No mundo dos eletrônicos, progresso nem sempre significa estar na fronteira tecnológica. Dar acesso a bons recursos para um grupo maior de pessoas também significa avançar. O MacBook Neo, o novo laptop de “baixo custo” da Apple, está exatamente neste grupo: um dos lançamentos mais legais da gigante nos últimos anos não é um equipamento de ponta, mas abre as portas para um ótimo aparelho. A verdade é que vai ficar difícil para muitos laptops Windows, especialmente aqueles que miram o usuário comum.
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O barulho do Neo ficou em torno do preço. Nos EUA, antes dos aumentos de preços promovidos pela gigante, ele sai a partir de US$ 500 para estudantes e US$ 600 em preço cheio — os novos valores são, respectivamente, US$ 600 e US$ 700. Antes disso, o laptop mais barato da Apple era o MacBook Air M1, que custava US$ 1 mil. No Brasil, o Neo sai agora a partir de R$ 7,3 mil para estudantes e R$ 8,5 mil em preço cheio — o MacBook Air M1, a opção mais em conta da companhia, custava R$ 13 mil ao ser lançado.
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É aqui que o Neo começa a fazer diferença, pois ele entrega performance mais do que suficiente para as tarefas básicas da vida digital: acessar e-mails, tocar Spotify, rodar vídeos no YouTube e na Netflix com resolução 4K, transitar entre planilhas e documentos de texto, fazer compras em plataformas de comércio eletrônico, perder tempo em redes sociais, ler muitos sites ao mesmo tempo e acumular abas no navegador. E dá para fazer tudo ao mesmo tempo: em nossos testes, mantive cerca de 50 abas abertas ao mesmo tempo em três ambientes, incluindo uma alternância entre Spotify e YouTube. O Neo nem ficou suado.
A razão para isso é que ele carrega o chip A18 Pro, o mesmo da linha iPhone 16 Pro — sim, ele é laptop com processador de smartphone. Em benchmarks especializados, o A18 Pro supera em tarefas de núcleo único quase todos os chips Intel e AMD presentes no PCs na faixa entre R$ 6 mil e R$ 8 mil, como a linha Core i5. Isso acontece mesmo apesar de esses concorrentes trazerem muitas vezes 16 GB de memória contra 8 GB do Neo.
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Claro, o novo MacBook tem seus limites de performance quando o uso começa a se intensificar. No teste, ele começou a ficar engasgado quando, além das 50 abas anteriores, quando comecei a editar um vídeo simples em 4K — foram 40 minutos para renderizar. Caso o trabalho avançasse para uso de plugins de vídeo e áudio, a experiência iria se agravar. Ou seja, até dá para fazer vídeos rápidos para redes sociais, mas ir além exige um computador com chips da linha M. O mesmo vale para edição de fotos, enquanto as correções são simples, ele aguenta.
Para jogos pesados, como Resident Evil, ele também não é a melhor opção — e a questão aqui não é só chip e memória, mas a tela com taxa de atualização de 60 Hz. Porém, vale lembrar que muitos PCs na mesma faixa de preço também não são indicados para as atividades acima. E nas rotinas mais comuns, o Neo se destaca.
Outra maneira de observar a relação preço versus equipamento é que, embora carregue um chip de iPhone, ele é mais barato do que o próprio smartphone. No varejo, a linha iPhone 16 Pro, que leva o chip A18 Pro, é encontrada a partir de R$ 8 mil com o mesmo tamanho de armazenamento. Claro, para ser um aparelho de ponta, a linha 16 Pro do iPhone traz outras tecnologias mais caras, como um painel de Oled, mas, em resumo, o Neo tornou mais acessível boa parte de dos recursos de um iPhone topo de linha.
Neo tem tela de 13 polegadas, o que pode deixar cansados os usuários que passam longas horas na frente da máquina
Bruno Romani/O Globo
Concessões e pequenas vitórias
Pensado como um aparelho de baixo custo, o Neo precisou fazer algumas concessões que podem impactar na escolha. A primeira é o tamanho da tela: são 13 polegadas, o que determina o tamanho de todo o equipamento. Para quem passa muitas horas diante da máquina, o tamanho pode gerar desconforto — telas de 15,6 polegadas são mais comuns em PCs nesta faixa de preço. Ao trabalhar o dia inteiro nele, eu me senti cansado por causa da ergonomia. Ainda assim, o Neo pode sair mais barato do que um iPad de 13 polegadas — o mais barato na loja da Apple, o Air com chip M5, sai a partir de R$ 16 mil.
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Já o teclado é bem confortável, como o dos outros Macs, com botões que não afundam tanto, mas que não são rasos demais. A diferença aqui é que não há retroiluminação, como em outros modelos da Apple. Neste quesito, vale destacar o trackpad mecânico que funciona muito bem e que pode ser clicado em toda a sua extensão. Funciona melhor do que quase todos os trackpads disponíveis em PCs, que normalmente são ruins em aparelhos intermediários.
Uma limitação pode estar na quantidade de portas de conexão: são duas, uma USB-C 3.0 e uma USB-C 2.0 — além disso, há uma entrada para fones de ouvido (amém!). Ou seja, se o usuário precisar conectar muitos acessórios, como telas, armazenamento externos ou microfones, será obrigado a comprar adaptadores. Importante: este modelo tem suporte a apenas um monitor externo 4K, enquanto o MacBook Air, a partir do chip M3, tem suporte a 2.
A câmera é de 1.080p e não tem o sistema Center Stage, pior do que em outros Macs, mas muito superior ao que é oferecido por notebooks intermediários. Nos testes, não passamos vergonha em diversas entrevistas em vídeo que viraram reportagens no GLOBO.
Como falado antes, a tela não é para gamers, mas esse grupo não está sozinho. O painel de LCD não foi feito para edição profissional de fotos e vídeos já que cobre apenas 73% da gama de cores DCI-P3. Agora, falando apenas para o universo amador, ele tem resolução de (2.408 x 1.506) pixels e brilho de até 500 nits. É mais do que PCs na mesma faixa de preço que costumam exibir painéis de 1.920 ×1.080 pixels com 300 nits de brilho.
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Em termos de design, o Neo é feito de alumínio e se parece com qualquer outro notebook da Apple, o que para algumas pessoas conta bastante — são quatro cores disponíveis: amarelo, rosa, prata e azul. Ele pesa 1,2 kg, algo que poderia ser mais leve, mas permanece confortável o bastante para usá-lo esparramado no sofá. E tem um detalhe: por usar memória SSD como armazenamento, em vez dos clássicos HD, ele não tem a ventoinha que ainda acompanha muitos notebooks intermediários. Ou seja, ele pode ficar em cima do seu corpo e não vai esquentar, gerando desconforto e perigo de superaquecimento.
Sobre a bateria, os testes apontaram resultados interessantes. A Apple promete 16 horas de reprodução contínua de vídeo, uma medida que supostamente destaca a atividade mais faminta que um laptop básico pode realizar. Em nossos testes, atingimos 16 horas e meia de autonomia, mas tem um detalhe: quase nenhum vídeo foi reproduzido no período. O que mais rolou foi navegação na web e reprodução de Spotify com a tela em cerca de 75% e recurso de economia de bateria desativado. Sob as mesmas condições, mas com mais horas de vídeo envolvidas, a bateria durou 13 horas. Ou seja, é possível passar um dia inteiro de trabalho fora da tomada.
Na caixa, o Neo leva um carregador de 20W do tipo USB-C, que lembra muito um carregador comum usado para iPhone. O laptop suporta carregamento de até 30W, menos do que a linha iPhone 17, que vai até 40W. Em nossos testes, ele levou duas horas para obter carga total.
MacBook Neo é feito de alumínio, pesa 1,2 kg e está disponível em quatro cores
Bruno Romani/O Globo
Impacto
Ao entregar excelente performance por preços competitivos diante de PCs intermediários, a Apple se torna uma opção muito atraente, inclusive para usuários brasileiros, que historicamente precisam lidar com os valores altíssimos dos eletrônicos da empresa. Para quem pode comprar fora do Brasil, o negócio fica ainda melhor já que o preço fica bem abaixo do limite de US$ 1.000 de isenção alfandegária.
As concessões que a companhia fez não devem abalar a maioria das pessoas, como uma tela um pouco menor, a incapacidade de lidar em nível profissional com fotos e vídeos e a falta de fôlego para games pesados — de todas elas, a presença de apenas duas portas de conexão é a que mais incomoda.
Assim, a Apple abre uma grande frente de mercado, que deve preocupar as fabricantes de PCs e Chromebooks. A julgar pelos primeiros números, o Neo é um sucesso. Segundo a consultoria IDC, foram vendidas 1,1 milhão de unidades apenas nas primeiras três semanas. Atualmente, a loja da Apple no Brasil tem fila de espera de três a quatro semanas para receber qualquer uma das cores do notebook.
Além de abrir novos mercados, o aparelho mais acessível vira a porta de entrada para um ecossistema que é bem difícil de se livrar posteriormente, o que inclui iPhone, AirPods, Apple Watch e um grande pacote de serviços. Fisgar alguém ainda jovem pode garantir à empresa décadas de consumo. Ou seja, a companhia entendeu que ser ponta de lança tecnológica nem sempre significa avanço. Permitir acesso a um grupo maior de pessoas também é progresso.
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