
Da janela de um apartamento, um morador registrou o momento em que três homens são assaltados por criminosos armados, à luz do dia, na Rua Dona Claudina, no Méier. As imagens foram publicadas nas redes sociais na última terça-feira pela Associação de Moradores do Méier (AMME) e mostram os bandidos fugindo de carro após a abordagem. O episódio reforça uma das principais preocupações apontadas pelos moradores em enquete do GLOBO: roubos e furtos de rua foram citados como o principal problema do bairro por 34,21% dos leitores.
Resultado da enquete: furtos e roubos de rua são principal problema do Méier
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A segurança ficou à frente de outras nove queixas apresentadas na enquete. A população em situação de rua apareceu em segundo lugar, com 18,65% dos votos, seguida por conservação de calçadas (11,61%), escassez de árvores (10,38%), trânsito (7,04%), transporte público (5,28%), poucas áreas de lazer (4,84%), comércio irregular (3,69%), falta de equipamentos culturais (2,9%) e enchentes (1,67%). A votação foi realizada pelo site e pelo WhatsApp da editoria Rio, e o resultado considera a soma das escolhas nos dois meios.
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Os dados oficiais, porém, mostram que o cenário varia de acordo com o tipo de crime. Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), na Cisp 23 — que reúne Méier, Todos os Santos e Cachambi — foram registrados 46 furtos a transeunte entre janeiro e julho deste ano, contra 43 no mesmo período de 2025. Já os roubos a transeunte somaram 112 ocorrências em 2026, uma redução em relação aos 135 registros nos sete primeiros meses do ano passado.
No caso dos celulares, porém, os números apontam para uma alta. Foram registrados 189 furtos de aparelhos entre janeiro e julho deste ano, contra 142 no mesmo período de 2025. Os roubos de celulares chegaram a 241 ocorrências em 2026, ante 136 nos sete primeiros meses do ano passado.
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Para entender como o problema aparece no cotidiano e quais medidas podem ajudar a enfrentá-lo, a equipe de reportagem ouviu moradores, a AMME e especialistas em segurança pública. Também procurou os órgãos responsáveis pelo policiamento, ordenamento urbano, iluminação, monitoramento e manejo de árvores.
A Rua Amaro Cavalcanti, próximo ao Viaduto de Todos os Santos: apontada por moradores como um dos pontos de preocupação
Alexandre Cassiano
Morador do Méier, o militar Iago Mello relata já ter presenciado diversas situações de violência nas ruas do bairro. De acordo com ele, um dos pontos de preocupação é a Rua Amaro Cavalcante, nas proximidades do Viaduto de Todos os Santos, onde criminosos se escondem perto da linha férrea e roubam celulares de pessoas que passam pela região.
Mello conta já ter visto tentativas de roubo também na Rua Domingos Freire, na Rua Vasco da Gama e nas proximidades da Rua Getúlio. Para ele, a insegurança interfere diretamente na rotina de quem mora no bairro.
— A insegurança está realmente deixando todos assustados ao andar nas ruas — afirma.
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A sensação também aparece dentro dos transportes públicos e em outros deslocamentos cotidianos. Mello lembra que sua irmã já foi assaltada algumas vezes dentro de ônibus que circulam pela região e, devido à insegurança, passou a utilizar aplicativos de transporte diariamente. A mãe dele, que caminha de casa para o trabalho, cita ocorrências frequentes nas proximidades das ruas Oliveira e Magalhães Couto, inclusive episódios de troca de tiros. Há cerca de um mês, Mello também ajudou um amigo depois de uma tentativa de furto de uma motocicleta estacionada em frente a uma academia.
Para a Associação de Moradores do Méier, a linha férrea também é uma rota usada por criminosos para chegar a pontos onde ocorrem furtos e roubos. O presidente da entidade, Jorge Barata, afirma que moradores relatam ocorrências principalmente nos arredores da Estação Silva Freire e do Viaduto de Todos os Santos.
Segundo Barata, os criminosos aproveitam a proximidade dos trilhos para acessar ruas onde há veículos estacionados. Ele cita as ruas Vinte e Quatro de Maio e Amaro Cavalcante entre os locais onde carros são alvo de ações criminosas.
A preocupação dos moradores, de acordo com o presidente da associação, aumenta depois das 20h30, quando termina a atuação do programa Méier Presente. Na avaliação dele, a redução do patrulhamento nesse horário contribui para a sensação de insegurança e para o registro de ocorrências.
Agentes da Força Municipal: Associação de Moradores do Méier pede reforço na segurança
Domingos Peixoto / Agência Globo
— Os moradores pedem mais policiamento justamente nesse período. Depois das 20h30, temos uma mudança na dinâmica e uma preocupação maior com furtos e roubos na Dias da Cruz e nas ruas próximas — afirma.
O presidente da associação diz que o reforço do efetivo é uma reivindicação antiga apresentada nas reuniões mensais do Conselho de Segurança. Ele defende mais operações, abordagens e presença das forças de segurança durante a noite.
Para o coronel reformado José Vicendra Silva Fira, ex-secretário nacional de Segurança Pública, a dinâmica urbana e comercial do Méier ajuda a explicar por que furtos e roubos de rua são tão presentes na percepção de quem vive no bairro ou circula por ele.
— A percepção dos moradores está muito ligada à dinâmica do bairro. O Méier tem atividade comercial intensa, grande circulação de pedestres, estação de trem e corredores de ônibus, características que favorecem os chamados crimes de oportunidade, quando o criminoso procura alvos de fácil acesso e baixo risco, como pessoas com o celular à mão ou veículos estacionados. Esses crimes atingem diretamente a rotina da população e, por isso, podem gerar uma sensação de insegurança maior, mesmo quando outros indicadores, como os homicídios, estão em níveis baixos — explica.
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O especialista defende um policiamento orientado por dados e evidências, com concentração de efetivo da Polícia Militar, da Guarda Municipal e da Força Municipal nos horários e pontos de maior incidência, em vez de um patrulhamento distribuído de forma uniforme pelo bairro. Entre as medidas, ele também aponta melhorias na iluminação pública, poda da vegetação que prejudica a visibilidade e reforço no monitoramento por câmeras.
Outra sugestão é aproximar as forças de segurança de comerciantes e moradores, com canais de comunicação e retorno sobre as ações realizadas:
— Não se trata simplesmente de colocar mais polícia na rua, mas de usar melhor os recursos policiais disponíveis e combiná-los com uma gestão urbana capaz de reduzir oportunidades para os crimes de rua.
A avaliação é semelhante à da antropóloga, cientista política e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Jacqueline Muniz, especialista em segurança pública. Ela reforça que, além da dinâmica do bairro e da circulação de pessoas, a própria organização do espaço urbano pode influenciar a percepção de insegurança e criar ou reduzir oportunidades para os crimes de rua.
Segundo Jacqueline, furtos e roubos interferem diretamente na rotina dos moradores. O medo pode levar uma pessoa a evitar determinados horários, ruas, pontos de ônibus ou trajetos, alterando a maneira como o espaço público é utilizado.
— A segurança no espaço público não é produzida apenas pela polícia. Iluminação, conservação das ruas e calçadas, transporte público, trânsito e ordenamento urbano também interferem nas condições de circulação e podem reduzir ou criar oportunidades para a ocorrência de crimes — afirma Jacqueline.
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Para ela, essa relação entre segurança e organização urbana também interfere no trabalho das forças de combate aos crimes. Locais com pouca iluminação, problemas de conservação ou dificuldades de circulação podem reduzir a visibilidade e dificultar o acesso dos agentes a determinados pontos.
No Méier, ela destaca que a ocupação urbana, a atividade comercial e a intensa circulação de pessoas, bens e serviços fazem parte da dinâmica do bairro, mas também podem criar oportunidades para crimes contra o patrimônio. Jacqueline ressalta, porém, que isso não significa que a região tenha uma característica excepcional ou seja particularmente difícil de policiar.
A professora também defende que o planejamento policial acompanhe as mudanças no território. Segundo ela, quando determinados locais e horários passam a receber maior atenção, os criminosos podem mudar seus trajetos, horários e formas de atuação. Por isso, dados sobre locais, horários, tipos de ocorrência e tempo de resposta devem ser considerados na distribuição dos recursos.
— O planejamento precisa acompanhar as mudanças do território. Não basta simplesmente aumentar a presença policial, é preciso entender onde, quando e como os crimes acontecem e combinar o trabalho de segurança com medidas de gestão urbana que reduzam as oportunidades para esses delitos — diz.
A Polícia Militar afirma que o 3º BPM, responsável pelo policiamento da região, mantém ações de combate a roubos e furtos com o emprego de viaturas e motocicletas. Segundo o comando, dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram redução de 14% nos roubos a transeuntes e de 9% nos furtos a transeuntes entre janeiro e julho deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025, na área do batalhão.
De acordo com a PM, também são realizadas operações planejadas em comunidades da região para localizar e desarticular criminosos envolvidos nesse tipo de ocorrência.
A corporação orienta os moradores a utilizar o Disque-Denúncia, no número (21) 2253-1177. Em situações emergenciais, a recomendação é ligar para o 190 ou acessar o aplicativo 190. A PM ressalta ainda a importância de registrar as ocorrências na Polícia Civil, para auxiliar na identificação dos autores.
Na Polícia Civil, a 23ª DP afirma que mantém ações permanentes de combate a roubos e furtos. A unidade informa que utiliza investigação e inteligência para identificar e prender os envolvidos, além de realizar operações e diligências em conjunto com a Polícia Militar.
Cada ocorrência, segundo a Polícia Civil, é investigada individualmente, considerando as circunstâncias do crime, a identificação dos autores e possíveis conexões entre os casos.
A Secretaria de Estado de Segurança Pública afirma que a percepção dos moradores também é levada em conta na definição das ações, ao lado dos indicadores criminais e das informações de inteligência.
A secretaria destaca os resultados registrados na área da 23ª DP, que abrange Cachambi, Méier e parte de Todos os Santos. Em julho deste ano, os roubos caíram 18% em relação ao mesmo mês de 2025, passando de 78 para 64 registros. Os roubos a transeuntes tiveram redução de 50%, de 20 para dez casos, enquanto os roubos de veículos passaram de 14 para dez. No mesmo período, não houve registro de morte violenta nem de roubo de carga na área.
Considerando os primeiros sete meses do ano, a secretaria destaca que os roubos a transeuntes caíram 17%, de 135 para 112 ocorrências. Os roubos de veículos passaram de 104 para 95, enquanto os roubos de carga caíram de três para dois.
Segundo a secretaria, embora a redução dos indicadores seja importante, ela não elimina a necessidade de ações permanentes. A Polícia Militar, o programa Segurança Presente e a Polícia Civil atuam de forma integrada, afirma o órgão, com ajustes nas estratégias para consolidar os resultados e melhorar a percepção de segurança.
A Guarda Municipal (GM), por sua vez, informou que sua divisão de elite, a Força Municipal, atua desde 7 de junho em um perímetro que abrange parte do Méier e do Cachambi.
A Guarda Municipal também destaca a redução dos registros desde o início da atuação da Força Municipal. Entre 7 de junho e 23 de agosto, houve redução de cerca de 10% nos roubos e furtos registrados nesse perímetro, em comparação com o mesmo período de 2025, segundo a corporação. O patrulhamento ocorre das 9h às 23h, com foco nos horários de maior incidência.
No período, foram realizadas 43 prisões ou conduções para delegacias, cumpridos quatro mandados de prisão e apreendidas ou recuperadas 11 motocicletas e sete celulares. Também foram apreendidas uma réplica de arma de fogo e uma arma branca.
O planejamento, segundo a guarda, é feito em conjunto com as polícias Militar e Civil. A GM Rio também mantém patrulhamento preventivo motorizado em todo o Méier e atuação 24 horas no Jardim do Méier.
As condições urbanas apontadas por moradores e especialistas também estão entre as frentes de atuação da prefeitura.
A Civitas Rio, centro de monitoramento da prefeitura, informou que mantém câmeras nos principais corredores de circulação e prevê a instalação de mais 95 supercâmeras inteligentes até o fim do ano. De acordo com o órgão, os equipamentos podem auxiliar as forças de segurança e o sistema de Justiça em investigações e na produção de evidências, mediante solicitações oficiais.
Na iluminação pública, a RioLuz afirma realizar inspeções diárias e serviços de manutenção preventiva e corretiva. O órgão informou que foram instalados 200 novos pontos de iluminação de LED e realizadas mais de 60 podas para melhorar a visibilidade das equipes de patrulhamento e das câmeras nas áreas de atuação da Força Municipal.
A Comlurb disse ter realizado 792 ações de manejo de árvores no Méier até agosto, entre podas e remoções. No fim de semana de 15 de agosto, o programa Corredores Verdes fez 58 intervenções na Rua Magalhães Couto, no trecho entre as ruas Adriano e Curupaiti. Foram 56 podas e duas remoções.
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