Na Dias Ferreira, rua badalada do Leblon conhecida pela concentração de bares e pelo movimento jovem, os cigarros eletrônicos — os chamados vapes, ou pods — são vendidos abertamente, apesar de proibidos no Brasil desde 2009 pela Anvisa. Coloridos, com opção de sabores frutados e doces, eles atraem consumidores, mas oferecem riscos à saúde tão graves quanto o tabaco tradicional, alertam pneumologistas. Na última quinta-feira, mais de cem unidades e diversos frascos de essências foram apreendidos ali mesmo, durante a Operação Evali. Mesmo assim, o GLOBO flagrou, um dia depois, ambulantes vendendo o produto livremente no local.
Ação deflagrada pela PM, Sedcon e Procon apreende mais de 100 cigarros eletrônicos
A ação foi realizada pela Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor (Sedcon), pelo Procon-RJ e pela Polícia Militar, em um ponto bastante movimentado da região. O material apreendido será encaminhado à Receita Federal.
No Brasil, a comercialização de cigarros eletrônicos é proibida desde 2009. Apesar disso, os dispositivos são facilmente encontrados em lojas físicas e online.
Um dia após a apressão, na rua Dias Ferreira, em frente ao Boteco Belmonte, ambulantes carregavam os vapes em bandejas, ao lado de balas e outros aperitivos vendidos nas ruas. Chegavam a oferecê-los em meio a bares, em voz alta, por cerca de R$ 100, sem demonstrar receio de fiscalização.
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Segundo especialistas, o uso de vapes representa sérios riscos à saúde cardiovascular, pulmonar e bucal, além de apresentar alto potencial viciante. Mesmo sem nicotina, os dispositivos liberam substâncias tóxicas que irritam o sistema respiratório, alteram a produção de saliva e podem favorecer o desenvolvimento de doenças periodontais. Há também evidências de danos ao DNA, que podem contribuir para o surgimento de câncer.
O Secretário de Estado de Defesa do Consumidor, Gutemberg Fonseca, destacou a importância da colaboração da população:
— As denúncias são fundamentais para podermos localizar esses pontos e proteger a população, principalmente os jovens, de práticas abusivas e nocivas. Esta foi somente a 1ª fase da Operação Evali. Outros locais e alvos já estão sendo monitorados pela nossa inteligência — afirmou.
O cigarro eletrônico, conhecido como vape, é um dispositivo que aquece líquidos — chamados de juices (sucos, em inglês) ou essências — para produzir vapor inalável. Esses líquidos podem conter nicotina em concentrações variadas ou até mesmo não ter nicotina, mas sempre incluem outras substâncias químicas, como aromatizantes e solventes (ex.: glicerina vegetal e propilenoglicol).
O médico pneumologista Alexandre Milagres alerta que, os cigarros eletrônicos são muito perigosos e podem causar doenças graves que não existiam com o cigarro tradicional, como a bronquiolite obliterante, conhecida como ‘pulmão de pipoca’, causada pelo diacetil presente nas essências.
— Por exemplo, nunca se viu algum fumante de cigarro convencional ter o cigarro explodido na sua boca, perdendo dentes e rompendo língua, o que pode acontecer com esses eletrônicos. A ciência médica estabeleceu uma doença nova na nomenclatura científica chamada Evali, que é uma doença que não existia antes e é intimamente ligada ao cigarro eletrônico — disse Milagres.
Segundo o especialista, a sigla Evali, que também nomeia a ação deflagrada na quinta, quer dizer electronic and vaping associated to lung injury (eletrônicos e cigarros eletrônicos associados a lesões pulmonares, em inglês).
— A Evali é uma doença criada praticamente em 2019, após uma série de casos de jovens sendo internados em unidade terapia intensiva. Alguns morreram e outros foram, inclusive, submetidos a transplante pulmonar e até a transplante bipulmonar. Então, isso nunca aconteceu antes com os cigarros ditos convencionais — ressalta o pneumologista. — Ainda não temos décadas de estudos como os que comprovaram os malefícios do tabaco, mas os dados disponíveis indicam que os vapes são efetivamente prejudiciais e, em alguns casos, podem ser até mais danosos que os cigarros convencionais — conclui.
Segundo o pneumologista, os cigarros eletrônicos podem ser ainda mais perigosos que os convencionais porque contêm doses de nicotina muito maiores.
— Em alguns estudos, eles têm até 50 vezes mais nicotina. Como a nicotina causa dependência química, que é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo, os vapes representam um risco ainda mais grave nesse aspecto — revela Milagres.
Ou seja, o uso de vapes está associado a diversos riscos, como:
- Pulmão: pode causar inflamações, crises de falta de ar, bronquite e quadros graves como a doença conhecida como Evali (lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos).
- Coração e circulação: aumenta o risco de doenças cardiovasculares.
- Boca e dentes: provoca irritações, altera a produção de saliva e favorece doenças periodontais.
- Câncer: mesmo sem nicotina, libera substâncias tóxicas e cancerígenas, capazes de provocar danos ao DNA.
As denúncias sobre comércio irregular de cigarros eletrônicos podem pelo canal Fala Consumidor (SEDCON), pelos números de WhatsApp (21) 99336-4848 e (21) 98104-5445 (Procon-RJ), pelo telefone 0800-202-0143 ou pelo e-mail atendimento@sedcon.rj.gov.br