Dos 26 estados brasileiros, Mariana Xavier já esteve em 14: além do Distrito Federal, viajou de Norte a Sul com o monólogo “Antes do ano que vem”, que celebra três anos em cartaz em nova temporada no Teatro Copacabana Palace até 13 de julho. O sucesso não é obra do acaso, e sim da urgência de um tema universal: a saúde mental e seus desdobramentos. O carisma da atriz e humorista carioca de 45 anos entremeia-se nos conselhos de Dizuite, faxineira que atende telefonemas na noite do réveillon em uma clínica psicológica. “Minha meta sempre foi fazer algo não apenas por entretenimento, mas para gerar reflexão e crítica social”, afirma Mari, em entrevista por chamada de vídeo direto de Pernambuco, terra de sua mãe, Etiene. “A sociedade nos empurra que devemos ser infalíveis. Quantos não adoecem para sustentar esse status? Sem dúvida, esse trabalho é o maior orgulho da minha carreira.”
Da fama repentina como Marcelina, filha de Dona Hermínia (Paulo Gustavo) no filme “Minha mãe é uma peça” (2013), aos papéis nas novelas “A força do querer” (2017) e “I love Paraisópolis (2015)” e no clipe “Jenifer”, de Gabriel Diniz, Mari conquistou, principalmente, maturidade. Hoje, batalha pela diversidade de papéis e a quebra de estereótipos para mulheres gordas. Também levanta a voz para 2,5 milhões de seguidores no Instagram sobre amor-próprio e prazer sexual. “Nosso corpo é negligenciado. Muitas mulheres morrem sem nunca terem tido um orgasmo. Quero resolver esse problema”. Por isso lançou, recentemente, o próprio “satisfyer”.
Missão de vida
No Rio, uma senhora de uns 80 anos pediu ao gerente do teatro para me mandar um recado: ‘Diz a ela que esse espetáculo salvou minha vida’. Muitos falam que saem com vontade de viver, viajar, passar mais tempo com os pais. É uma missão social e espiritual (se emociona).”
Burnout e freio de mão
“O excesso de trabalho quase me derrubou. Tinha crises de choro, estava sem energia, não ria mais das coisas. Fui ao psiquiatra e puxei o freio de mão. Quando a gente ama o que faz, alimenta-se daquilo, é fácil ceder. Há também a instabilidade da profissão, o medo da escassez. Além da peça, estava dando palestras, lançando a série ‘O prazer é meu’, no GNT, e o filme ‘Doce família’, na Netflix. Precisei parar.”
Amor próprio
“Fui vítima da ditadura da magreza e, na adolescência, acreditava que ser gorda era a pior coisa do mundo. Remédios me fizeram muito mal. Hoje, tento ser a referência que não tive: você não é um corpo, você tem um corpo. Eu me exercito, me alimento bem. Quero ser respeitada como sou, do tamanho que tenho.”
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Casting e preconceito
“Quase desisti da carreira de atriz. Foram anos de estereótipos: a gorda amiga da protagonista, a que se apaixona pelo cara que nunca a quer. Não sei se venci, mas já fiz papéis desvinculados do meu corpo. Entendi que havia duas escolhas: ou me encaixar no sofrimento ou bancar minhas características. Não é o meu corpo que incomoda, mas a minha liberdade.”
Dia dos Namorados
“A sexualidade ainda é tabu e fazer as pazes com a minha fez toda a diferença para mim. Pesquisei muito e decidi lançar um sugador de clitóris que irá democratizar o prazer. Sex toys costumam ser caros, mas baixei minha margem de lucro para que mais mulheres possam experimentar. É em formato de gatinho e começou a ser vendido no fim de maio. Ou seja: já chega para o Dia dos Namorados!”
Por falar em amor…
“Estou namorando. Nos conhecemos por aplicativo. Ele se chama Guido, tem um ano a menos que eu, é diretor de comerciais e mora em SP. Estava há dois anos solteira e fiquei insegura pensando em como recomeçar depois dos 40. Mas me permiti sair do casulo. É meu primeiro namoro à distância e tem sido gostoso. Sinto algo que achei que nem sentiria mais. Estou reaprendendo a dividir meu tempo e energia entre vida profissional e pessoal.”
