“Eu me acostumei a ordenar as lembranças da minha vida com um cômputo de namorados e livros”, conta a escritora espanhola Rosa Montero na primeira frase de “A louca da casa”, livro lançado durante a 2ª Festa Literária Internacional de Paraty, em 2004, e que ganhou nova edição no final do ano passado. No embalo da obra em que a autora narra sua relação com a criatividade e reinventa a própria biografia, Rosa foi “um dos nomes de maior sucesso” daquela Flip, segundo noticiou o GLOBO na época.
- ‘Small town romance’: Ficção ambientada em cidadezinhas conquista público com galãs rurais, vizinhos excêntricos e sexo
- Entenda: ‘O capital’ volta às livrarias e prova que o espectro de Marx ainda nos ronda
Então casada com o jornalista Pablo Lizcano, estava escrevendo “História do rei transparente” (“um dos meus romances mais ambiciosos”, diz ela) e era publicada pela Ediouro.
Em 2009, Rosa enviuvou. Seus livros foram sumindo das livrarias brasileiras até que, uma década e meia depois do estouro naquela Flip, a Todavia começou a reeditá-la. O primeiro lançamento foi “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, no qual entrelaça a dor pela perda de seu companheiro ao luto da cientista Marie Curie, que manteve um diário após a morte de seu marido, Pierre.
- Roberto Marinho: Nova biografia retrata ascensão da TV Globo
Com obras como “O perigo de estar lúcida” (mais um de seus “artefatos literários”, que misturam ficção e não ficção) e “A boa sorte” (romance que investiga o que leva um homem a saltar de um trem numa cidade sem maiores atrativos), a espanhola reconquistou o público brasileiro. Ela já vendeu mais de 110 mil livros por aqui, entre impressos e digitais.
E Rosa estará na próxima Flip, a 23ª, que acontece entre 30 de julho e 3 de agosto e homenageia o poeta, músico e judoca Paulo Leminski. Detalhe: ela deixou escapar a notícia antes do anúncio oficial. No Instagram, uma leitora perguntou se Rosa tinha planos de visitar o país. “Vou no começo de agosto a Paraty para a Flip”, respondeu a autora. Ao GLOBO, ela disse que se confundiu: pensava que o segredo era a data de sua participação, não sua presença.
- ‘Como salvar a Amazônia’: Em livro póstumo, Dom Phillips navega labirinto de problemas e soluções da floresta
— Sinto muito se causei algum transtorno — desculpou-se a escritora, já animadíssima para a festa. — Não sou de ter expectativas, mas minhas expectativas para a Flip estão altíssimas! Vou tentar baixá-las (risos).
Na conversa com o GLOBO (por limitações de agenda, ela pediu as perguntas por escrito e respondeu por áudio), Rosa recordou a passagem por Paraty há 21 anos, recomentou uma “ginástica mental” para se proteger dos perigos do sucesso e confessou seus maiores medos: a morte, escrever as cenas “mais substanciais” de seus livros e a extinção da raça humana causada pela inteligência artificial.
Que lembranças você guarda da Flip de 2004?
Ah, foi maravilhoso! Uma verdadeira festa. Tive a sorte de participar da mesma Flip que Paul Auster (1947-2024) e Martin Amis (1949-2023)! Ian McEwan também estava lá, era o mais distante dos três. Me diverti muito com Auster, Amis e as esposas deles (Siri Hustvedt e Isabel Fonseca, respectivamente). Foi um momento lindo da minha vida.
- Peter Burke: ‘A ignorância dos poderosos é perigosa’
“A louca da casa” trata de suas principais obsessões: a emancipação feminina, a loucura e a morte.
Todos os meus livros falam das minhas obsessões. Sempre escrevemos sobre os mesmos temas. Escrevemos não para ensinar, mas para aprender, para jogar um pouco de luz nas sombras que nos habitam, nos nossos desejos, ilusões e angústias, naqueles lugares aonde as palavras não chegam. E assim vamos aprendendo. Descobri algumas coisas sobre mim mesma, acho que agora sei por que sempre fui obcecada por anões. Mas não posso te contar por quê. É muito íntimo.
“A gente sempre escreve contra a morte”, você afirma no livro. Tem medo da morte?
A maioria das pessoas vive como se fosse imortal, mas alguns de nós somos neuróticos obcecados pela morte, como Woody Allen e eu. Viver é desfazer-se no tempo. Tive ataques de pânico dos 16 aos 30 anos. Era medo da morte. Aos 20 anos, eu olhava pessoas com mais de 60 e os achava velhíssimos, não entendia como conseguiam ir ao cinema e comer paella tão felizes estando tão perto da morte! No lugar deles, eu achava que estaria embaixo da cama uivando de medo. Já passei dos 60 faz tempo e não estou embaixo da cama chorando. Enfrentei meu medo da morte escrevendo.
Em “A louca da casa”, você conta que às vezes “o medo de concretizar a ideia” a impede de começar a escrever. Aprendeu a lidar com esse medo?
Não é que eu tenha preguiça de escrever ou seja procrastinadora. Tenho medo de escrever as cenas mais importantes, mais substanciais do livro, que brilharam na minha cabeça por meses, por anos, como se fossem estrelas. Essas cenas me mobilizam a escrever o livro, mas, quando chega a hora, tenho medo de me sentar e escrevê-las mal. Ainda não aprendi a lidar com isso. Acho que não tem remédio. Talvez tomar um outro café, uma outra xícara de chá, sentar e começar a escrever sabendo que a perfeição não existe.
Você escreve que o fracasso adoece e mata, mas o sucesso também pode acabar com uma pessoa. Como se protege do sucesso?
Os riscos tanto do sucesso quanto do fracasso são tremendos. O jornal em que eu trabalhava, El País, apareceu depois da ditadura (de Francisco Franco, encerrada em 1975), fez sucesso rápido e transformou vários de nós muito jovens em estrelas. Eu tinha 25, 26 anos. Me assustei, porque meus amigos só pensavam em como se sustentar e eu era famosa! Mesmo não gostando de editar, assumi o suplemento dominical para deixar de assinar matérias. Queria que me esquecessem. Fiquei dois anos editando e por sorte não me esqueceram, o que me ajudou a publicar meus livros. Assim como é preciso malhar os glúteos para não ficar caída, o sucesso exige uma ginástica mental constante para não perdermos o contato com a realidade e virarmos uns idiotas.
Nos livros que você chama de “artefatos literários”, fala muito se si mesma, embora também ficcionalize a própria vida. Não tem medo de se expor?
Nos meus artefatos literários não falo de mim, falo de todos. É o que eu espero, pelo menos. No fim, é ficção. Se as pessoas acham que é tudo verdade, sinto muito. Quando meu companheiro morreu, meus amigos me disseram que escrever um livro sobre o luto podia me ajudar, mas eu disse que a minha literatura não tinha relação direta com a minha vida. Escrevi “A ridícula ideia de nunca mais te ver” depois de passar pelo pior do luto, assim eu pude falar não só da minha dor, mas da de todos.
A inteligência artificial parece ter respostas para tudo e sabe até contar histórias. A imaginação, que é a protagonista de “A louca da casa”, está em risco?
Não acho que a IA coloque nossa imaginação em risco. Ela é uma ameaça à nossa liberdade de pensamento, porque tem a capacidade de nos manipular, nos ditar o que queremos comprar, comer, dizer, pensar. Em quem votar. Por isso alguns cientistas já falam em aprovar os neurodireitos, que basicamente proíbem que entrem na nossa cabeça sem nossa autorização. Geoffrey Hinton, que ganhou o Nobel de Física no ano passado, teme que uma superinteligência artificial nos leve à extinção. Ele deixou seu emprego no Google para falar sobre o perigo da IA.
“A louca da casa” é um elogio das possibilidades da literatura, que permite viver diferentes vidas, reinventar-se. O que a literatura te deu?
Sinto pena de quem não lê. Não ler nos mantém na ignorância, e a ignorância conduz a uma vida menos livre. Saber é poder, não? Ler é viajar em direção ao outro: outros mundos, outras cabeças. A vida é sempre menor que os nossos sonhos e a arte é uma possibilidade de ampliá-la. Escrever é como ler, mas é muito mais intenso, porque, de certa forma, você realmente vive aquilo que escreve. É maravilhoso.
Você vive parte do ano em Cascais, no litoral lusitano. Já fala português?
É uma vergonha, mas ainda não falo português. Entendo muito bem. Quando divulgo meus livros em Portugal, os jornalistas fazem as perguntas em português e eu respondo em espanhol. Sabe por que ainda não aprendi português? Porque vou para Cascais para escrever. Me tranco em casa e não falo com ninguém, só com os atendentes do supermercado. Meu recorde foi ficar cinco semanas sem falar com ninguém!

