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Os clichês nem sempre servem para desvalorizar uma história. Quando bem aplicados, eles podem até provocar o efeito inverso. Fiquei pensando muito nisso depois de assistir a “Unfamiliar”, produção alemã que chegou à Netflix.
A série repete os esquemas já vistos nas mais famosas aventuras de espionagem. Ainda assim, suas guinadas fazem o espectador prender a respiração. Pense num chavão. Todos eles estão na trama: identidades duplas, documentação falsa, segredos do passado, personagens de moral elástica, vilões implacáveis, perseguições pelas ruas de Berlim, tiros — alguns que acertam e outros que só pegam de raspão, enganando o público —, e por aí vai. O idioma predominante é o alemão, mas também se ouvem diálogos em russo (lembrando que grande parte das séries de espionagem que se prezam ecoa algum sotaque do Leste europeu). Todo esse caldo ajuda a transportar o espectador para o universo da narrativa.
Não é uma criação do mestre John Le Carré, mas os roteiristas devem ter devorado a obra dele. São seis episódios. Recomendo.
Meret (Susanne Wolff) e
Netflix
Os protagonistas, Meret (Susanne Wolff) e Simon (Felix Kramer), são casados há décadas e pais exemplares de uma adolescente, Nina (Maja Bons). A família leva uma vida burguesa e aparentemente banal. Ele trabalha como chef num restaurante. Essa existência plácida, entretanto, é pura fachada. Meret e Simon são ex-agentes do BND (a inteligência alemã). Deixaram o trabalho de campo depois de uma operação complexa e sangrenta ocorrida na Bielorrúsia 16 anos antes. Todos os registros oficiais dão conta de que eles estão mortos. Na prática, sob falsas identidades, administram um esconderijo secreto em Berlim conhecido como The Nest (o ninho). O lugar, equipado com câmeras e muita tecnologia, serve para receber com bastante conforto pessoas que precisam desaparecer do mapa. Um dia, eles são localizados por inimigos do passado. Esse revés abala a família de forma profunda. O casamento balança. As vidas do casal e da filha — que não sabe nada sobre a verdadeira atividade dos pais — passam a correr perigo.
Entre os antagonistas estão um agente russo da GRU, Josef Koleev (Samuel Finzi), e a mulher dele, Vera (Genija Rykova). Filha de um oligarca, ela é nomeada embaixadora na Alemanha. Acompanhamos também as investigações que se desenrolam nos dias atuais dentro do BND, levadas por uma jovem agente idealista.
Maja Bons/Nina em “Unfamiliar”
Netflix
“Unfamiliar” de vez em quando exagera nas capacidades de Meret e Simon. Eles conseguem o impossível: escapam de todas as perseguições de carro, invadem qualquer banco de dados, mesmo os hospitalares, e sabem como enganar até a segurança de um palácio no Marrocos. Há furos, verdade, mas a aventura convence e captura a atenção até o fim. A produção tem locações bem escolhidas, o elenco, no geral, é bom e o roteiro funciona.
A série vem fazendo sucesso no mundo inteiro e dá para entender as razões.
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