Era uma festa quando o seu Chaves chegava ao apartamento dos meus pais. Vendedor de livros há décadas, ele trazia novidades em um carrinho porta-mochilas, típico objeto dos anos 1980 e 1990. Vinha tão abarrotado que eu imaginava o dia em que aquilo ou não daria conta ou afundaria. Cansei de ver mamãe preenchendo folhas e folhas de cheque para parcelar. A compra da Enciclopédia Barsa foi um feito e tanto. Em alguns lares era símbolo de status, na prateleira do telefone fixo e do forno micro-ondas.
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De uma semana para cá, as redes sociais estão sendo tomadas pela nostalgia dos anos 80. Contando com a ajuda da inteligência artificial, as mais distintas pessoas, inclusive as que viveram o período, voltam ao que ficou conhecido como “década perdida”. Foi assim que cruzei virtualmente com uma imagem da minha vizinha de 74 anos usando um casaco colorido com fartas ombreiras, uma calça jeans com taxinhas chamativas, madeixas de participante do programa de romances do Silvio Santos e aquele ar de “hoje vou me acabar no Noites Cariocas”.
Boa parte das marcas superconhecidas que atravessaram os anos 80 e 90 já não está mais entre nós. “Yes, Brazil”, por exemplo, a cara do Rio de Janeiro exportador de tendências, fechou as portas nos anos 2000. Nascida em Ipanema, a Company se tornou objeto de desejo da garotada e hoje é só memória. Dona das roupas coloridas e da carteira com velcro, a Pakalolo, daquela maneira que conhecíamos, também foi pelo mesmo barco. Quem se lembra da Equatore?
Trajando ainda o uniforme escolar, devorava a obra de Marcos Rey. “O Mistério do Cinco Estrelas”, “O Rapto do Garoto de Ouro” e “Um cadáver ouve rádio” foram comprados do seu Chaves. Nessa onda de relembrarmos ou desvendarmos características de 40 anos atrás, fico aqui na esperança de que a turma olhe para a literatura e se permita viajar e viver o que IA nenhuma nos oferece.
Disco Voador
Ícone desde os anos 80, o Circo Voador testemunhou o nascimento de ídolos do rock brasileiro, tornou-se símbolo da contracultura e resiste bravamente. No verão de 1982, na Praia do Arpoador, um grupo de jovens ergueu uma lona perto do mar. O espaço reunia shows, espetáculos teatrais, exposições de artistas plásticos, performances e poesia. Era um ambiente livre, experimental e disposto a romper convenções.
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O grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone cresceu em meio a essa efervescência. O cantor Cazuza também deu alguns de seus primeiros passos artísticos no Circo. A experiência no Arpoador durou cerca de três meses. Em outubro daquele ano, o projeto foi transferido para um terreno da prefeitura na Lapa.
O Circo Voador se transformou em um dos principais palcos da geração que renovou a música brasileira nos anos 1980. Os Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Hojerizah, Lulu Santos e Blitz estão entre os artistas que passaram por sua lona. O espaço, porém, nunca ficou restrito ao rock. Adoniran Barbosa e Luiz Gonzaga também se apresentaram por lá, reforçando a vocação do Circo como lugar de encontros entre diferentes gerações e estilos musicais.
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Em 1996, o espaço enfrentou uma de suas maiores crises. Luiz Paulo Conde venceu a eleição para a Prefeitura do Rio com o apoio do então prefeito Cesar Maia. Os dois foram comemorar a vitória durante um show da banda punk Ratos de Porão, liderada por João Gordo. A presença dos políticos provocou uma reação hostil do público.
Pouco depois, a prefeitura determinou o fechamento do Circo Voador, alegando irregularidades. O palco permaneceu fechado até 2004, quando foi reinaugurado após uma longa mobilização pela retomada do espaço.
Já que estamos na orla nos anos 80
No verão de 1987, milhares de latas recheadas com a erva proibida começaram a aparecer em praias do Rio de Janeiro e de São Paulo. O episódio surpreendeu o país, mobilizou a polícia e entrou para o imaginário popular com um nome que atravessaria gerações: o Verão da Lata.
A carga estava no Solana Star, embarcação que transportava ilegalmente mais de 20 toneladas de maconha. O destino final eram os Estados Unidos, mas o navio faria antes uma parada no litoral brasileiro.
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A tripulação, no entanto, descobriu que estava sendo monitorada e que uma operação policial havia sido preparada para interceptá-la. Na tentativa de eliminar as provas, os traficantes lançaram ao mar milhares de latas com a droga.
A correnteza fez o restante do trabalho. Os recipientes começaram a chegar a diferentes pontos do litoral, atraindo curiosos e pessoas dispostas a entrar no mar para tentar encontrá-los. A maconha retirada das latas ganhou o apelido de “veneno da lata” e passou a ser cercada por histórias sobre sua suposta potência.
O caso também produziu lendas que sobrevivem até hoje. A mais famosa afirma que Tim Maia teria contratado lanchas para procurar as latas antes que elas alcançassem as praias. A história nunca foi devidamente comprovada, mas tornou-se parte inseparável da mitologia do episódio.
Asdrúbal?
Um dos grupos teatrais mais importantes da nossa história, o Asdrúbal Trouxe o Trombone reuniu os múltiplos artistas Regina Casé, Patrícya Travassos, Nina de Pádua, Luiz Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna, Evandro Mesquita, José Paulo Pessoa e, entre eles, o diretor Hamilton Vaz Pereira. Item raríssimo sobre a trupe, o livro “Trate-me, leão” é uma pérola.
Por falar em livro
Completam-se 115 anos da chegada ao Rio de Janeiro da poetisa Jane Catulle Mendès, que consagrou a expressão “Cidade Maravilhosa”. O livro “A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque”, do jornalista Rafael Sento-Sé, esmiúça em detalhes esse fato.
Por fim
Em casa, Fernanda simulou como nós dois estaríamos em 1985, ano em que nasci. Meus vastos cabelos e o bigode à la Guilherme Karam até me empolgaram a voltar no tempo.
Verão da Lata, Circo Voador, Asdrúbal Trouxe o Trombone: os anos 80 estão em alta nas redes sociais
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