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Em conversa com jornalistas, o líder ucraniano afirmou que quer “entender como ficará a arquitetura das garantias de segurança”, algo que prevê acontecer “dentro de sete a 10 dias”. Só depois disso ele concordará em se encontrar com Putin, “em uma ou duas semanas”, prazo também defendido por Trump. Ele ainda disse estar disposto a assumir “algum tipo de compromisso” com uma pausa temporária dos combates a curto prazo.
— O formato proposto provavelmente envolve algum tipo de concessão — afirmou aos jornalistas. — Eu disse ao presidente Trump que, de qualquer forma, precisaremos de um período de calma para desenvolver todo o plano para acabar com a guerra, se realmente quisermos que o plano seja sério.
Embora não tenha desistido de uma conversa com o líder russo, a primeira desde a invasão iniciada em fevereiro de 2022, as declarações deixam claras a preocupação em Kiev: Trump parece ter atendido às demandas da Rússia ao abandonar a pressão por um cessar-fogo imediato, e quer que a Ucrânia concorde com a cessão de parte de seu território. Além disso, o republicano sepultou qualquer chance do país fazer parte da Otan, a principal aliança militar do Ocidente, como quer Putin.
Neste cenário, as garantias de segurança parecem ser, ao lado do fim dos combates e da promessa de ajuda na reconstrução, uma das poucas coisas positivas que Kiev pode retirar de um acordo de paz. Daí a insistência do ucraniano em um plano o quanto antes.
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Na segunda-feira, na reunião que envolveu sete líderes europeus — incluindo da União Europeia (UE) e da Otan —, Trump e Zelensky na Casa Branca, surgiram alguns sinais de como seriam tais garantias. Países como Reino Unido e França defendem a criação de uma força terrestre de paz, que seria composta por soldados da Europa.
Inicialmente, Trump não descartou participar da iniciativa, mas no dia seguinte afirmou que seus soldados não pisaram na Ucrânia. Ao mesmo tempo, sinalizou que poderá participar da defesa aérea do país, sem se comprometer, contudo, com a criação de uma zona de exclusão aérea, como defende Kiev desde 2022. Por sugestão da Itália, o plano traria um mecanismo similar ao do Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte, que rege a Otan, e estabelece que um ataque contra um de seus membros será tratado como um ataque a todos. A Casa Branca não se manifestou sobre a ideia.
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Durante a conversa com os jornalistas, Zelensky afirmou que um possível encontro com Putin poderia acontecer na Áustria, Turquia ou na Suíça, país que se dispôs a conceder imunidade ao líder russo, alvo de uma ordem de prisão emitida pelo Tribunal Penal Internacional há dois anos. Segundo a AFP, Putin, em conversa com telefônica com Trump durante o encontro na Casa Branca, sugeriu que a cúpula ocorresse em Moscou, uma proposta rejeitada pelos ucranianos, e que de certa forma simboliza o desdém russo com a iniciativa e, especialmente, a pressa do líder americano.
Trump, que se encontrou com Putin na semana passada, diz que já deu início aos preparativos para a cúpula, mas o Kremlin afirma que uma reunião deste nível não sairá da noite para o dia. Na quarta-feira, o chanceler russo, Sergei Lavrov, disse que tudo precisa ser feito “com muito cuidado”, e alertou que discussões sobre as garantias de segurança à Ucrânia que não envolvam os russos “não darão em nada”. Nesta quinta-feira, ao falar dos planos ocidentais para o país vizinho, disse ser “inaceitável” a presença de forças estrangeiras.
— Como demonstram as discussões do Ocidente com o lado ucraniano, todos esses planos estão essencialmente relacionados à concessão de garantias por meio de intervenção militar estrangeira em alguma parte do território ucraniano — disse Lavrov, em Moscou. — E espero sinceramente que aqueles que elaboram tais planos estejam simplesmente tentando atrair atenção para si mesmos, ou que entendam que isso será absolutamente inaceitável para a Federação Russa e para todas as forças políticas sensatas na Europa.
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Ao falar da insistência de Zelensky e Trump para uma reunião com Putin, Lavrov disse que isso “tem o objetivo de mostrar seu suposto foco construtivo no processo de solução, mas, na realidade, está simplesmente substituindo o trabalho sério, árduo e difícil de concordar com os princípios de uma resolução sustentável da crise”. E completou comparando o trabalho do líder ucraniano por um acordo de paz aos tempos em que ele era apenas um comediante famoso em seu país.
— Nosso presidente disse repetidamente que está pronto para se reunir, inclusive com Zelensky, com o entendimento de que todas as questões que exigem consideração no mais alto nível serão bem resolvidas — concluiu.
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Enquanto o caminho da diplomacia parece tortuoso, no campo de batalha a Rússia lançou um dos maiores ataques aéreos contra a Ucrânia em semanas, atingindo cidades em todo o país e deixando ao menos um morto. De acordo com a Força Aérea ucraniana, foram usados 574 drones e 40 mísseis, sendo que a maioria foi interceptada pelos sistemas de defesa. Em Lviv, cidade no oeste próxima à fronteira com a Polônia, o prefeito afirmou que “dezenas de casas foram danificadas”. Na divisa com a Hungria e a Eslováquia, os bombardeios deixaram 12 feridos. As duas regiões ficam a cerca de mil quilômetros da linha de frente.
“Contrariando todos os esforços para encerrar a guerra, a Rússia realizou um ataque aéreo combinado massivo contra a Ucrânia durante a noite. Centenas de drones, mísseis hipersônicos, balísticos e de cruzeiro atingiram a infraestrutura civil e energética”, afirmou na rede social X o chanceler ucraniano, Andrii Sybiha. “Sem lógica ou necessidade militar, apenas terror contra pessoas, empresas e a vida cotidiana em nosso país. É por isso que os esforços para forçar a Rússia a encerrar a guerra são tão cruciais e reiteramos a disposição da Ucrânia de envidar todos os esforços para aproximar a paz.”