Os japoneses têm uma palavra específica para o ato de mergulhar na natureza e admirar a mudança das cores das folhas antes da chegada do inverno: momijigari. “Momiji” significa bordo vermelho, mas vale para qualquer espécie que sofra a mudança; “gari” significa caça — em termos metafóricos, claro, mas se você começar a consultar as previsões e os prognósticos para saber quais os melhores dias para visitar, não deixa de ser a mesma coisa.
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Existem mais de mil variedades de bordo japonês, que produzem tons vermelhos, laranjas, marrons e roxos flamejantes. Normalmente as folhas são menores que as das variedades norte-americanas, do tamanho da mão de um bebê. Têm pontas tingidas de vermelho ou amarelo, e parecem ter sido pintadas com tinta laranja.
Muitos turistas vão a Kyoto para ver a paisagem colorida de outono, mas uma boa alternativa à viagem de três horas no Tokaido Shinkansen, ou trem-bala, que sai de Tóquio é fazer um desvio de três dias pelas montanhas, onde é possível fugir do ritmo urbano e admirar a história bem preservada e as vertentes espirituais do Japão.
De quebra, pode caminhar entre as folhas de outono e ver cachoeiras, descobrir especialidades locais como o macarrão soba de Nagano, visitar cervejarias de saquê de 300 anos de idade e cruzar com macacos-japoneses, ou macacos da neve, como são frequentemente chamados. O destaque é a estada imperdível em uma pousada tradicional de águas termais, ou onsen ryokan, que inclui um jantar kaiseki de vários tempos, um café da manhã igualmente elaborado e até o uso de roupas tradicionais.
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O primeiro dia é uma transição da tecnologia moderna de Tóquio para o ritmo mais lento de uma cidade montanhosa, em preparo para dois dias de caminhada. Reserve um lugar no trem-bala de Tóquio para Nagano para bem cedo para depois trocar pela versão local que segue para Matsumoto, cidade-castelo nos Alpes do norte do Japão (são duas horas e meia no total).
Deixe a mala na estação (ou leve-a para o hotel) e siga a pé para o Museu de Arte (ingresso a 700 ienes, ou cerca de R$ 25), repleto de exposições externas e internas das bolinhas e das tulipas coloridas gigantescas de Yayoi Kusama, filha da terra.
Continue até o Castelo de Matsumoto (700 ienes), um dos mais antigos ainda existentes no Japão, construído em 1594 e apelidado de “Castelo dos Corvos” por causa do imponente exterior preto de seus cinco andares, acentuado pelos frontões pontiagudos. Dependendo do horário da visita (à noitinha), da torre é possível ver os bordos do terreno se sobrepondo às montanhas.
No jantar, prove o tradicional macarrão soba de trigo sarraceno de Nagano, de sabor inconfundível graças à água pura da montanha e ao solo rico em cinzas vulcânicas, servido em um prato de trama de bambu acompanhado de molho. Você pode inclusive aprender a preparar a massa na Takagi (7.200 ienes por dois lotes de soba, com o jantar também disponível para compra), que fabrica há 135 anos. Se preferir, vá a um dos restaurantes autênticos nas proximidades, como o Kobayashi Soba (três mil ienes).
Do Onsen Hotel Omoto (diárias dos quartos duplos a partir de 22 mil ienes, incluindo café da manhã) dá para ir de táxi até o cume de uma área geotérmica chamada Asama Onsen, com vista para Matsumoto. Hospede-se ali se quiser apreciar a vista das montanhas que cercam a cidade dos banhos públicos da cobertura. O estabelecimento é uma mistura de um hotel japonês moderno com características ocidentais e um ryokan tradicional, que poderia ser modernizado. Há opções de cama ocidental e futon japonês com telas shoji e um café da manhã tipo bentô servido no quarto.
Segundo dia: trilhas para caminhadas e águas termais
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Kamikochi, com diversos hotéis onsen, cafés e um centro de visitantes, é a porta de entrada para o Parque Nacional Chubu-Sangaku e fica a hora e meia de ônibus e trem de Matsumoto. Os trilhos atravessam as montanhas ao longo do Rio Azusa, dando vista para as cores espetaculares do parque.
Kamikochi é um local de caminhada popular entre os japoneses que querem apreciar as folhas de outono, com várias opções para os mais aventureiros. Ali o predomínio é do lariço-dourado, fazendo um contraste vivo com o azul-claro da água da montanha. Faça uma parada no salão de chá Greenpot do Nishi-ito-ya Mountain Lodge para comprar bolinhos artesanais de trigo sarraceno (oyaki) recheados com alho-poró assado (cem ienes) e torta de maçã (500 ienes) como lanche para o passeio.
No centro de Kamikochi fica a ponte Kappa-bashi. A partir dela, há duas opções de caminhadas curtas: a primeira em direção à Lagoa Taisho, quase toda pavimentada; a outra, em direção à Lagoa Myojin, mais rústica e cercada por um pequeno santuário e cafeterias. Para os mais ousados, há uma caminhada de três horas até o cume do Monte Okuhotaka, um dos principais picos do parque. Perto do cume fica a Cabana Dakesawa, onde pode passar a noite — mas só se tiver feito reserva com antecedência (diárias a 15 mil ienes por pessoa, incluindo jantar e café da manhã).
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Muitos caminhantes se deparam com os macacos que vivem soltos ali em Nagano e desenvolveram uma predileção pelos onsens. É meio chocante, sim, mas menos preocupante do que encontrar os ursos negros (raros). Os sinos usados para afugentá-los são vendidos em grandes quantidades e seu tilintar faz parte da trilha sonora das caminhadas na região.
Okuhida Onsengo Fukuji é um vilarejo rústico nas montanhas que parece ter saído das páginas dos livros de história. A apenas dois trajetos curtos de ônibus a partir de Kamikochi, é iluminado à noite pelo caloroso brilho laranja das lanternas espalhadas dentro e ao redor do Ryokan Yumoto Choza (diária a 80 mil ienes por uma cama de casal com jantar e café da manhã). Na entrada o destaque é a lareira central, sempre acesa, com peles de urso espalhadas para os hóspedes se sentarem.
Depois de vestir seu yukata (roupa de descanso em casa), pegue a toalha e a cesta e siga pelo caminho de pedra em direção ao onsen ao ar livre para um banho antes do jantar, fazendo uma parada na cabana de madeira para desfrutar um bule de chá escaldante e o som suave da água fluindo para o reservatório de pedra. Há piscinas de rochas fumegantes e ofurôs divididos por gênero (para banho de nudismo). Alguns são privativos.
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O ponto alto da estada em um ryokan é o elaborado jantar kaiseki, composto por uma sequência de sete a 14 pratos da alta gastronomia japonesa com foco na sazonalidade, estilo e frescor — e, às vezes, faz referências à poesia clássica ou à história. O Yumoto Choza tem salas de jantar privativas para todos os hóspedes, com mesas suspensas e fogueiras.
Depois da refeição você pode retornar ao onsen externo para um banho quente, respirando o ar da montanha e observando o vapor subir. Deite-se sobre as pedras, nu, e admire a lua ao som da água da nascente.
Terceiro dia: cachoeiras e ruas da era Edo
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Dê uma volta pelo pequeno jardim ao lado do quarto usando as sandálias de madeira deixadas à porta. Em seguida, vá tomar o café da manhã, um pouco mais elaborado do que o jantar, mas com as mesmas texturas. (Não deixe de provar a ameixa azeda.) Na frente do ryokan há um ônibus que faz a conexão com o vilarejo de Hirayu Onsen e depois com a cidade de Hida Takayama.
Dá para passar vários dias explorando a cidade que já foi a sede do governo da província e centro reconhecido de carpintaria no século XVII. Nas ruas da era Edo, o que se vê são fachadas conservadas, compostas basicamente de tábuas, telas e portas de madeira escura. Cada uma tem personalidade própria, mas estão em harmonia umas com as outras e com as lojas, qualidade essencial básica da cultura japonesa.
Depois de recarregar as energias com as guloseimas da combini, ou loja de conveniência, (experimente o onigiri, que equivale a um sanduíche de arroz e algas marinhas), pegue o trem de duas paradas de Takayama para Kokufu e ali fazer uma caminhada no Parque Utsue 48 Waterfalls (cem ienes). Saiba que meio-dia é o horário ideal para ver os bordos sob o sol, em contraste com as cachoeiras, que vão aumentando de tamanho à medida que vai subindo os degraus de pedra rumo ao pico da montanha.
De volta a Hida Takayama, siga para o Parque Kitayama para apreciar a vista do topo da colina e comer o tradicional bolo de maçã (600 ienes) na lanchonete Ichii. Na descida, pare no Museu Sakurayama Nikkokan (820 ienes), dedicado aos carros alegóricos do desfile do festival de Takayama, realizado em outubro, famosos pela complexidade, iluminados por lanternas e pintados em vermelho e dourado.
Se tiver tempo, visite Hida no Sato (700 ienes), vilarejo rural da era Edo e museu ao ar livre, com exposições dedicadas ao artesanato local, (como a produção de seda), a cerca de meia hora de caminhada do centro. O estilo histórico das casas é bem característico, com telhados inclinados de palha (gassho-zukuri), cujo nome se deve ao fato de se assemelharem a duas mãos postas em oração. Uma curiosidade: as estruturas foram transferidas da vizinha Shirakawa-go, dando à região o status de Patrimônio da Humanidade da Unesco.
Outra opção é fazer uma parada no caminho para a estação ferroviária para saborear a combinação típica de Takayama, da carne bovina Hida — tipo de carne Wagyu de alta qualidade produzida na província de Gifu — com saquê. O Hida Beef Baya é um restaurante pequeno, sem site, onde você pode pedir a carne crua, no estilo aburi (grelhada com maçarico) ou no estilo yakitori (grelhada no espeto). Em seguida, pare em uma das fábricas de saquê que vêm aperfeiçoando a bebida há 300 anos, usando para isso a água de poço que desce da montanha e arroz polido de alta qualidade. Fundada em 1695, a Niki Sake Brewery é composta de grossas vigas de madeira abobadadas, ainda tem o poço original e é adornada com um sugidama (bola de folhas de cedro) tradicional (degustação a cem ienes).
Pegue o trem noturno para Nagoya, onde faz a conexão para o trem-bala rumo a Kyoto (três horas no total), aquecido pelo saquê e levando uma folha de bordo no bolso de trás.