A mineradora Vale ameaçou processar, inclusive “no âmbito criminal”, o advogado Marcelo Gasparino, ex-membro do Conselho de Administração da companhia, em notificação extrajudicial entregue na última sexta-feira, conforme comunicado ao mercado divulgado na noite do mesmo dia.
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A empresa acusa o ex-conselheiro de vazar informações sigilosas e, depois, de publicar relatos inverídicos sobre a disputa deflagrada em junho, quando a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (BB), uma das principais acionistas da Vale, pediu a destituição do então presidente do Conselho, Daniel Stieler.
Gasparino era vice-presidente do Conselho da mineradora até o fim de julho. Quando a Previ pediu a saída de Stieler, o advogado foi um dos que se opuseram ao movimento nas discussões do colegiado sobre o tema.
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Entre as reuniões do Conselho e a assembleia extraordinária de acionistas (AGE) que deliberou pela saída de Stieler, em 22 de julho, Gasparino teve seu pedido de destituição aprovado pelo próprio colegiado. Segundo a Vale, porque ex-conselheiro teria vazado informações sigilosas.
Em 27 de julho, antes de nova AGE deliberar sobre sua destituição, Gasparino renunciou ao cargo de membro do Conselho. E passou a fazer uma série de publicações, em redes sociais como o LinkedIn, sobre toda a disputa na Vale.
Vale reitera que afastamento foi decisão técnica
No comunicado de sexta-feira, a Vale “reitera que todas as decisões relativas a tais fatos foram tomadas de forma diligente e técnica, com base nos resultados da apuração conduzida por escritório jurídico externo, e em estrita observância às políticas e normas internas da companhia”.
A notificação extrajudicial entregue a Gasparino diz que “a Vale tomou conhecimento de reiteradas manifestações públicas” dele que “distorcem a realidade em relação a fatos recentemente vivenciados no âmbito da companhia e vêm gerando danos à reputação, imagem institucional e honra da Vale e de seus administradores e colaboradores”.
Por isso, segundo a notificação divulgada junto do comunicado, “a Vale buscará a sua responsabilização (de Gasparino), não só na esfera cível, mas notadamente no âmbito criminal a partir da adequação de tais comportamentos aos tipos penais descritos nos crimes contra a honra, inviolabilidade dos segredos, mercado de capitais, e sistema financeiro nacional”.
Além disso, o documento notifica Gasparino para que “cesse imediatamente a veiculação, por qualquer meio, modo ou veículo ou em qualquer fórum público, de manifestações no mesmo sentido ou congêneres, abstendo-se de reiterá-las ou de promover sua divulgação por terceiros”.
Procurado, Gasparino não quis se manifestar. A Vale também não respondeu questionamentos adicionais sobre as informações do comunicado de sexta-feira.
Em publicações, críticas ao processo de afastamento
Em algumas das publicações do ex-conselheiro da Vale nas redes sociais, há críticas à condução de todo o processo, inclusive às apurações que teriam identificado vazamentos de informações de sua parte, alegando, por exemplo, falta de espaço para sua defesa.
A Vale rebate a acusação. “Ao longo do processo de apuração, Marcelo Gasparino teve diferentes oportunidades para se manifestar à equipe responsável pela apuração e aos demais membros do CA, inclusive por ocasião da reunião em que a aplicação da sanção foi deliberada. Optou, no entanto, por não fazê-lo”, diz o comunicado de sexta.
A posição de Gasparino contra o movimento da Previ de destituir Stieler da presidência do Conselho acabou trazendo à tona, novamente, acusações de conflitos de interesse e tentativas de interferência do governo federal na gestão da companhia — o Palácio do Planalto tem influência na indicação da direção do fundo de pensão do BB.
As disputas ferveram no processo de sucessão do cargo de CEO da mineradora, entre a parte final do mandato de Eduardo Bartolomeo, nos últimos meses de 2023, e a indicação, para substituí-lo, de Gustavo Pimenta, que tomou posse em outubro de 2024.
Na ocasião, o governo teria se movimentado pela saída de Bartolomeo. O Planalto queria a indicação do ex-ministro Guido Mantega para o cargo, mas a empreitada não foi adiante, em parte por causa da limitação da influência da União na companhia, desde que a Vale se tornou uma corporation, empresa sem controlador definido.
Ao se contrapor à saída de Stieler do Conselho, Gasparino disparou. Após a reunião do colegiado que acolheu, mas não endossou, o movimento da Previ em relação ao ex-presidente do órgão, um voto ampliado de Gasparino, maior do que o registrado em ata, afirmou que Stieler informou os demais membros do colegiado sobre “fatos graves de que tomou conhecimento nos últimos anos”, como revelou o colunista do GLOBO Lauro Jardim.
A revelação do trecho do voto de Gasparino gerou indisposição, assim como o caso da avaliação, por alguns membros do conselho, de um possível negócio com a J&F, holding dos irmãos Batista, donos da JBS, também revelado pelo colunista.
Postagens 2 meses depois
Em postagens nos últimos meses, Gasparino voltou aos temas. “Hoje, 30/09/2026, completam-se dois meses da minha última Reunião do Conselho de Administração da Vale, realizada em 30/07/2026. No prazo regimental, solicitei a inclusão de dois assuntos na pauta”, escreveu o advogado no LinkedIn.
Os dois assuntos citados por ele são uma “atualização sobre as oito apurações/investigações abertas a partir de 25/06/2026” e a “manifestação do então LID (conselheiro que faz a ligação com acionistas e investidores), Ollie Oliveira, sobre análise estratégica por ele elaborada a respeito de ativo minerário em Corumbá”, uma referência ao negócio de interesse dos irmãos Batista.
Junto da postagem, Gasparino publicou uma carta endereçada ao Conselho, datada de 30 de julho, em que detalha sua versão dos fatos envolvendo sua saída do colegiado da Vale.
Processos na CVM
Também na sexta-feira, minutos antes da divulgação do comunicado da Vale, o site O Bastidor informou que há indícios, em e-mails, de que o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, pressionou pela destituição de Stieler, como já havia revelado, em setembro, o colunista do GLOBO Lauro Jardim.
Segundo a nota do colunista, os indícios estão em manifestação de Gasparino num processo administrativo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Há dois processos administrativos na CVM com a Vale como interessada que foram abertos em julho passado, ambos sobre “notícias, fatos relevantes e comunicados”, informa o site do órgão regulador do mercado.
Vale notifica ex-conselheiro por vazamento e publicações e ameaça processá-lo até em 'âmbito criminal'
