Italianos e brasileiros se enfrentam no Mundial em confronto entre clubes que têm no DNA o desafio a Milan e Flamengo, seus rivais rubro-negros — e fizeram disso identidade Inter de Milão e Fluminense se enfrentam pelas oitavas de final do Mundial de Clubes, mas essa história começa muito antes do apito inicial. Não se trata apenas de um jogo entre europeus e sul-americanos, mas de um raro encontro entre dois clubes que, separados por um oceano e mais de cem anos de bola rolando, compartilham traços profundos de identidade. O que une essas duas entidades históricas do futebol mundial é uma espécie de identidade paralela — construída, curiosamente, em oposição ferrenha ao vermelho e preto de Milan e Flamengo.Em Milão e no Rio de Janeiro, a Inter e o Fluminense cresceram ao lado de inimigos onipresentes, vermelhos e pretos, e transformaram esse contraste em combustível para existir.
Não por acaso, ambos dividem com seus adversários dois dos estádios mais emblemáticos do futebol mundial. A Inter vive há décadas sob o mesmo teto que o Milan no San Siro, o templo milanês que alterna sua alma conforme a cor das arquibancadas: azul e preta nos jogos da Inter, vermelho e preto nos dias de Milan. No Rio, o Fluminense também ocupa o Maracanã, partilhando o concreto, a mística e os mosaicos com o Flamengo — e tentando, com louvor, a cada clássico, reafirmar que não há único dono do endereço.
O que une Inter e Fluminense, Milan e Flamengo, acima de tudo, é a forma como surgiram: um do outro, em oposição. A Inter nasceu em 1908, depois que um grupo de dissidentes do Milan decidiu fundar um clube mais aberto, mais internacional, em reação à recusa dos rossoneri em aceitar jogadores estrangeiros. O Fluminense, por sua vez, viu em 1911 parte de seus atletas abandonar Laranjeiras e migrar para o Flamengo, que até então se dedicava apenas ao remo. Em ambos os casos, a ruptura virou origem — e o racha, destino. Os clubes que surgiram do “não” se tornaram centenários, orgulhosos, e nunca mais pararam de olhar para o outro lado da cidade com a sobrancelha arqueada. Não são só clássicos, são confrontos culturais, históricos, visuais.
Há também uma guerra estética. Em Milão, entre torcedores da Inter, chamar alguém de “rossonero” é uma ofensa grave. A combinação vermelho e preta é associada à fúria, à arrogância, ao estilo empolado do Milan. O azul e preto nerazzurro, por outro lado, representa — pelo menos no imaginário dos seus — racionalidade, elegância e sangue frio. Essa disputa cromática se repete com perfeição no Rio. Para os tricolores, o uniforme do Flamengo é um exagero gráfico, uma tentativa de se impor pelo volume. Já os flamenguistas olham o verde, branco e grená com desprezo: veem ali a pompa de um clube que teria parado no tempo.
A rivalidade, nesses dois casos, não é só de resultados — embora também o seja. Ela está nas pichações escondidas pelas ruas, nas faixas que cobrem o escudo do outro clube, nos xingamentos disfarçados de piada. Em Milão, é comum ver grafites com a frase “Via il rosso” — algo como “fora o vermelho” — ao lado de escudos cobertos por tinta azul. No Rio, tricolor que é tricolor evitar vermelho e preto até em ambientes casuais. A cor do inimigo é quase um código genético a ser rejeitado.
Até os mascotes participam dessa dramaturgia. O Milan adotou o diabinho como símbolo — provocador, insolente, desafiador. Para a Inter, ele encarna tudo que há de soberbo e ofensivo no rival. A Inter, por sua vez, adota a imagem da cobra (“biscione”), símbolo da nobreza milanesa e do sangue frio. Uma escolha que diz muito: uma figura que sugere estratégia, veneno, classe. No Rio, o Flamengo é o urubu, símbolo reapropriado da maneira mais poderosa possível, hoje bandeira de orgulho da maior torcida do Brasil. O Fluminense, sem uma figura oficial tão marcante, se apega à tradição como escudo simbólico — e, como a Inter, confia que sua história fala por si.
Ao longo do tempo, Inter e Fluminense aprenderam a conviver com a presença barulhenta de seus irmãos rubro-negros. A Inter viu o Milan vencer sete vezes a Liga dos Campeões e ser exaltado como modelo europeu. O Fluminense assistiu ao Flamengo colecionar títulos e invadir o país com sua torcida. Mas isso nunca calou os dois. Pelo contrário: reforçou seu sentimento de pertencimento. A Inter se orgulha de ter sido a primeira italiana campeã do mundo, de sua tríplice coroa em 2010 e do fato de ter vencido a Champions com um time totalmente estrangeiro. O Fluminense exibe com o mesmo orgulho o gol de barriga de 1995, o único a vencer a Libertadores no Maracanã e a história de quem fundou o futebol no Rio de Janeiro.
Hoje, quando entrarem em campo nos Estados Unidos, Inter de Milão e Fluminense não estarão apenas defendendo uma vaga nas quartas. Estarão representando uma linhagem peculiar do futebol: a dos clubes que nasceram para desafiar os gigantes rubro-negros ao lado — e que fizeram disso também a própria razão de ser. Não se trata de serem maiores ou menores, mais populares ou mais vencedores. Trata-se de carregar um traço em comum, profundo e às vezes invisível: o de viver em contraste constante com o vermelho e preto, e resistir a ele com tudo que têm — até a última faixa, até o último passe.
