No início da tarde de uma terça-feira chuvosa no Rio, a cantora Alcione, de 78 anos, deu as caras no estúdio na Barra da Tijuca com o seu melhor vestido e o sorriso aberto de sempre.
— Zeca chegou primeiro, antes do que eu? — admirou-se a Marrom ao ver o Zeca Pagodinho, de 67, lá, faceiro e despachado, ao telefone.
— Tá bonita para caramba! Pode ir para o show direto — elogiou ele, bem do jeito Zeca.
Sem se deixar envaidecer, Alcione foi firme, cobrando do cantor:
— O Aragão vem hoje? Ele está sob a sua batuta.
Jorge Aragão, 77, o terceiro vértice daquele que se anuncia como O Maior Encontro do Samba, estava atrasado.
— Pô, o Aragão sob a minha batuta? Vou dar uma batutada nele! — decretou Zeca, ligando imediatamente para o amigo de muitas rodas de samba no subúrbio carioca.
Dua Lipa: Estrela inclui dois lugares do Brasil em lista de seus favoritos no mundo; descubra quais
À beira dos 90 anos e em atividade, Tom Zé admite: ‘Não tenho queixa de nada’
Toca o telefone, atende o sambista. Zeca Pagodinho (assim como Alcione, morador da Zona Sudoeste do Rio), começa a reclamar desse pessoal que insiste em viver na Zona Sul. Jorge Aragão, morador de Botafogo, diz que está a caminho e vai logo se explicando.
— É que eu tô mais perto do Flamengo, o meu time — argumenta ele, misturando bairros e futebol, para revolta de Zeca, um botafoguense que mora longe de Botafogo.
Alcione se reúne com Jorge Aragão e Zeca Pagodinho para ensaio da turnê O Maior Encontro do Samba
Marina Calderon
E assim começou o segundo dia de ensaios para a turnê, idealizada e realizada pela produtora 30e, que vai reunir os três históricos nomes do samba em uma série de apresentações em grandes estádios. O encontro inédito estreia este sábado no Rio (no estádio do Maracanã, com participação de Martinho da Vila), e depois vai para São Paulo nos dias 20 e 21 de junho, com retorno em 31 de outubro, no Allianz Parque. Com abertura de Arlindinho cantando as músicas do pai, Arlindo Cruz, participação especial de Martinho nos dois primeiros dias e abertura de Pretinho de Serrinha no terceiro.
O Maior Encontro do Samba segue por Brasília (19 de setembro, na Arena BRB Mané Garrincha, com Seu Jorge), Curitiba (7 de novembro, na Arena da Baixada, com Alexandre Pires e Martinho), Porto Alegre (14 de novembro, no Estádio Beira Rio, com Péricles), Belo Horizonte (28 de novembro, no Estádio Mineirão, com Gilberto Gil) e Salvador (19 de dezembro, na Casa de Apostas Arena Fonte Nova, com Martinho).
Quando Aragão chega, sorridente, já vai fuzilando o amigo:
— Não tenho que dar satisfação da minha vida para você!
Jorge Aragão (foto) se reúne com Zeca Pagodinho e Alcione para ensaio da turnê O Maior Encontro do Samba
Marina Calderon
Este resolve fazer troça com o chapéu do outro:
— Você entrou para a polícia?
Para quê? O alvo de Aragão passa a ser o dentinho de ouro e o cabelo tonalizado de Zeca. No meio da troca de zoações, fica difícil juntar os dois a Alcione para a foto.
— A gente vai ficar em pé, com a cara para a parede — ameaça Zeca que, depois de um punhado de cliques, avisa “pronto, agora chega!” e rapidamente sai da cena.
— Vim botar ordem aqui, eles me obedecem — gaba-se Alcione. — O que mais tem aqui é repertório. A gente sempre tem um plano na frente, mas quando chegou essa ideia, de cantar com aqueles dois, achei que ia gostar muito. Isso tudo (que está acontecendo) tem a ver com a nossa história, como a trajetória da gente. O samba já passou por tudo nesse país.
O roteiro de 36 canções (ou pot-pourris), organizado pelo diretor musical do espetáculo, Pretinho da Serrinha, começa com os três cantando juntos “Mutirão de amor”, a primeira parceria de Zeca e Aragão a ser gravada — justamente por Alcione, no LP “Almas & Corações”, de 1983. Eram tempos em que os dois viviam nos pagodes do Cacique de Ramos.
— Eu não era uma grande frequentadora do Cacique, ia de vez em quando, mas conhecia como é que era tudo lá — conta Alcione, que mais tarde, em 1987, gravaria “Novo endereço”, samba de Jorge Aragão com Sombrinha, então seu companheiro no grupo Fundo de Quintal.
— A Comadre já estava top de linha (nessa época), tudo que a gente queria na vida era fazer alguma coisa que ela pudesse gravar. Ela, Clara Nunes, Beth Carvalho… — revive Aragão. — Isso sempre foi a vida da gente, escrever, contar nossas histórias, o nosso dia a dia. Nunca foi o meu negócio fazer samba só pelo sucesso. Toda semana a gente chegava com uma música nova para cantar para nós mesmos, para a gente se sentir bem. É isso é até hoje.
Zeca Pagodinho (foto) se reúne com Jorge Aragão e Alcione para ensaio da turnê O Maior Encontro do Samba
Marina Calderon
De todo o repertório, uma música Alcione não pode deixar de fora: “Sufoco” (“e isso, por causa do Zeca, ai de mim que eu entre num show e não cante ‘Sufoco’!”, denuncia ela).
— A primeira vez em que ouvi “Sufoco”, eu vinha andando na rua em Irajá. Eu tinha uma namorada, e quando vim chegando, tocou a música e eu falei: “Virou a música do nosso romance!” Depois, só deu merda! — conta Zeca.
Alcione diz adorar hoje em dia a garotada que se descabela nos seus shows quando canta o romantismo rasgado de “A loba” e “Você me vira a cabeça (me tira do sério)”, que estão no repertório do encontro:
— Eles sabem tudo. Tem uma juventude aí que gosta muito de samba, que gosta da gente e que não abre mão da gente. O samba teve vitalidade para atravessar o tempo e graças a Deus que ele conseguiu seu lugar aqui nesse país, conseguiu chegar a uma galera jovem.
Pretinho da Serrinha, diretor musical da turnê O Maior Encontro do Samba, que reúne Zeca Pagodinho, Alcione e Jorge Aragão
Marina Calderon
Mas o repertório também comporta clássicos mais antigos do samba, como “Acreditar”, de Dona Ivone Lara.
— Essa é de Dona Ivone e Délcio Carvalho. Tem que falar os nomes dos parceiros! É igual o Nelson Cavaquinho: ninguém conhecia Guilherme de Brito (coautor em clássicos como “A flor e o espinho”, “Folhas secas” e “Quando eu me chamar saudade”), só o Nelson — protesta (com razão) Zeca, perguntando-se, no entanto, por que Pretinho da Serrinha teria incluído “Acreditar” no repertório. — Ah, porque ele é Império Serrano. É para puxar o saco do Roberto Ribeiro!
Pretinho se defende:
— Tem Mangueira, tem Portela no repertório, por que não vai ter Império Serrano também? O Zeca só reclama, ele já reclama antes de saber o que é (risos) — brinca o diretor musical, que montou uma banda que inclui craques como Carlinhos Sete Cordas (violão), Fred Camacho (cavaquinho) e Antônio Neves (sopros). — São três artistas, três bandas, três diretores musicais, três tudo. É tipo pisar em caco de vidro o tempo inteiro. Procurei então pegar um time totalmente banda de ninguém. Não é a banda do Zeca, não é a minha banda, não é a banda do Aragão, não é a da Alcione.
Músicos durante ensaio da turnê O Maior Encontro do Samba, que reúne Jorge Aragão, Alcione e Zeca Pagodinho
Marina Calderon
Prestes a virar personagem de cinema (este mês começou a ser filmada a sua cinebiografia, “Deixa a vida me levar”, dirigida por Silvio Guindane e estrelada pelo sambista Mosquito), Zeca Pagodinho se diverte:
— Vou ter que ver o filme para saber da minha própria história.
Ele se anima em cantar no Maracanã (“futebol, samba e jogo de bicho, tá tudo junto!”) e se conforma até com a extensão da turnê para 2027: entre 11 e 14 de janeiro do ano que vem, ele, Alcione e Aragão estarão no Navio Maior Encontro do Samba, que parte de Santos com eles, mais Xande de Pilares, Belo, Seu Jorge, Péricles + Arlindinho, Turma do Pagode e Pretinho da Serrinha.
Zeca só não quer saber é de gravar disco de inéditas:
— Fiquei desanimado, não tem mais loja de disco, ninguém escuta mais nada. A Alcione gravou uma música minha e do Fred (Camacho) agora e eu só escutei porque o Fred me mostrou. Antigamente a gente ia para a loja, saía o disco e a gente dizia “ó, que capa bonita! Olha aqui quem tocou!” E aí, se eu ou Alcione gravasse a música de alguém, no mínimo o cara ganhava 200 mil, 300 mil por música. Agora dá uns dois mil. Tá de sacanagem, né?
Pérolas do Maior Encontro do Samba
“Você me vira a cabeça” (com Alcione): Clássico do romantismo arrebatado, de Chico Roque e Paulo Sérgio Valle, em que a Marrom deita e rola e a garotada delira.
“O sol nascerá” (com os três) e “As rosas não falam” (com Zeca e Alcione): Um pouco de Cartola (a primeira, em parceria com Elton Medeiros), um mestre da música brasileira, com quem a cantora, como boa e histórica mangueirense, conviveu bastante nos anos 1970.
“Malandro” (com Aragão): Samba que revelou para o Brasil a prolífica pena do compositor do Fundo de Quintal, ao ser gravada em 1976 por Elza Soares.
“Opinião” e “A voz do morro” (ambas com os três): O carioca Zé Kéti (1921-1999), um dos nomes que mais ajudaram a fazer a historia do samba, não poderia faltar na grande festa de Zeca, Alcione e Aragão.
“Gostoso veneno” (com Alcione): Uma das músicas mais conhecidas da primeira fase da carreira da cantora, resultado do feliz encontro entre os compositores Wilson Moreira e Nei Lopes. Poesia e ritmo que jorram da fonte.
“Enredo do meu samba” (com Aragão e Alcione): O autor mostra sua parceria com Dona Ivone Lara em dueto com a voz de ouro da canção popular. Imperdível.
“Não sou mais disso” (com Aragão e Zeca): Um patrimônio das rodas de samba do Rio de Janeiro, apresentada justamente por seus dois autores.
“Lama nas ruas” (com Zeca): Pagodinho leva para as arenas a memória de um de seus grandes parceiros, Almir Guineto (1946-2017), artista que também é sinônimo de pagode.

