A saúde íntima também entrou na lógica das tendências das redes sociais. Em vídeos curtos, práticas como “detox vaginal”, vaporização com ervas, duchas internas e receitas com limão, vinagre ou bicarbonato são apresentadas como formas de eliminar odores, equilibrar o pH, prevenir infecções ou alterar a aparência da região genital. Produtos perfumados e métodos caseiros para clareamento da vulva e da virilha aparecem no mesmo universo, muitas vezes acompanhados de promessas de uma suposta higiene mais completa.
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A popularização dessas práticas acontece em meio a uma cobrança estética que também alcançou a intimidade. Odor, cor, formato e secreções que podem fazer parte das características naturais do corpo passam a ser apresentados como sinais de que algo precisa ser corrigido. O resultado é a criação de uma rotina de cuidados que, em alguns casos, pode interferir justamente nos mecanismos naturais de proteção da região.
A vagina possui uma microbiota própria, que participa da manutenção do equilíbrio local. Já a vulva, parte externa da genitália, está em contato direto com produtos aplicados sobre a pele. Por isso, intervenções sem indicação podem provocar irritação e alterar o ambiente vaginal, em vez de oferecer o benefício prometido.
“Saúde íntima não precisa de uma rotina cheia de produtos e intervenções. Quando existe corrimento diferente, odor persistente, coceira, ardência ou dor, o caminho não é testar uma receita viral, mas investigar o que está causando aquele sintoma”, explica a ginecologista Carolina Orlandi.
O mito da ‘limpeza profunda’
A ideia de que a vagina precisaria passar por uma espécie de limpeza interna para eliminar impurezas está entre os principais equívocos disseminados nas redes. Para a ginecologista e obstetra Núbia Fontes, o conceito de “detox vaginal” parte de uma necessidade que não existe.
“A ideia de que precisamos desintoxicar a vagina cria um problema que, na prática, não existe. Interferir nesse ambiente sem necessidade pode produzir justamente o desequilíbrio que a mulher estava tentando evitar”, afirma.
Duchas vaginais são um exemplo. Ao introduzir água ou outras substâncias no canal vaginal, a prática pode alterar o ambiente local. O mesmo vale para o chamado yoni steaming, ou vaporização vaginal, em que a mulher se posiciona sobre um recipiente com água quente, geralmente acompanhada de ervas, sob a promessa de limpar ou equilibrar a região.
Para o ginecologista Rafael Lazarotto, a origem vegetal de uma substância não determina, por si só, sua segurança.
“Existe uma associação equivocada entre ‘natural’ e ‘seguro’. A região íntima é sensível e a exposição a calor excessivo, substâncias irritantes ou produtos sem indicação pode provocar ardência, irritação e até lesões. Quando há um sintoma, tentar corrigir por conta própria pode ainda atrasar o diagnóstico da verdadeira causa”, alerta.
Quando o cuidado vira cobrança estética
A mesma lógica aparece em receitas caseiras para controlar o odor ou clarear a vulva e a virilha. Limão, vinagre e bicarbonato são alguns dos ingredientes que circulam nas redes com essa finalidade. O problema não está apenas no risco de irritação, mas também na expectativa criada em torno de como a região íntima deveria ser.
“A região íntima tem características naturais, inclusive de odor. O problema é criar a expectativa de que ela precisa ter cheiro de perfume. Produtos muito perfumados podem causar irritação em mulheres mais sensíveis”, pontua a ginecologista Giovana Brunet.
A especialista identifica nessa tendência um reflexo de uma cobrança que já existe sobre outras partes do corpo. Ao ser aplicada à região genital, ela transforma variações naturais em características que supostamente precisam ser modificadas.
“Estamos levando para a região íntima a mesma cobrança de perfeição que já existe sobre outras partes do corpo. Cor, formato, odor e aparência apresentam variações naturais. Nem toda característica precisa ser corrigida ou transformada em um problema médico”, observa.
Nem todo corrimento é candidíase
Outro produto que ganhou espaço nas redes é o ácido bórico. A substância pode ser utilizada em situações específicas, com indicação e acompanhamento profissional, mas sua presença em conteúdos sobre saúde íntima contribui para a ideia de que sintomas diferentes podem ser tratados com uma mesma solução.
Segundo Núbia, essa é uma das armadilhas da automedicação. Corrimento, coceira e ardência podem estar associados a condições distintas, que exigem abordagens diferentes.
“Um dos maiores riscos da automedicação é tratar como candidíase algo que pode ter outra causa. Sintomas parecidos podem aparecer em condições diferentes e o tratamento inadequado pode prolongar o problema”, ressalta.
Em vez de partir do que viralizou, a referência deve ser a mudança em relação ao que é habitual para cada pessoa. Corrimento com características diferentes, odor persistente, coceira, ardência, dor ou lesões são sinais que merecem avaliação profissional.
“Corrimento com características diferentes, odor persistente, coceira, ardência, dor ou lesões merecem avaliação. Em vez de tentar mascarar o sintoma com produtos ou receitas encontradas na internet, precisamos descobrir sua origem. Saúde íntima não deve ser guiada por trends”, conclui Rafael.
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