O comunicador angolano Albie Nguma tem uma dica infalível para ajudar quem está penando para pronunciar o nome do volante da seleção francesa N’Golo Kanté. É repetir várias vezes a palavra “angu” sem o A: ngu, ngu, ngu… E lembrar que o encontro consonantal NG forma um único som. Na semana passada, Nguma (olha o NG aí de novo!) viralizou com um vídeo em que reclamava do desleixo de jornalistas e comentaristas esportivos com a pronúncia de nomes de jogadores de origem africana, como N’Golo Kanté, seu colega Kylian Mbappé e Nathanaël Mbuku, ponta-esquerda da seleção da República Democrática do Congo.
O argumento de Nguma é simples: se os locutores conseguem falar nomes europeus como Bastian Schweinsteiger (ex-jogador alemão) sem tropeçar na própria língua, eles também são capazes de pronunciar corretamente nomes africanos (com algum treino, é claro: ngu, ngu, ngu…).
Influenciador angolano ensina a pronunciar corretamente nomes como Mbappé
— O som do NG, do N’Golo, e do MB, do Mbappé, é nasalado. Na hora de falar, você puxa um pouco de ar e coloca a língua no céu da boca. O M e o N não são mudos. E também não tem um E antes. Não é Em-bappé. É Mbappé — explica Nguma, que gravou um guia de pronúncia para o site do GLOBO.
Nguma tem 36 anos e vive no Brasil há uma década. Casou com uma brasileira e já tem até passaporte. Ele trabalha numa multinacional de aviação. Antes de se mudar para cá, passou um tempo na Ucrânia, mas todo inverno ele fugia para a casa de um primo, no Rio. Até que percebeu que seu lugar era mesmo aqui.
— O Brasil é o país dos meus sonhos — diz ele, que nasceu em Cabinda, no norte de Angola e cresceu numa família que não perdia as novelas brasileiras.
No ano passado, Nguma abriu um perfil no Instagram para divulgar a história e a cultura africanas motivado pelo desconhecimento dos brasileiros sobre o continente
— Para muita gente, é como se a África só existisse depois do século XV (com o início da colonização) e parasse no século XX (com o fim dos impérios coloniais). Quero mostrar que existe uma África moderna, contemporânea, para que o pessoal conheça e se interesse em visitar o continente. A África ama o Brasil e era bom o Brasil conhecer um pouquinho mais da África. Essa é a minha missão — diz ele.
Nguma conta que a página é também um jeito de homenagear o pai, Victor Nguma, que era professor de história e foi deputado da Assembleia Nacional de Angola. Assim como o pai, Nguma se define como “pan-africanista”, isto é, defende a união, a solidariedade e a autodeterminação de todos os povos de origem africana.
— Fiz a página para honrar a memória dele. Ouvi muita coisa absurda sobre a África, que o meu pai ficaria muito chateado se ouvisse.
Depois do sucesso do vídeo sobre a pronúncia correta dos nomes dos jogadores, Nguma ganhou cerca de 25 mil seguidores. Ao todo, são quase 155 mil. Ele diz que, com o sucesso, a sensação de responsabilidade também aumentou.
Nguma acredita que, das dez seleções africanas disputando a taça nesta Copa do Mundo, ao menos quatro estarão nas quartas de final:
— Marrocos, Senegal, Costa do Marfim e… República Democrática do Congo ou Cabo Verde. Acho que Cabo Verde será a surpresa dessa Copa — diz ele, que não esconde qual é a sua seleção preferida. — A primeira vez que eu chorei por causa de futebol foi na final da Copa de 1998 contra a França. Eu torço primeiro para o Brasil, depois para as seleções africanas (um pouco mais para Cabo Verde porque falam português) e por último para Cristiano Ronaldo.

