O universo de mais de 4.500 cooperativas move uma parcela da produção brasileira estimada em meio trilhão de reais. Pouco visível nos dados do Produto Interno Bruto (PIB), o setor expandiu sua rede de associados em 11% em 2024, para 26 milhões. Ao empregar mais de 570 mil trabalhadores, indicou uma evolução de 3,52%, superior à da População Economicamente Ativa (PEA) no ano, segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).
Do extrativismo na Região Norte à oferta de crédito e planos de saúde por todo o país, o cooperativismo teceu uma rede que expôs produtores e prestadores de serviços locais à lógica da competitividade e da inovação. Além da expansão de negócios, deu impulso a comunidades remotas e assentou-se como meio de redução de desigualdades.
— Cada cooperativa nasce da necessidade comum de produtores, mantém-se próxima da realidade das comunidades e tem se provado viável, do ponto de vista econômico, além de ser social e ambientalmente justa — diz Tania Zanella, superintendente do Sistema OCB.
O total de cooperativas em atividade em 2024 ainda está sendo calculado pela OCB. Nos dois anos anteriores, encolheu de 4.693 para 4.509. O fato, porém, está longe de significar perdas. Fusões e incorporações, com o objetivo de alavancar a competitividade de antigas concorrentes, têm sido frequentes. Para este ano, a introdução do segmento de seguros promete reforçar as fileiras do cooperativismo.
O último AnuárioCoop, com dados de 2023, exibiu o peso econômico do setor. Os ativos das cooperativas somaram R$ 1,16 trilhão, com aumento de 17% em relação ao ano anterior, e os ingressos atingiram R$ 692 bilhões, cifra 5,5% superior. Por sua vez, os desembolsos com salários e encargos para os trabalhadores cresceram 27% no mesmo período, para R$ 31 bilhões.
Em especial, as cooperativas em operação em 2023 apresentaram um total de sobras de R$ 38,9 bilhões (+3%). Embora equivalente ao lucro de empresas, o indicador traz um desdobramento diferente, segundo Tania Zanella. No modelo cooperativo, como a comercialização se dá a preço de custo de produtos, os ganhos explicitam avanços na produtividade, na escala de produção e na gestão.
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Desde o fim do século XIX, as cooperativas atuam como molas propulsoras do desenvolvimento, segundo Davi de Moura Costa, professor da Faculdade de Economia e Administração de Ribeirão Preto (Fea-RP):
— A cooperativa tornou-se elemento de equidade neste país marcado pela desigualdade social. É uma atividade com características locais que beneficia especialmente as comunidades onde estão inseridas.
Hoje, estão presentes em todos os estados da federação. A concentração maciça no Sul e no Sudeste, em especial pela via do agronegócio, diluiu-se nas últimas décadas com a expansão ao Centro-Oeste e ao Nordeste. No Norte, apesar de experiências expressivas da agricultura familiar e do extrativismo, chegou tardiamente. Trata-se de uma fronteira regional a ser explorada especialmente em negócios de bioeconomia, diz Alair Ferreira de Freitas, professor da Universidade Federal de Viçosa (MG).
A contribuição das cooperativas não é medida apenas pelo resultado contábil dos negócios. Cada emprego gerado e cada aquisição numa loja ou numa prestadora de serviços impulsionam a economia da comunidade. A expansão, por sua vez, demanda mais investimentos públicos e privados em educação, saúde, moradias e infraestrutura.
Pesquisa feita pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e a OCB, com dados de 2022, revelou que a presença de uma cooperativa resulta em aumentos de R$ 5.100 por habitante no PIB e de R$ 48,10 por habitante na arrecadação dos municípios. O estudo trouxe a estimativa de produção total do cooperativismo de R$ 550 bilhões, equivalente ao quarto maior PIB estadual naquele ano.
A emergência do segmento de crédito, nos últimos anos, acentuou tais benefícios ao alcançar mais de 300 municípios desprovidos de instituições financeiras.
— As cooperativas de crédito têm funcionado como mola adicional ao desenvolvimento e à redução da pobreza ao alavancar investimentos produtivos locais — diz Alison Oliveira, pesquisador da Fipe.
Organizações de crédito
A Fipe e a OCB constataram que, em 2022, a presença de cooperativas de crédito num município provocou uma redução de 8,1% no ingresso de famílias pelo Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), em comparação com a média nacional. No caso do Bolsa Família, a queda foi de 26,2%. Em paralelo, as matrículas no ensino superior aumentaram 24,1%.
Os benefícios do cooperativismo não ajudam apenas o Brasil a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), traçados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para 2030. As três milhões de cooperativas do mundo trazem alento aos países emergentes e aos mais vulneráveis nas missões de erradicar a pobreza e de rumar para a produção ambientalmente responsável.
Construção de soluções
Não por acaso, a Assembleia Geral da ONU declarou 2025 como o Ano Internacional das Cooperativas.
— As cooperativas demonstram a importância de nos unirmos para construir soluções para os desafios globais — afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em janeiro.
Essas três milhões de cooperativas mundo afora englobam um bilhão de cooperados (12% da população mundial) e respondem por 280 milhões de empregos, segundo o Monitor Cooperativo Mundial, da Aliança Cooperativa Internacional (ICA). As 300 maiores geraram US$ 2,41 trilhões em sobras em 2021.
Nesse ranking, 12 brasileiras foram listadas, com base no volume de sobras, e 21, conforme a proporção desse resultado no PIB per capita. O Sistema Unimed despontou como a mais bem colocada em ambas listagens.