Das relações de trabalho em “Trabalhar cansa” (2011) às fábulas de lobisomem em “As boas maneiras” (2017), o cinema do diretor paulista Marco Dutra tem em comum o uso de tramas de terror e suspense, muitas com elementos sobrenaturais, para falar de temas e medos do nosso dia a dia. Em seu mais novo projeto solo, Dutra, que tem longa parceria com a diretora Juliana Rojas, mergulha numa história de fim do mundo. Adaptação de romance homônimo de Ana Paula Maia, “Enterre seus mortos” acompanha Edgar Wilson (Selton Mello), um homem que trabalha recolhendo animais mortos nas estradas da zona rural da fictícia cidade de Abalurdes, num mundo que começa a dar sinais de que está perto do fim. Em meio ao clima apocalíptico, ele ainda navega entre os relacionamentos com a namorada Nete (Marjorie Estiano) e o amigo Tomás (Danilo Grangheia), um padre excomungado.
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— A Ana cria uma localidade que você não sabe bem onde é no centro do Brasil e povoado por essas pessoas incríveis. Me fascinou a ideia de navegar por este universo dela — diz Dutra, de 45 anos. — Essa proximidade com o fim do mundo, essa sensação de que as coisas vão acabar e não sabemos bem como, é fascinante. Achei a abordagem dela muito particular, com elementos fantásticos e bíblicos.
Um filme Original Globoplay, “Enterre seus mortos” chegou até Dutra por iniciativa do produtor Rodrigo Teixeira, que havia comprado os direitos de adaptação do livro. Os dois já haviam trabalhado lado a lado em “Quando eu era vivo” (2014) e “O silêncio do céu” (2016), e se preparavam para dar início à nova parceria em 2020, quando veio a pandemia, que interrompeu o projeto e acabou por influenciar no resultado final.
— Sempre defendi que o terror, a fantasia, a ficção científica não tiram o filme da realidade, eles oferecem uma liberdade interpretativa e imaginativa de realidade. Nos melhores casos, e é o que me dá mais prazer, o cinema de gênero ajuda a decifrar certos mistérios da vida real. O assunto do apocalipse está presente desde o início da Humanidade. Não é algo novo, mas a renovação constante deste tema tem a ver com nossas ansiedades e medos, e a nossa incapacidade de impedir pequenos apocalipses diários — continua o diretor — É um filme atravessado por uma pandemia e reflexo daquilo que vivemos, mas também dos pequenos apocalipses que vemos em Gaza, no Sudão ou nas nossas próprias cidades e bairros.
Selton gosta deste sentimento distópico que pode falar de um futuro, mas também de hoje, e considera o longa como aquela “boa obra de arte que melhora a cada vez que você vê”.
Edgar Wilson é o protagonista da chamada “Trilogia do fim”, de Ana Paula Maia, formada por “Enterre seus mortos” (2018), “De cada quinhentos uma alma” (2021) e “Búfalos selvagens” (2024) — todos lançados pela Companhia das Letras. Ele também está presente nos livros “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” (2009), “Carvão animal” (2011) e ”De gados e homens” (2013) — que foram lançados pela Editora Record.
Apesar de fã de toda a franquia literária, Dutra conta que pensou o filme como uma obra isolada, que pode surpreender até mesmo quem conhece a saga do personagem na literatura. Mesmo assim, conta que ele e Selton ficaram tão apaixonados pelo universo criado pela escritora que não descartaria um retorno para novas histórias.
— Diferentemente da Ana, nunca vimos o projeto como uma possível trilogia, mas nos empolgamos tanto durante as filmagens que falávamos, sim, sobre possibilidades de sequência — lembra o cineasta. — O encontro com o Selton foi muito especial. Sempre nos cruzávamos em festivais e falávamos em trabalhar juntos. Ele leu o roteiro e gostou muito, mas não sabia se queria fazer algo tão sombrio à época. Ele pensava em dirigir, tinha outros projetos. Cheguei a entender que ele não iria fazer, mas, em questão de dias após o primeiro convite, ele me ligou e disse: “Sinto que já era, a despeito do que eu possa ter desejado e planejado, fui atravessado por esse personagem e agora vamos ter que fazer”.
Além da estreia num novo gênero, Selton viu no personagem a oportunidade de assumir algo diferente em sua trajetória, um papel que remete a faroestes que admirava como cinéfilo, especialmente os dirigidos por Sergio Leone e estrelados por Clint Eastwood.
— Edgar Wilson é um dos personagens mais fascinantes que pude viver. “Enterre seus mortos” é um faroeste do fim do mundo, delirante e poético — diz Selton. — Acabei me apaixonando pelo Edgar Wilson e por essa loucura que eu não entendia totalmente. Ele é da linhagem de personagens de poucas palavras, meio lobo solitário. Os atores geralmente gostam de falar, pedem por mais falas, mas neste filme eu tinha muito prazer em cortar falas.
Selton só não gostou de uma coisa em sua estreia no gênero do terror: trabalhar à noite.
— Foi uma experiência muito boa fazer o filme, tudo muito novo para mim. A única coisa de que não gostei foram as (filmagens) noturnas. Não dá, noturna é uma roubada. E filme de terror é só noturna. Você trabalha das 17h às 5h da manhã e tenta dormir durante o dia. Mas não dorme de verdade, porque as pessoas fazem barulho, tem obra. A vida fica muito louca — diverte-se o ator.
Em “Enterre seus mortos”, Selton Mello reencontra Marjorie Estiano, com quem havia trabalhado na minissérie “Ligações perigosas” (2016). A atriz também já vinha de um encontro com Marco Dutra, em “As boas maneiras” (2017). No elenco também estão presentes Betty Faria, Maria Manoella, Magali Biff e Gilda Nomacce.
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Colaboradora frequente do diretor, atriz dos filmes “Trabalhar cansa” (2011), “Quando eu era vivo” (2014) e “Todos os mortos” (2020), além da série “Noturnos”, Gilda, inclusive, ganhou destaque na divulgação pré-lançamento do longa ao involuntariamente se tornar um meme nas redes sociais. Em participação no JMTV 1ª edição, da TV Mirante, afiliada da Globo no Maranhão, para divulgar “Enterre seus mortos” na programação do festival Maranhão na Tela, em setembro, ela fez uma performance artística de terror que viralizou entre os espectadores, atingindo pessoas que não conheciam o filme ou o trabalho da atriz.
— Foi muito louco. E muito bom. Trouxe uma visibilidade para o filme e para a Gilda, que merece muito. Ela foi no programa e avisou à apresentadora que faria uma performance, mas foi muito espontâneo, não foi calculado. Foi algo bem Gilda (risos) — diz Dutra. — Ela ficou muito feliz com este momento espontâneo de atenção, foi muito legal para a carreira dela.
Em suas redes sociais, Selton fez questão de valorizar o trabalho da atriz além do meme. “Gilda Nomacce estava divulgando nosso filme. Ela é musa do cinema independente brasileiro, uma baita atriz, espero que mais gente conheça seu trabalho a partir de agora. Muitas caras parecidas nas escalações sempre, que Gilda brilhe muito porque merece”, escreveu o ator.

