Thiago Marques Luiz é produtor de Alaíde Costa há 20 anos. Ao longo desse período, realizou dez álbuns da cantora, mas nunca deixou de escutar dela: “Quero fazer o disco da Dalva.” Pois agora, perto de completar 90 anos (em dezembro), ela vê seu sonho concretizado com o lançamento de “Uma estrela para Dalva”.
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O fascínio por Dalva de Oliveira (1917-1972) vem do início dos anos 1950, quando Alaíde ouvia bastante rádio e já participava — e era premiada — em programas de calouros.
— Ela era a cantora que eu mais admirava. Também gostava de Neusa Maria, mais suave, mas as interpretações da Dalva me chamavam muito a atenção — diz Alaíde, reconhecendo que os estilos são bem diferentes: ela, contida; Dalva, expansiva. — Aprendi bastante com ela a passar emoção. Bem, eu acredito que passo emoção.
As duas não foram próximas. Mas, em 1958, Dalva estava sendo fotografada na Rádio Nacional quando reparou na jovem amadora observando a cena. “Vem cá, menina!”, chamou a experiente cantora, como recorda Alaíde (o registro pode ser visto em foto nesta página).
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O novo álbum teve estímulo, há muitos anos, de Hermínio Bello de Carvalho, que já produziu discos da cantora e é seu grande amigo. Mas o repertório é resultado da memória e do gosto de Alaíde.
— Ela sabia todas as letras de cor. No estúdio, só precisou gravar um ou dois takes de cada música — conta Thiago Marques Luiz.
O produtor sugeriu um formato intimista para as 17 faixas. Alaíde foi acompanhada por apenas um músico em cada, no máximo dois.
Entre os acompanhantes estão os pianistas Zé Manoel, Vitor Araújo, Antonio Adolfo, Cristovão Bastos, André Mehmari, Amaro Freitas, Itamar Assiere, Alexandre Vianna, Gilson Peranzzetta e José Miguel Wisnik.
Os violonistas são Filó Machado, Guinga, João Camarero, Roberto Menescal (tocando guitarra) e Gabriel Deodato. Também participam a flautista Léa Freire, o saxofonista Roberto Sion e, numa faixa, Yuri Queiroga nas programações.
Maria Bethânia, uma das mais frequentes intérpretes do repertório de Dalva, faz um duo inédito com Alaíde em “Ave Maria no morro” (Herivelto Martins). E Edson Cordeiro canta em “A grande verdade” (Marlene e Luiz Bittencourt).
Outros sucessos de Dalva presentes são “Há um Deus” (Lupicínio Rodrigues), “Errei sim” (Ataulfo Alves), “Bom dia” (Herivelto Martins e Aldo Cabral), “Tudo acabado” (Oswaldo Martins e J. Piedade), “Segredo” (Herivelto Martins e Marino Pinto) e “Bandeira branca” (Max Nunes e Laércio Alves).
O álbum é mais um passo no reconhecimento de Alaíde como uma voz fundamental da música brasileira. É um processo que se dá nesta década de 2020 e que tem como ponto forte “O que meus calos dizem sobre mim”, disco produzido em 2022 por Emicida, Pupillo e Marcus Preto.
— Conheci Alaíde num momento em que as pessoas não davam confiança para ela — ressalta o produtor Thiago. — Fiz o disco “Alaíde canta Milton” em 2008 e não consegui marcar um show. No disco dela com a Claudette Soares (de 2018), um repórter de uma revista disse para eu nem mandar que ele ia jogar no lixo. Reconhecimento é muito bom, mas podia ter vindo antes.
Quando “O que meus calos dizem sobre mim” ganhou o Prêmio da Música Brasileira, ela foi aplaudida de pé no Theatro Municipal do Rio. Em 2023, no Carnegie Hall, em Nova York, foi ovacionada. Era um show de celebração da bossa nova, da qual Alaíde participou nos primórdios, mas nunca teve o devido reconhecimento.
— Ainda estou surpresa com tudo. Vejo muitos jovens nas minhas apresentações. Eles levam LPs meus para eu autografar — espanta-se ela, que diz não se ver mais como vítima de preconceito. — Antes me falavam: “Você canta coisas difíceis. Por que não canta um sambinha, uma coisa alegre?” Eu não entendia que era racismo.
Thiago relata que a recente fama de Alaíde não a livra de confusões. Já a chamaram de “dona Adelaide”. E uma moça disse que gostava quando ela cantava músicas do repertório de Alcione — algo que nunca fez.
Mesmo “Uma estrela para Dalva” só nasceu, segundo Thiago, quando ele começou a usar dinheiro do próprio bolso:
— Se eu não fizesse isso, ninguém ia fazer. Ela vai completar 90 anos. Quanto tempo mais ia ter que esperar?
A situação melhorou quando o projeto foi acolhido pela gravadora Deck, que também o lançará em vinil, mas com três faixas a menos.
Alaíde, carioca de Água Santa (Zona Norte do Rio) radicada há 42 anos em São Paulo, está feliz com os elogios que tem ouvido pelo novo trabalho, mas, perfeccionista, ainda não pôde constatar as qualidades:
— Não gosto de me ouvir. Não ouvi ainda.

