fui de comemorar o aniversário bebendo, mas fazer show é vitalidade, é vitamina A de alegria.
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As comemorações começam neste sábado, aqui no Rio, cidade onde mora desde o começo dos anos 1970 — no bairro do Leblon, o mesmo daquele “certo bar” da “Tesoura do desejo”. No palco da Farmasi Arena, na Barra, o cantor e compositor pernambucano vai estrear a turnê “Alceu Valença — 80 girassóis”. A série de shows segue por mais nove cidades brasileiras até o final de junho, quando termina, em Belo Horizonte.
Quem deu a ideia da turnê, conta Alceu, foi sua mulher, a advogada Yanê Montenegro, com quem é casado há mais de 20 anos — juntos, eles são pais de Rafael, de 24 anos. A série de shows tem cenografia assinada por Zé Carratu, com direção artística de Rafael Todeschini. Nos palcos, um girassol gigante vai funcionar como eixo para as projeções de obras de artistas visuais pernambucanos que dialogam com as músicas — das xilogravuras de J. Borges ao universo naïf de Edmar Fernandes. Os figurinos de Alceu e da banda foram criados pela estilista Isabela Capeto.
Mas e para montar o repertório? Com dezenas de hits que atravessam gerações e quase 300 composições registradas no Ecad, foi o próprio Alceu o responsável por organizar o setlist da nova turnê — que vai das precursoras “Espelho cristalino” e “Agalopado”, ambas do álbum de 1977, às mais conhecidas “Girassol” e “Anunciação”, e busca refletir a pluralidade da sua extensa obra.
O bandolim do avô e o violino do tio em São Bento do Una, no sertão pernambucano, as origens portuguesas, o baião, o frevo, a viola, o rock, o forró, as cidades de Olinda e do Rio de Janeiro, a Praia de Boa Viagem, a manga-rosa, o carnaval, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro… tudo isso está nos “80 girassóis” de Alceu — direta ou indiretamente.
— Tudo o que ouvi e vivenciei está no HD da minha memória, mas processo isso do meu jeito. Minha música é indefinível. Mas, se for para definir, sou música brasileira de todos os tempos e de qualquer estado. Eu reinventei muita coisa — afirma Alceu, que, no último sábado, fez uma participação surpresa no show da cantora francesa Zaz, com quem regravou “La belle de jour”, no Vivo Rio.
Uma das figuras essenciais desse jardim pernambucano todo voltado para o sol é Geraldo Azevedo, conterrâneo que Alceu considera como um irmão. Os dois começaram a carreira praticamente juntos, no final dos anos 1960, quando se mudaram para Recife (Geraldo é natural de Petrolina). Em 1972, lançaram, em conjunto, o disco autoral “Quadrafônico”. Anos depois, em 1996, com carreiras já consagradas, os dois se juntaram a Zé Ramalho e Elba Ramalho para formar “O grande encontro”, com hits dos quatro.
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— Esse jeito mais extrovertido do Alceu me influenciou muito. Eu sempre fui mais quieto, mais introvertido no palco, e ver a forma como ele se entrega e se comunica com o público me ensinou bastante ao longo da vida — afirma Geraldo, que também se refere ao amigo como um “irmão”. — Tenho por ele um carinho enorme e uma grande admiração por esse artista tão criativo, que sempre levou a força do Nordeste para o mundo.
Nos últimos anos, além dos shows solo, os dois também têm rodado por grandes festivais no Brasil, com Elba, com um “grande encontro” 2.0. Das plateias, pessoas de diferentes gerações cantam com eles a plenos pulmões.
— Isso aumentou profundamente depois da internet. Os virais que aconteceram na minha carreira são inexplicáveis — diz, acrescentando que o fácil acesso a músicas e vídeos online também acabou aproximando as crianças da sua obra. — Eu gosto muito delas, e elas também gostam muito de mim. Andando aqui pelo Leblon, você tem que ver quantas vezes sou parado por mães com crianças que cantam alguma música minha.
Quando ele mesmo era criança, Alceu ouviu da mãe, Dona Lourdes, que levar alegria para o mundo era sua missão — o que, com o passar dos anos, acabou se confirmando e se transformando numa grande marca dele, dentro e fora dos palcos, com sua risada alta, seu jeito brincalhão e sua personalidade solar. Mas e a tristeza? Há espaço para ela? Para provar que sim, ele cita as músicas “Solidão” e “Tesoura do desejo”.
— O mundo é feito de alegria e tristeza, mas costumo dizer que sempre desejo para todos nós 99,999999% de alegria e 0,000001% de tristeza — diz. — Não existe tristeza sem alegria e nem alegria em tristeza. Gostou? Eu sou filósofo (risos).
- Agalopado
- Pagode Russo
- Embolada do tempo
- Cavalo de Pau
- Como dois animais
- Estação da Luz
- Girassol
- Flor de Tangerina
- Sabiá
- Ciranda da Rosa Vermelha
- Elefante de Olinda
- Bicho Maluco Beleza
- Espelho Cristalino
- Coração Bobo
- Cabelo no Pente
- Pelas ruas que Andei
- Tesoura do Desejo
- Solidão
- Taxi Lunar
- La Belle de Jour
- Anunciação
- Tropicana
- Onde: Farmasi Arena. Av. Embaixador Abelardo Bueno 3.401, Barra
- Quando: Sábado (14), a partir das 19h (show às 21h)
- Quanto: De R$ 110 (2º lote, arquibancada nível 3) a R$ 240 (2º lote, área premium Banco do Brasil), com 1kg de alimento. Assinante O GLOBO tem desconto
- Classificação: 18 anos

